Este ano voltámos a acampar  mas desta vez o fascínio da minha filha foi com os balneários. 

Texto e ilustração: Rita

Para começar agarrei no livro da Amãezónia, abri na página com o artigo que escrevi o ano passado sobre férias hippies e usei a lista que tinha feito na altura para organizar as malas. Esqueci-me de levar uma colher de pau, mas foi só, de resto o artigo cumpriu largamente o seu propósito.

Chegámos, montámos a tenda, este ano muito mais espaçosa, abrimos mesas e cadeiras (também uma novidade, uma vez que o ano passado o registo era mesmo hippie e só tínhamos uma manta) e pendurámos uma rede romântica, na qual não me deitei uma única vez durante os sete dias em que estivemos acampados.

A minha filha lembrava-se vagamente da experiência anterior, da qual reteve essencialmente que o parque de campismo é um sítio com piscina. Mas para além da piscina, este ano descobriu outra coisa. Os balneários do campismo. M-e-d-o.

Comecei a reparar na insistência em ir lavar os dentes. Queria escovar os dentes antes e depois de jantar, a meio da manhã e depois de almoço, a toda a hora. Há sempre muito movimento na casa de banho das senhoras, há mulheres de todas as idades. Os espelhos, alinhados sob as bancadas, dão o ar de camarim artístico — o fascínio, portanto. Entrávamos, fazíamos o que era preciso e pelo canto do olho ficava a observá-la. Ela estava em modo absorção. Fixava o olhar em alguém que escovava energicamente o cabelo, pintava os olhos ou usava o ferro alisador. Podia ser uma menina mais crescida a bochechar, ou uma senhora mais velha a pôr creme na cara. Depois pedia-me a escova e tentava repetir a façanha que tinha visto. Eu tentava ajudá-la, mas rapidamente era sacudida de sobrolho carregado: “Não! Deixa-me fazer isto sozinha”. As senhoras atiravam olhares cúmplices e sorriam, enquanto a minha filha punha a cabeça para baixo, com o cabelo quase de molho numa poça, e agitava a escova o mais depressa que podia. Eu esperava de braços cruzados.

Um dia fomos tomar banho na hora de ponta. Havia uma fila grande para os chuveiros e nela algumas mães, com outras filhas da mesma idade. Para mim, para as outras mães, estar ali de pé era uma seca, queríamos obviamente saltar dali para fora, mas abaixo dos nossos umbigos, para quem estivesse atento, muita coisa se passava.

despique

A minha filha entrou e imediatamente detectou na fila uma menina sem camisola. Quis tirar a dela e pavonear-se com ar de sabida em frente à menina, porque tinha um micro top de biquíni e a outra não. Trocaram olhares de disputa. Mãos nas mini ancas. Depois reparou numa segunda menina com o cabelo solto, muito liso. Ciumeira. Chegou ao pé de mim e disse que tinha que tirar as tranças. Fez um pequeno desfile de pirraça, a abanar o cabelo ondulado pelas costas e a mostrar o top do biquíni. Assim que uma terceira menina saiu do duche e vestiu uma camisola de lantejoulas, a minha filha com os olhos a faiscar perguntou: “Trouxeste a minha camisola com coração?” Só me faltava esta. Campismo de lantejoulas. Pequenas gatas assanhadas – estas coisas ninguém tem de lhes ensinar, não é assim?

Os olhares, a expressão corporal, diziam tudo — o balneário era a feira infantil das vaidades. Em vez de darem as mãos e saltarem na risota (como aparecem no meu imaginário as meninas de 4 anos) estavam a competir para ver quem era a alfa, quem arrasava, quem mandava no pedaço. Bonito. Felizmente chegou a nossa vez de entrar na cabine do chuveiro. No dia seguinte à hora do banho a minha filha, contentíssima, saltitava: “Mamãaaa! Vamos tomar banho, vamos? Estão lá as outras meninas!” Não. Hoje vais com o pai.