Estamos sempre a tentar compensar os nossos filhos por coisas que os nossos pais nos fizeram (ou não fizeram) e é tão cansativo. Porém, incontrolável.

Texto: Diana
Ilustração: Rita

Como se criar uma criança não fosse já trabalho suficiente, arranjamos formas de complicar ainda mais a coisa. Entre as preocupações com a comida – tem de comer vegetais, não lhes dêem açúcar; bons hábitos – deitar cedo, lavar os dentes três vezes ao dia; boa educação – dizer olá, adeus, se faz favor e obrigada e todas as 350 ferramentas que queremos que adquiram para poderem ser seres humanos decentes, passamos a vida a tentar compensá-los de coisas que não fazem ideia. Coisas que não tivemos e queremos que tenham.

Se antigamente, há muitos anos, os pais queriam que os filhos estudassem porque eles não tinham tido essa hipótese, hoje essa oportunidade está em cima da mesa para quem a quiser agarrar. Hoje são outras coisas, pequenas, às vezes profundas, mas que fazemos questão de compensar.

mimos

A minha mãe não me deixava pintar as unhas e por isso a minha filha pode fazê-lo sempre que quiser. Não tive os sapatos de verniz que tanto pedi, a minha mãe achava-os pirosos, pois a minha filha tem as purpurinas que quiser. Fui obrigada a ter sempre o cabelo curto, a minha filha tem o prazer de sentir os seus caracóis balançarem ao vento. A minha mãe zangava-se quando eu fazia chichi na cama, eu levanto-me puta da vida mas da minha boca só sai um “não faz mal, acontece”, muda a cama, dá beijinho, volta a dormir.

Queremos dar-lhes a atenção, dedicação e espaço (tudo ao mesmo tempo) que achamos que deveríamos ter tido.

E fazemos planos, contrariamos os nosso primeiros instintos de reacção porque era assim que os nossos pais reagiam e não é assim que queremos ser. Imaginamos que nunca seremos assim ou assado porque queremos que os nossos filhos gostem sempre de nós, mesmo quando forem adolescentes imbecis.

Que peso, que responsabilidade, que cansaço. Que tarefa inglória, céus. E como deixar de ser assim?