Às vezes são 7h00, estou esticada na minha cama e penso: “Que bom, mais uns minutinhos de sossego”. Só que a essa hora já passaram pelo quarto da minha filha quatro unicórnios, três elefantes alados e um saci-pererê. E é claro que com esta movimentação ninguém consegue ficar mais tempo na cama. É o chamado poder da imaginação.

Texto e ilustração: Rita

Lembro-me de ser criança, não querer comer, e os meus avós dizerem-me “vem lá o bicho papão”. Ou melhor ainda, o homem-do-saco! Entretanto as criaturas sobrenaturais ou assustadoras do início dos anos 80 foram completamente atropeladas pelas da actualidade, que chegaram da América e de outros cantos do mundo. Mas há algumas que subsistem. Também me lembro de a minha avó dizer que chegou a ver bruxas nos montes, a dançarem à noite à volta de uma fogueira. (E ela não é pessoa de inventar). Afinal estas histórias sempre existiram, mais empoladas por uns do que por outros. Depende dos níveis de imaginação de cada família.

A criatividade sempre desassossegou a minha filha. Um dia, quando ainda tinha dois anos, estávamos as duas sozinhas em casa, e ela disse-me que o Sr. e a Sra. Caniço estavam sentados no sofá da nossa sala, e que eu devia mandá-los embora. Chegou a dizer-me isto baixinho, ao ouvido, para os visitantes indesejados não a poderem ouvir. Obviamente o sofá estava vazio, mas mesmo quando não acreditamos em fantasmas ou fenómenos poltergeist, no momento somos surpreendidos. Estranhos em casa? Na altura limitei-me a enxotar os senhores imaginários e o assunto acabou ali.

Passadas duas semanas deste episódio, a minha filha convenceu-se de que havia um monstro em casa, acompanhado do seu filho monstrinho. Tive que dar largas à imaginação para expulsar os intrusos, abri janelas e usei ambientadores em spray. No fim da minha performance rocambolesca ela disse-me que o pai monstro tinha ido, mas o filho monstrinho continuava escondido debaixo da mesa.
De vez em quando dou com ela a verificar se as portas e as janelas estão todas bem trancadas antes de se ir deitar, não vão aparecer fadas madrinhas a esvoaçar por ali. Mesmo depois de já lhe ter dito que quem tem que se preocupar com isso é o pai ou a mãe.

Também aconteceu perguntar-me várias vezes quando é que vamos ao sítio onde vivem os desenhos animados. Foi quando percebi que tudo o que vê na televisão é para ela um cenário real (irónico, quando lhe escondo a realidade do telejornal). 

Esta imaginação ingénua é das coisas que mais gosto na infância da minha filha, surpreendo-me e questiono-me onde irá ela desencantar estas ideias. Só à hora de deitar é que pode ser mais trabalhoso. Por vezes há bruxas ou monstros atrás das portas, e se dormir normalmente já é difícil, quanto mais quando a casa está povoada de criaturas de outros mundos.

Esta semana, de forma inesperada, viu a ilustração que fiz para este post e ficou aterrorizada. “Aahhh mamã! Sou eu! E está ali um monstroo.”

À hora de ir para a cama disse-me que eu não a podia deixar nem um segundo porque afinal sempre havia monstros em casa. Com muita calma tentei convencê-la que não. Fiquei com pena de dar um corte neste imaginário tão povoado, que sempre prezei, mas fui obrigada a dizer-lhe que bruxas e monstros são coisas inventadas. Que só fiz aquele desenho para brincar, como os que existem nos livros de histórias e nos filmes de desenhos animados. Mas não me livrei de ficar 1h30 a fazer-lhe companhia antes de adormecer. Na minha cama, claro.

Naturalmente a minha filha vê algumas das ilustrações que faço para a Amãezónia, e já me tinha dito de nariz empinado que não gosta que eu a desenhe zangada. Foi no dia em que viu este desenho, que acompanhava o post dos tipos de miúdos.

Vampirinha vampireta

Ontem, depois de ver o desenho do monstro fez-me um pedido: “Quero que me desenhes de outra maneira, quero que me desenhes montada num canguru!”. Aqui está filha, só para ti. Que a fantasia esteja sempre ao virar da esquina.

Canguru

P.S. (A entidade reguladora das ilustrações infantis já fez  saber que “se na terra dos cangurus faz calor, então este desenho está mal. Eu devia estar de manga curta.”)