Ser mãe é ter o mundo a dar conselhos e opiniões principalmente quando não pedimos nada.

Texto: Márcia Silva
Ilustração: Rita

Depois de uma gravidez a ouvirmos respostas a perguntas que nunca fizemos:

– “Ai que barriga tão grande, não é normal.”

– “Hummm….não gosto desse nome, porque não lhe chamas antes…?

– “Não, tu nunca o ponhas a dormir ao teu lado.”

E outros tantos bla, bla, bla indiferentes à nossa cara “mas eu pedi-te opinião??”, percebemos que a gravidez é vista como um referendo, um questionário aberto ao público. Depois, a cria nasce. Se tivermos juízo, tem o nome que queríamos e dorme onde queremos, mas para os outros, o referendo continua. E aí, vem uma certeza: há pessoas com tanta curiosidade em relação à depressão pós-parto que querem ver uma de perto. E juntam-se todas para potenciá-la.

Num elo secreto de união, os comentários pertinentes e fofinhos continuam:

– “Tchiii, grande barriga – ficou lá outro filho dentro?”

– “Esse mamilo não é nada bom para dar de mamar. Não vais conseguir.”

– “Ai estás a habituá-lo ao colo? Depois vais arrepender-te.”

– “Pois, são os pais das modas novas.”

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E mais bla, bla, bla de sogras, tias, primos e afins que deviam era ficar em casa a bordar aquelas pantufas que vamos esconder e esquecer no fundo da gaveta, em vez de parecerem abutres que querem dar mais umas bicadas num corpo que acabou de sair da guerra.

Ser mãe é coisa séria. É coisa bruta. E se um bebé é educado por uma aldeia, prefiro mudar-me para a selva. Não quero ter vizinhos neste assunto. Não, não quero opiniões que não pedi.

Não, não quero que me ensinem. Não, não quero que me questionem a cada segundo. Quero fazer. Quero errar. Quero ser mãe.

Aos que opinam sem ter filhos, nada a dizer-lhes. Não tenho como lhes explicar que não iria a uma nutricionista com 200 Kgs, por exemplo.

Aos que já tiveram filhos, não percebo como é que estão tão desocupados ao ponto de quererem educar o meu.

“Mas eu já tive dois, tenho mais experiência do que tu”. Tenho certeza que o Cristiano Ronaldo jogou melhor à bola a primeira vez que tocou na dita, do que o meu avô, passados mil jogos.

E na verdade, não quero mesmo saber quem faz melhor, nem quero fazer como tu.

Aliás, que grande sinal de ignorância achar que as crianças se tratam todas da mesma maneira e que aquilo que resultou com o teu filho deve ser replicado no meu, qual ratinho de laboratório.

Não são máquinas, as pessoas. Temos diferenças e por isso não podemos ser educados na linha de montagem da Autoeuropa.

Posso ser a pior mãe do mundo, mas na minha cabeça não o sou. Confio no que faço.

Mas e quem não confia? Quem se sente inseguro? Quem está mais assustado com esta guerra?

Fica com um filho com um nome escolhido por outra pessoa? Dá o colo que os outros acham indicado? Entra na tão provocada depressão pós-parto?

Deixem os pais ser pais. Deixem de ser abutres.

Opinem menos. Bordem mais.