Ficar sozinha em casa com uma criança, durante longos espaços de tempo, quando um dos pais vai para fora, pode ser uma das coisas mais difíceis da maternidade.

Texto e ilustração: Rita

O pai sai com os primeiros raios de sol, de madrugada. Nós ficamos em casa e ainda podemos dormir uma hora antes de começar a rotina. Esperam-nos 15 dias sem companhia. Seremos só as duas. Serão só 15 dias. Já houve alturas em que foi um mês e bem sabemos que um mês, para muitos, é peanuts. Especialmente num país com tradição de emigração. Mas para os novatos custa sempre.

A primeira vez que o pai saiu em trabalho a nossa filha tinha dois anos. Caramba, pensei que ia ser fácil, mas não foi. O Complexo de Electra é um filho da mãe e deu-me que fazer: ela ficou com febre, não quis ir para a escola e chorou todas as noites. Agora parece mais fácil, é uma situação que ela já conhece. Mesmo assim consome o triplo do mimo, aposta fortemente nos caprichos e ganha a largos pontos nas técnicas de manipulação. É o chamado problema das compensações. O pai não está, por isso tenta-se amenizar essa falta, suavizar a saudade com mais atenção, com mais mimo e claro, com mais cansaço. Sim, é para ficar de rastos.

Todas as coisas que a nossa cara metade habitualmente faz, teremos de ser nós a fazer. Não há aquela prática “tu fazes o jantar, eu brinco com ela”, “eu estendo a roupa, tu dás o banho”, “vais tu às compras enquanto eu a vou buscar à escola”. Isso acaba por uns dias. Quem fica faz as tarefas dos dois. Nestas alturas consigo entrar na pele de uma mãe solteira e percebê-la perfeitamente. A dinâmica muda, há que enfiar capa e máscara, pôr as mãos na cintura e cumprir a missão. O melhor é mudar umas coisinhas.

Quando o pai sai

Truques para facilitar a vida:

  • Costumo ser picuinhas com as refeições e tenho sempre muitas coisas caseiras. Nestas alturas isso acaba. Lembram-se do “Bitch, simplifica”? Pronto é isso. Não há iogurtes nem manteiga de amendoim caseira ou biscoitos da padaria. Compro mais coisas prontas no supermercado e tenho sopas congeladas.
  • Jantar fora é uma solução de última hora que costumo adoptar. Quando os minutos me começam a fugir das mãos e tudo se começa a atrasar, agarro na mão da minha filha e pergunto: “E se hoje fossemos comer caracóis?” Refeição na tasca da esquina para a mãe e para a filha. Eu afasto-me um dia dos tachos e ela fica radiante. Take away também funciona.
  • Há alturas em que parece que os dias se arrastam muito lentos e o pai nunca mais chega. Uma técnica boa para a temporada não parecer tão longa é enviar a miúda uns dias para casa dos avós. Distração garantida. Toda a gente sabe que na companhia dos avós os dias parecem muito mais curtinhos. Quando a vou buscar nunca se quer vir embora.
  • Colar um papel grande na parede e desenhar um calendário gigante ajuda a minha filha a perceber quantos dias faltam para o pai chegar. E a melhor parte é, ao fim da tarde, riscar o quadrado que corresponde ao dia que já passou. Também podemos fazer desenhos no calendário com as actividades de cada dia.
  • Combinar mais coisas com amigos ou familiares é essencial, é para isso que eles existem. Fazer um pic-nic ou visitar um amigo em sua casa pode fazer toda a diferença numa semana de rotinas infinitas. E todos sabemos que casas novas recheadas de brinquedos alheios são uma mina de divertimento.
  • O tempo a duas tem que melhorar de qualidade. Ficar em casa a embirrar uma com a outra não dá. Queima demasiados fusíveis à mãe (ou ao pai, se for ele a ficar em casa) e deixa as crianças em modo diabrete amuado (nossa, que violência). Ideias: ir ao cinema, à praia, patinar ou ao museu são algumas das coisas que já fizemos. Um aparte: confesso que adormeci a ver o Capitão Cuecas no escurinho do cinema, mas ela delirou. Deixá-la brincar com uma bacia de água também resulta na perfeição, mas nesse caso, contar com a casa inundada para limpar depois.
  • Planear as coisas fixes que faremos juntos quando o pai regressar: férias, praia, gelados, arraiais, festas, concertos. E marcar na agenda.
  • Ajuda, ajuda, ajuda, é palavra de ordem. Posso brincar, mas não adianta fingir que sou a super mulher, por isso aceito toda a ajuda e ainda peço mais um bocadinho. Quando os avós se oferecem para a levar a passear eu digo sim, as tias se oferecem para ir a workshops eu digo sim, as primas perguntam “queres que fique um bocadinho com ela para ires ao supermercado?”, eu digo quase sempre que sim. Também não costumo ter ninguém a ajudar com a limpeza de casa, mas nestas alturas contrato uma pessoa para vir umas horas.
  • Se a saudade estiver mesmo insuportável, comprar bilhetes de avião e zarpar para o pé do pai. O importante é dar a volta por cima.