A Mara e a Sandra apaixonaram-se e tiveram uma filha, a Ana. São uma família feliz, na maior parte do tempo, e seriam absolutamente completas se a família as aceitasse. 

Texto: Diana
Ilustração: Rita

Mara tem 38 anos e é educadora de infância. Sandra tem 41 e é enfermeira. Conheceram-se nas atividades organizadas pela Rede Ex-aequo uma associação de jovens lésbicas, gays, bissexuais, trans, intersexo e apoiantes: ciclos de cinema, acampamentos, viagens. Quando se conheceram, numa viagem à Serra da Estrela, tinham ambas namoradas, pelo que não perderam muito tempo uma com a outra. Só mais tarde, quando tinham terminado as suas relações, é que se aproximaram. “Fomos conversando bastante. Ela e umas amigas tentaram puxar-me do buraco onde me enfiei na altura. Entretanto outro acampamento surgiu e com ele surgiu também uma sensação de desconforto porque conversávamos mais por mensagens escritas e pelo chat, do que ao vivo, e algumas amigas empurravam-nos uma para a outra. Mas as coisas foram acontecendo até que começámos a namorar em março de 2009, entre idas e vindas de Aveiro e Santa Maria da Feira, já que trabalhávamos e vivíamos lá”, conta Mara.

Em 2010 surgiu a oportunidade de irem para Espinho viver juntas. Nunca mais se largaram. Vivem em união de facto, mas o casamento é uma hipótese, mas terá de ser Mara a chegar-se à frente: “Já pedi uma vez, agora espero que me peçam de volta ou marquem a data”, brinca Sandra.

Mara tinha 23 anos quando descobriu que era lésbica, com muitas lutas internas e externas: “Se calhar na vida já tinha tido algumas pistas, mas não percebi. Alguns namorados, relações sempre falhadas, até que na faculdade comecei a sentir uma coisa diferente por uma colega de curso, que depois passou a melhor amiga e depois a namorada.”

Sandra, por coincidência, descobriu com a mesma idade.

“A minha melhor amiga achava que eu era lésbica e estava apaixonada por mim. Um dia resolveu beijar-me e gostei. Para mim foi uma das melhores coisas que me aconteceu. Aos 23 anos procurava o príncipe encantado e só me apareciam sapos. E afinal tinha que procurar princesas.”

No entanto, e ao contrário de Sandra, cuja aceitação dela mesma foi “fácil e sem dramas”, apesar de para  a família só ter acontecido três anos mais tarde, Mara só se assumiu aos 34 anos.

“Foi precisamente após o nascimento da Ana. Da minha família direta só a minha irmã e uma prima sabiam. A minha família é muito conservadora e sempre foi muito difícil assumir-me. Vivi uma vida dupla durante 13 anos. Entre o nascimento, uma das coisas mais felizes da minha vida, e lágrimas de não ser aceite e de me sentir a pior pessoa à face da Terra.”

Tudo se precipitou quando a bebé nasceu. Mara estava numa situação de stress e tinha de se dividir entre as duas famílias: Sandra e a filha de ambas, e a mãe que cobrava a minha presença de Mara. “Um dia disparei tudo ao telefone. Além de ficar a saber que a filha era lésbica, que tinha uma relação com uma mulher, ficou a saber que tinha uma neta recém nascida. A reação imediata foi de incredibilidade mas no dia a seguir foi de revolta e mau trato verbal. Passou a ignorar-me e depois mudou radicalmente e optou por fazer de conta que está tudo bem. Não se fala do assunto, todos estão proibidos por ela e toda a família aceita e age como ela, à exceção, felizmente, de alguns primos que me têm apoiado.”

Uma vez que a mãe de Mara recusa a realidade, é como se Sandra não fizesse parte da família, pelo que nunca conheceu a sogra. Ana, que é apenas uma criança, está no meio da guerra de família.

lesbicas

“Incomoda-me o facto da pessoa que amo e que escolhi para constituir família, além de não ter pai, porque morreu há uns anos, acaba por não ter mãe também. Sinto que o mundo não pode estar bem quando temos pessoas cristãs e que frequentam a igreja, depois ajam com tanta falta de amor para com os seus. Custa-me que a senhora sinta vergonha que a sua filha me tenha escolhido. Talvez não seja o genro que tanto tenha sonhado, mas faço pela filha o que posso para que esteja bem e feliz. Revolta-me um bocado que fale nos sobrinhos netos como se fossem netos dela e não reconheça a neta como tal”, desabafa Sandra.
“Mas também sinto pena que não usufrua da neta que é simplesmente um doce e que talvez lhe aquecesse o coração”, acrescenta.
E se os natais e dias festivos eram passados com cada uma no seu sítio, Sandra não está disposta a facilitar mais: “Quero que a Ana Mar tenha os poucos natais em família, realmente em família, já que sendo enfermeira tenha poucos dias de folga. Quero as três juntas, seja em nossa casa, seja em casa dos meus pais ou irmã. Não faz sentido uma das mães ausentar-se nesses dias para estar com alguém que não faz o mínimo esforço para nos aceitar.”
“A minha mãe não invoca nenhuma razão. Diz que não está preparada, segue indicações do padre que lhe disse para não falar do assunto que acaba por desaparecer. Ele só se esqueceu de lhe dizer que o desaparecimento do assunto pode implicar inevitavelmente o meu desaparecimento”, explica Mara.
A maior preocupação, no entanto, é a filha: “Espero conseguir transmitir à Ana Mar que não é culpa dela nem nossa que existam pessoas que simplesmente não saibam amar”, remata Sandra.

O nascimento da Ana

 Sempre quiseram ter um filho?
Mara: Nunca tínhamos falado muito nisso, até começarmos a ver a possibilidade de se fazer inseminação. Eu nunca tinha pensado em filhos até porque sou educadora e sempre achei que os filhos dos outros, e o trabalho que isso implica, me chegava. Por outro lado, a Sandra sempre teve o desejo de ser mãe. Aliando esse desejo às possibilidades financeiras e ao querer construir um projeto em família, decidimos arriscar. Começámos pela Sandra, por ser mais velha, e se não corresse bem, sempre teríamos a possibilidade de eu, por ser ligeiramente mais nova, tentar posteriormente.

Sandra: Sempre quis ser mãe mas sempre achei que seria por adopção. Com o passar do tempo e com a legislação espanhola comecei a perceber que inseminação, apesar de cara, era o mais fácil burocraticamente.

Quando decidiram?
Em 2012, estávamos numa situação financeira confortável e a Sandra foi-se inteirando de dados: pesquisou clínicas, comparou preços e condições, tempo e modo de deslocações e decidimos arriscar, a idade da Sandra também avançava e isso também poderia complicar.

Como foi o processo?
Na altura a inseminação artificial em mulheres solteiras não era permitida em Portugal, pelo que nos encaminharam para a Clínica IVI de Vigo. Inicialmente assinámos um contrato, as duas, onde explicava tudo, o que incluía o pacote da inseminação e a percentagem de possibilidade em engravidar — apenas 20% na primeira tentativa. O pacote incluía as consultas e as ecografias necessárias durante todo o processo, excluía os exames extra e as análises, bem como toda a medicação para a estimulação e controlo hormonal. O sémen, de dador anónimo, também era extra, no valor de 280 euros. Podemos dizer que, entre viagens de carro, o processo em si, exames, análises, medicação não chegou aos 2500 euros. Mas tentámos e graças a uma sorte descomunal conseguimos à primeira!

O que vos preocupava mais?
O nascimento, o depois, a falta de proteção caso acontecesse alguma coisa à Sandra durante o parto. Ouviam-se histórias, demasiadas histórias e com contornos pouco felizes. E a ideia de lhe acontecer alguma coisa e de o nosso projeto a duas deixar de o ser, por causa dos laços de sangue, era aterradora.

Neste momento, legalmente, o que é que cada uma de vocês é para a vossa filha?
Uma vez que a lei foi alterada, já procedi ao requerimento do processo de coadoção da Ana em tribunal — durou cerca de 1 ano—  e o resultado foi favorável!  Só falta agora retificar no registo civil o cartão de cidadão da nossa filha, para na filiação aparecer o nome completo da Sandra, o meu nome completo e a alteração do nome da Ana com os nossos sobrenomes. Pelo que, neste momento, por decisão do tribunal a Sandra é mãe biológica e eu sou a mãe de coração. A Ana Mar tem duas mães: a Mãezoca e a Mãezinha.

Como foi a gravidez?
No início teve alguns sobressaltos, com perdas hemáticas,  vómitos, algum mau estar, mas depois o 2.°, 3.° trimestre correu tudo bem. A nível emocional, e como profissional de saúde, tinha muito medo que me acontecesse algo. Legalmente a Mara não tinha direitos e, logo, a filhota não tinha direitos.

Mara: Como a Sandra disse, foi uma gravidez normal, talvez com a agravante da ansiedade pela situação em si. No meio de todo o processo eu dizia muitas vezes: “Sinto-me o pai da criança.” Durante a gravidez ninguém te liga, só querem saber da mãe e depois do nascimento, ligam-te menos ainda porque só querem saber, primeiro do bebé, depois, talvez da mãe, e só depois, porque tu te fazes notar, de ti.

Como ficou a vossa relação depois dela nascer?
As prioridades mudaram, até porque a Ana não foi uma bebé fácil. Na altura eu não tive direito a licença, tive de arranjar dias de férias para poder apoiar a Sandra nos primeiros dias e foi muito difícil: entre bombas, leites de farmácia, a Sandra com mastites, febre, dificuldade em mexer-se, trocar fraldas e uma bebé que dormia entre 15 e 20 minutos, fosse dia fosse noite. Sem suporte familiar, ou outro tipo de ajuda, foi e é complicado. Não temos pausas para aliviar, namorar, cimentar a relação. Não temos noites de sexta para os avós, fins de semana para os avós ou quem quer que seja.

Sentem algum tipo de descriminação?
Não. Apenas achamos que a sociedade não está regulada, nem preparada para o que não é igual. Às vezes sentimos olhares quando as pessoas ouvem “as mamãs” mas achamos que é mais curiosidade do que outra coisa.

Ela alguma vez perguntou por um pai?
Neste momento a Ana sabe que tem duas mamãs e que as mamãs precisaram de ir ao médico para que ele pusesse uma sementinha na mãezinha (Sandra) para que ela pudesse crescer dentro da barriga dela. Ela é um pouco despistada e desliga facilmente. Se respondermos às questões dela, fica satisfeita  e responde: “Ah, está bem.”
Em alguns momentos disse que tinha um papá, porque todo os meninos na sala da escola têm um e porque, ao festejarem o dia do pai, eles levam uma lavagem cerebral: aprendem a música para o pai, ouvem história sobre o pai, fazem a prenda do dia do pai, logo ela não se querendo sentir diferente, e por ser pequenina ainda, ficava toda baralhada. Até mesmo o estereótipo das histórias é a princesa e o príncipe e as brincadeiras dos miúdos é a mamã e o papá. Em casa tentamos suavizar a coisa e explicar-lhe tudo como na realidade é. Ela tem contacto com vários tipos de famílias, daí que lhe seja tudo normal, natural.

Qual foi a pior coisa que vos disseram ou fizeram sentir?
Mara: só tive dois momentos muito maus: um com uma colega de trabalho, que não sabendo que eu era lésbica, disse relativamente a isso e passo a citar: “Essas pessoas só podem ter algum problema no cérebro, de certeza.” Estamos a falar de uma pessoa de 30 anos. O segundo momento muito mau: foi e está a ser com a minha mãe.

Sandra: Ter uma sogra que não me aceita só porque sou nora e não genro. Pior, que negue uma neta e não aproveite o amor gratuito que é próprio das crianças.

Ainda é difícil, socialmente, para um casal gay criar um filho? 
Não achamos. Em Portugal, somos mais de falar por trás, de espalhar brasas, mas na hora H não acontece nada. Acham curiosidade, como já referi, não questionam, algumas pessoas tentam lidar com a situação de forma natural. Temos de ser nós a ensinar os outros, mas esses outros têm de querer aprender. Uma vez que a lei já nos protege, a nós e às crianças, é muito mais fácil. Agora as pessoas têm que lidar com isso, mesmo que não queiram.