Infelizmente, este episódio que faz parte da história da Marta, pode ser parte de uma outra história de outra qualquer mulher portuguesa. Embora tenha tido um final feliz, há muitas (demasiadas) que não têm a mesma sorte.

Texto: Marta
Ilustração: Rita

Cá estou eu,  na casa dos 30 anos, trabalhadora afincada e leal, na mesma empresa há 7 anos. Apesar de já há algum tempo saber que daqui não vêm muitas oportunidades de crescimento e evolução, até gosto do que faço, não sou (muito) explorada e lá me vou deixando andar. Pouco reconhecimento e um ambiente de “cortar à faca” mas insisto em ficar (burra). Faço horas, chego mais cedo (masoquista).
Então chega o tal momento: vou ser mamã!
Noticia aterradora para o chefe, mas tudo continua e aqui a fiel e dedicada trabalhadora (e burra) trata de ajudar a recrutar um substituto temporário que seja bom e que cuide bem do seu trabalho enquanto vai para casa dar à luz e tratar do seu rebento. Um mês antes do nascimento, vou para casa. Licença de quatro meses (sim, a vida não é fácil e financeiramente tem de ser) e volto saudosa da minha pequena, mas cheia de vontade de voltar ao activo. Sou bem recebida. De volta à minha secretária, à minha cadeira. A ideia é fazer equipa com o novo colega (que é boa gente) e levar novos projectos para a frente.
Passa um mês e aquilo que se previa acontece. Uma proposta indecente (e ilegal, nem a vou colocar aqui) por parte da administração.
Já não se pode ter filhos neste país. Mas eis que aquele super poder que a maternidade nos dá fala mais alto e aqui a trabalhadora (já não tão burra) responde: “Não aceito. Para isso, faça a minhas contas.” E assim foi.
Chegada há um mês da licença de maternidade sou mandada embora. Todos aqueles anos de dedicação e trabalho de nada serviram quando o que interessa são os números. É mais fácil ter alguém a quem se pague bem menos, mais novo, homem e sem filhos. É o que temos.
confianca
Mas, esta estalada bem dada foi o rastilho que precisei para abrir os olhos para o mundo. Nem um mês depois já estava a trabalhar. Há mundo cá fora!
Passado mais de um ano, até já mudei de emprego, pois recebi uma proposta para melhor.
Resta-me dizer: obrigada, chefe, por me desrespeitar como mãe e mulher.
Saí do buraco e valorizei-me.
Autor

6 Comentários

  1. Carla Marques

    É caso para dizer que foi o melhor que podia ter acontecido. Às vezes acomodamo-nos a um trabalho que já não nos dá retorno nem prazer e a vida dá-nos um empurrão para partirmos para coisa melhor. 🙂

    http://www.vinilepurpurina.com

  2. Sofia Ferreira

    Como percebo! A mim contraram-me grávida porque precisavam urgentemente de uma pessoa (a anterior saiu em 3 semanas) e eu estava bem referenciada. Fui sempre às consultas no obstetra depois da hora de trabalho (às vezes às 21h), sempre que tinha exames para fazer, metia um dia de férias e trabalhei até uma semana antes de ter a minha filha. Dei “formação” a uma pessoa interna e deixei tudo o que podia deixar planeado e preparado. Quando voltei, mudaram-me as funções (basicamente para fazer aquilo que ninguém queria fazer). A minha chefia não me comunicou directamente porque (ironicamente) entrou de licença de maternidade mais ou menos quando eu voltei. Quando ela voltou, a proposta era continuar a fazer aquilo que não fui contratada para fazer. Não aceitei. Saí e nem cheguei a estar desempregada, pois uma empresa que já me andava a “namorar” quis logo contratar-me. Fui ganhar mais, trabalhar no centro da cidade e perto de casa. Um ano depois, uma outra empresa chegou a mim até mim também por recomendação e ofereceu-me uma pipa de massa, com direito a carro e uma função top! Agradeço neste caso não só à minha chefe, mas também às colegas: a que tentou ficar com a minha função (não conseguiu, passado meio ano já estavam a recrutar novamente) e à que aproveitou a minha ausência e depois a ausência da minha chefe para organizar as coisas de forma a eu ficasse com tudo o que ela não queria fazer. Todas continuam na mesma empresa, com as mesmas funções. Uma foi mãe a outra dizem que vai ser… Espero sinceramente que não lhe façam a mesma coisa. A todas elas, o meu grande obrigada!

    Beijinhos
    Sofia Ferreira

  3. Xica Maria

    Ainda bem que não aceitaste. Infelizmente ainda vivemos num país onde os homens são mais valorizados, até no ordenado e o mesmo se passa na minha empresa.
    Mas uma coisa é certa… caso sinta que o meu tempo acabou por lá, também saio. Sem medo!

    http://ourpicturingdays.blogspot.com

  4. Eu adoraria ter a mesma sorte! Depois de ser mãe, tb encontrei um mundo diferente à minha espera. Mudaram- me de serviço, puseram-me a trabalhar em horários bem piores do que aqueles que fazia e até hj tenho sido um verdadeiro pano de chão, pq ainda por cima prolonguei o a minha licença de amamentação. Adoraria sair dali, mas sou do clã que tem que concordar que não está fácil! Tudo tenho feito, mas as oportunidades são poucas e estou mm a desesperar!

  5. Carina Carreira

    Parece que fui eu a escrever essa história, com a ligeira diferença que não demorei um mês a resolver a vida. A lição que retiro é que por muita estabilidade que possamos pensar que temos, nada está garantido, por isso não há momentos certos para se ser mãe. Devemos ser quando sentirmos que é hora, independentemente das consequências. Estamos em primeiro lugar.

  6. Tânia Silva

    Quando anunciei que estava grávida, avisaram-me que também ía estar desempregada. Fizeram pressão para eu me despedir, de tal forma, que comecei com contrações antes dos 3 meses. Depois de ser mãe, contrataram-me para outra empresa, onde ganho mais e me respeitam mais. Ainda não tive tempo de mandar um postal de agradecimento, mas fica a intenção!

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