E não foram seguidas. A Mãe do 3.º esquerdo não está nada bem e precisa desabafar.

Texto: Mãe do 3.º esquerdo
Ilustração: Rita

Dormi mais ou menos quatro horas esta noite e tenho de fazer de conta que sou uma adulta funcional, uma mulher organizada, responsável, com um trabalho interessante e que requer – imagine-se – massa cinzenta… Mas atenção, dormi quatro horas mas não foram seguidas. Nada disso. Foram assim aos pedacinhos. Intervaladas por um choro louco de um bebé de 11 meses que gosta de se transformar num gremlin. Grita, berra.

Bem, começamos por verificar que não tem febre. Check. Não tem sede nem fome, porque dá uma patada – sim, são 2 da manhã e patada até é um nome dos mais fofinhos que utilizo para o designar, costuma ser pior, muito pior – nos biberões.

Continua a gritar. Os pais cirandam pela casa a rezar para que o outro miúdo de 4 anos não se levante da cama. Eu transformo-me num carroceiro com a boca mais suja deste mundo. O pai fica meio catatónico e parece que perdeu o lobo frontal. Mas continuam operacionais e não deitam o bebé pela janela, apenas tentam tudo. Ao colo, a andar, deitados na cama com ele, voltar a colocá-lo na cama do bicho e… Cantar. Ah, ah. Cantar? O raio do miúdo berra mais alto que o gajo dos AC/DC, nem nos ouve a proferir de forma fofinha a música de embalar.

Sono

Para ver se a coisa acalma, até se recorre à tecnologia. “Olha, bebé, olha coisinho, acorda e brinca aqui com o telemóvel. Tem luz e tal e brilha e coiso.” Lá se cala cinco segundos para voltar à mesma gritaria. Mas que raios? O que se passa?

Depois de vários ensaios, adormece, para… acordar pouco depois, tipo uma hora e meia e volta ao mesmo tormento. Como numa corrida de estafetas, passo a vez ao pai que cambaleando se dirige ao quarto e tenta adormecê-lo andando com ele ao colo de um lado para o outro. Para frente, para trás. Ah, já disse que agora são 3h30 da manhã. Giro, não? Lá voltamos ao pai: para frente e para trás. Até que ele desiste e senta-se na cama. O puto adormeceu. Ena!!!! É colocado lentamente na cama e parece que é desta. Wrong!

Às 5h30 volta ao ataque. Mas que mal fiz eu a Deus para que o puto tenha um ataque destes? Começo a imaginar cenários e pensar: se calhar, ele ficava bem era na casa das avós durante toda a semana e só vinha ao sábado, não? Não. Lá bebe todo o leite, qual texugo de pernas roliças que mama 210ml de uma assentada. Volta a adormecer para…imagine-se, acordar às 6h19. Lá se tenta mais uma vez que volte a dormir, mas demos a batalha como perdida e acordamos.

Agora expliquem-me lá como é que uma pessoa consegue ter um dia de forma operacional? Como é que conseguimos ter um pensamento complexo ou executar uma tarefa simples do início ao fim? Não sei. Saio de casa sem vontade de sequer mascarar as olheiras que chegam aos joelhos. Vou passar o dia no modo: estou me a cagar, quero é dormir. Mas quando é que eu durmo? Quando?? E ai de alguém que se meta comigo, que eu dou cabo deles. Até os como!