A Joana foi parar à Noruega, a Sara está na Roménia, a Ana na Holanda, Joana foi para a Irlanda, a Diana rumou a Macau, a Teresa está em França, a Andreia e a Maria foram para a Suíça, a Sílvia foi para Moçambique, a Rita escolheu a Bélgica para emigrar, a Mafalda foi para a Suécia, a Sofia para o Qatar, a Irene foi para o Brasil, a Rute foi parar a Inglaterra e a Marisa escolheu o Luxemburgo. São portuguesas a trabalhar e a criar filhos noutros países, e que nos contam as diferenças entre lá e cá.

Texto: Mafalda Sardinha
Ilustração: Rita

Mafalda é médica veterinária, tem dois filhos e há dois anos pegou neles e no marido e mudou-se para o Lobito, em Angola. A filha tinha dois anos, na altura, e o filho apenas 9 meses.

“Uma vivência no estrangeiro era algo que queríamos proporcionar à família, achamos que seria o momento ideal para o fazer ou possivelmente não aconteceria. E resolvi abrir uma clínica veterinária, o que tem sido uma verdadeira e agradável aventura.”

Mafalda, cujo espírito aventureiro não a deixa desanimar, conta-nos que no início foi uma verdadeira aventura: “Ora falta luz, ora falta água, sem contar com a brusca mudança do frio em Portugal para o pico do calor que se fazia sentir. Andar com o ovinho é uma autêntica epopeia! Mas o clima é algo que depressa nos habituamos e torna o dia a dia tão mais fácil. Se o bebé com nove meses tinha dificuldade em se manter sentado de tão enchouriçado que ficava com as roupas de Inverno, aos doze estava a andar todo desenvolto.

Sobre o ritmo de vida?

A vida aqui é muito intensa, os dias passam a voar, quem vem para aqui trabalha muito, a diferença é que para uma mesma tarefa leva-se o dobro do tempo e com o dobro do desgaste devido aos imprevistos e “makas” diárias! Em contrapartida, os dias começam cedo e acabam cedo, anoitece por voltas das 18h durante todo o ano… ainda assim, há mais tempo para convívio com amigos, seja um mergulho ao fim do dia, almoços e jantares. O clima é quente todo ano, apenas no cacimbo, de Maio a Setembro, vestimos um casaquinho.

 

Sobre a escola

Neste país existem muitas crianças, vemos autocarros de transporte escolar por todo o lado, no entanto, a oferta de ensino nem sempre é a melhor. Tenho a sorte de estar muito satisfeita com a escolinha. As auxiliares são muito atenciosas com as crianças, é um povo muito maternal e o problema é evitar que andem sempre com eles ao colo e lhes façam as vontades todas! Ainda assim, dizem que o mimo nunca é demais. Muitas mães optam por ter ama em casa até uma certa idade e só depois vão para a escola. No meu caso, como não conhecia ninguém, preferi inscrevê-los na escola.

A alimentação na escola passa pela gastronomia africana, desde pequeninos comem funge que adoram, no entanto, a meu ver, são demasiado permissivos com os doces: todas as semanas há alguma festinha em que abundam bolos e doces.

Sobre a comida e bens materiais

A alimentação é mesmo muito cara. Temos momentos em que falta açúcar, farinha, manteiga, quatro iogurtes podem chegar custar 10 euros, açúcar já andou nos 4 euros/quilo, já vi escovas de dentes a 20 euros, e muitos outros bens a preços absurdos. Temos hipermercados embora com oferta reduzida, no entanto, aprendemos a adaptarmo-nos. Houve uma fase em que não havia qualquer tipo de chocolate e aí senti realmente falta! Quanto a roupa e brinquedos a escolha nesta zona é mesmo muito pouca e de baixa qualidade o que também nos habitua a um menor consumismo.

Ser criança (e mãe) em Angola

Carregam-nos às costas para os adormecer e eles realmente adoram. Desde pequeninos que andam sempre às costas e não vejo crianças com problemas de coluna ou que não conseguem dormir na sua cama. Em todos os cantos vemos uma mãe a dar de mamar: é vê-los sossegadinhos e gordinhos embalados pelo movimento. Fazem tudo: desde limpezas, vendas, caminhadas e ali vão eles.

As crianças são muito respeitadas e valorizadas pela população em geral pelo que em qualquer local (lojas, serviços públicos) têm o cuidado de nos deixar passar e seguir. Quanto às birras, são muito toleradas e ninguém olha de lado se esta grita ou faz barulho. Numa operação stop, quando vêem as crianças no carro, no lugar de uma inspecção exaustiva, só dizem: “Tem a documentação toda em dia, não tem?Pode seguir!”

 

Mae portuguesa Angola

Sobre as ofertas culturais para crianças

A oferta cultural é muito pobre nesta zona e tiramos muito partido da praia. No entanto, para crianças pequenas, estar ao ar livre e sobretudo na areia e mar é uma grande mais valia no seu desenvolvimento. As crianças são muito sociáveis e interagem com muita facilidade pelo que aos 4 anos a minha filha já nada toda despachada e faz amizade com qualquer criança que apareça por lá. Sendo um país de grandes contrastes é fácil perceber que os preconceitos só existem mesmo na cabeça dos adultos.

Sobre as férias e tempos livres

Nas férias viajamos e passeamos, penso que é uma das grandes vantagens de estar fora: o contacto permanente com diferentes nacionalidades e diferentes culturas. Geralmente os Angolanos viajam para a Namíbia, África do Sul, Dubai e São Tomé. São destinos fantásticos e aqui perto. Angola tem também locais fantásticos para conhecer e é comum fazer campismo selvagem sobretudo nas praias que é talvez o programa favorito da minha filha. Os tempos livres são passados na fazenda ao ar livre ou na praia com família e amigos.

 

Sobre a saúde

Quanto à saúde, infelizmente é uma preocupação constante e não é qualquer mãe que se adapta a ter os seus filhos em África: as doenças são muitas, a malária é uma realidade constante e, portanto, qualquer febre é motivo de análises e exames e uma grande dor de cabeça. Os bons médicos são poucos, os hospitais têm muitas lacunas e faltam medicamentos frequentemente. Felizmente com o tempo vamos ganhando algum calo e tentado filtrar o mais importante.

Sobre sair de Portugal

Nunca mais somos os mesmos depois de sair do nosso país: acho que deixamos de ser de um só local e, com prós e contras, no meu caso, África ficará para sempre marcada na minha vida e dos meus filhos.

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1 Comentário

  1. Mayra Armani

    Olá Mafalda, adorei o seu texto!
    Sou brasileira, vivo há 9 anos em Portugal e há um ano meu marido trabalha para uma empresa angolana que agora quer que ele vá passar uns tempos em Luanda.
    Estamos a ver para eu e minha filha, que tem 14 meses, irmos com ele passar 4 meses em Luanda. Mas cá em Portugal falam muito mal de Angola, que é tudo muito caro, que falta comida, que a assistência médica é péssima e eu fiquei um pouco assustada.
    Seu post, já me deu um outra impressão. Será que poderia me contar um pouco mais da sua experiência de ser em Angola com uma criança pequena, dar algumas dicas. Minha preocupação maior é com a comida, leite, fraldas se realmente faltam essas coisas e se são muito caras, e com as doenças tipo a malária, se realmente é tão comum como falam.
    Se puder me contar um pouco mais eu agradeço muito!
    Se preferir escrever para o meu e-mail é mayrarmani@gmail.com
    beijinhos e obrigada!

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