Que bom que é ver as miúdas com os seus nomes estampados no equipamento. Quem bom que as deixaram jogar com outras da sua idade em vez de as obrigarem a brincar com bonecas.

Texto: Ágata Xavier
Ilustração: Rita

Estávamos a 892 quilómetros e três dias de caminho quando surgiu a pergunta: “E se fossemos ver um jogo?”.  Lá no topo norte do planeta, na cidade portuária de Akureyri, a segunda  maior da Islândia — com 18 mil habitantes e uma temperatura média fresquinha, a rondar os 12 graus — começou a pesquisa.  O calendário do campeonato islandês estava numa mão, enquanto cubos de tubarão fermentado ocupavam a outra.

“A equipa local, o KR, joga hoje às 19h, mas a essa hora já devemos estar longe daqui.” Confirma-se, a essa hora estaríamos na piscina geotermal de Myvatn, o paraíso na terra para quem, como eu, não se incomoda com o cheiro a enxofre — que fica não só no nariz como na boca e na pele. “O próximo é em Reykyavík, a 17, pelas 19h, mas… é de miúdas.” As reticências a sugerir hesitação é um acrescento meu, quem o disse levantou apenas o sobrolho para ver se alguém acharia estranho planear uma ida à bola para ver mulheres. Obviamente que não.

futebol feminino

Três dias depois estávamos prontos para torcer pelas miúdas do Valur. Quando visitei a Islândia em 2014 também vi um jogo desta equipa, mas de homens, o que, tecnicamente, faz com que tenha visto mais jogos do Valur ao vivo do que de qualquer outra equipa portuguesa que não o Benfica, o  Porto, o Sporting, a Académica, o Estrela da Amadora, o Campomaiorense e o Estoril-Praia. O estádio fica mesmo à entrada da cidade e tem uma só bancada. O símbolo é vermelho e tem um falcão — e nisto de apreciar clubes encarnados com aves de rapina é, como escreveu o Gedeão, uma constante da vida. Nascido em 1911, o Valur é o clube com mais títulos conquistados, quer em campeonatos masculinos quer femininos, em futebol, andebol e basquetebol. A equipa de futebol feminino ganhou forma nos anos 70 e hoje divide-se em vários escalões.

A bancada estava cheia. Ocupámos os lugares entre as miúdas das camadas jovens do Valur (deviam ser umas 40 entre os 8 e os 14 anos) e uma equipa sénior de futebolistas americanas que estava a fazer um intercâmbio. Por esta altura, já tinha posto o capuz na cabeça para que, com as suas abas largas, me escondesse as lágrimas.

Que bom teria sido se, no meu tempo, as raparigas tivessem onde jogar com outras da sua idade com a mesma naturalidade com que a sociedade esperava (ainda espera?) que ficassem enfiadas no quarto a escovar o cabelo às bonecas. Que bom é vê-las felizes nos seus equipamentos com os próprios nomes estampados — e quase todos acabados em dóttir, excepto o das duas miúdas orientais, o das duas de origem africana e de uma rapariga latina,  que tinham o nome privado deste sufixo islandês que significa “filha de…”. Que bom vê-las cantar e puxar pela sua equipa com a perfeição do amor irracional e a ingenuidade da “claque que não agride, não ofende, não aleija e não entra no campo do desagradável” dos Gato Fedorento.

Em campo, o Valur não se resignava com a derrota, que começou cedo a impor- se no marcador. Juntavam técnica (algo raro nas ligas nórdicas) à táctica. E iam buscar sabe-se lá onde “uma força maior que a de mil cavalos” (uma citação do Doraemon que gosto de repescar). Foi o melhor jogo que vi de equipas femininas — e assisti à Final da Liga dos Campeões de 2014, no Restelo.

Aos 88 minutos, ainda se corria como se o jogo estivesse no início. O Valur perdeu 1-3. Valeu Valur, de certeza que voltarei para te ver ganhar.