A Sara está na Roménia, a Ana na Holanda, Joana foi para a Irlanda, a Diana rumou a Macau, a Teresa está em França, a Andreia e a Maria foram para a Suíça, a Sílvia foi para Moçambique, a Rita escolheu a Bélgica para emigrar, a Mafalda foi para a Suécia, a Sofia para o Qatar, a Irene foi para o Brasil, a Rute foi parar a Inglaterra e a Marisa escolheu o Luxemburgo. São portuguesas a trabalhar e a criar filhos noutros países, e que nos contam as diferenças entre lá e cá.

Texto: Sara Peres
Ilustração: Rita

Sara foi para Bucareste, na Roménia, em Maio de 2015 depois de vários meses em Inglaterra à procura de trabalho na área em que estudou: engenharia do ambiente. Vivia com a irmã e morria de saudades do namorado, português, que já estava a trabalhar em Bucareste desde o verão de 2014.

“Desisti do sonho de trabalhar em Inglaterra e acabei por agarrar um “portuguese speaking job” em Bucareste, em call center, para dar suporte informático, a oferta de emprego mais abundante nesta cidade.”

Mudei-me para o apartamento do meu namorado, que ficava muito perto do local de emprego dele mas muito longe do meu: duas horas de distância por transportes públicos.

Sara tem um bebé de nove meses e está em casa a gozar da licença de maternidade e do subsídio do estado que permite ficar em casa com o filho até aos 2 anos.

Sobre a gravidez

Quando contei ao meu chefe ele encaminhou-me logo aos recursos humanos que deram ordem imediata para que o meu horário fosse reduzido para 6 horas diárias. Na altura eu não sabia que os comprimidos para os enjoos provocavam sonolência, e à hora de almoço ia para uma sala de repouso onde descansava durante hora e meia (não porque queria, mas sim porque precisava mesmo de dormir), excedendo a minha hora de refeição. O meu chefe nunca me chamou à atenção. Alteraram o meu horário para que eu não fizesse turnos nem fins de semana, subindo-o para as 8h de modo a que eu conseguisse escapar à confusão do metro, a mim e a outra colega que estava grávida também. Nunca ninguém reclamou nem se queixou, chefes ou colegas.

Sobre apoios na maternidade

Foi uma coincidência feliz ter engravidado na Roménia após ter trabalhado alguns meses, pois à data do parto já teria 12 meses de trabalho concluídos e passaria a ter direito à licença e subsídio de maternidade, aqui com a duração de 126 dias.

Curiosamente a licença de paternidade (1 mês) só pode ser gozada se o pai da criança for casado com a mãe, que não é o nosso caso.

Aqui existe um subsídio para criar a criança em casa que dura 2 anos (3 para bebés portadores de deficiência), pagos a 85% do salário bruto à semelhança da licença de maternidade.

Sobre o estilo de vida

Aqui as pessoas não fazem fila para os transportes. Quem chega primeiro entra em último porque vão preenchendo o terminal de trás para a frente, não se organizam por ordem de chegada. Não tenho carro aqui, mas mesmo se tivesse ficava à porta de casa porque em toda Bucareste o trânsito é muito intenso e está quase sempre congestionado.

Não se usa cinto de segurança no táxi, é considerado um insulto ao estilo de condução do condutor. Também não temos cadeirinha auto para o táxi por isso coloco o bebé na mochila ergonómica, algo que nunca faria em Portugal. Esta é a minha maior dificuldade: deslocar-me com o bebé. A cidade é enorme, todas as distâncias são infinitas para mim, não ter carro dificulta tudo, a mochila dá dores nas costas, andar com ele no carrinho é mais violento que andar de 4×4 porque onde vivo ainda há muitos prédios em construção e os passeios estão geralmente em muito mau estado e em alguns troços é inexistente.

Sobre a saúde

Eu e o meu namorado escolhemos ter o bebé em Portugal por várias razões: não confiamos no serviço público e neste país existe uma convenção estabelecida pelos próprios utentes de pagar uma gorjeta (suborno)  por um bom tratamento, o que ronda no mínimo os 1000 euros. No sistema privado, que é bastante bom, o parto não fica por menos de 3500 euros, com internamento sobe aos 5000 facilmente e se decidirem fazer parto por cesariana ainda mais caro fica. A equipa dificilmente falaria inglês entre eles e poderiam deixar-me à margem do que se estava a passar e fazer a cesariana sem ser necessário. Um problema bastante grave aqui é a vacinação. As vacinas que deveriam ser fornecidas pelo sistema de saúde estão esgotadas há meses, é quase impossível obtê-las, não chegam a tempo (se chegarem) para se cumprir o calendário. Só conseguimos administrar a Prevenar porque é de venda livre nas farmácias. Como resultado, no próximo mês vou viajar a Portugal pela segunda vez para o meu filho levar as vacinas Pentavac (cá já não existe, foi substituída pela Hexacima há bastante tempo, pelo menos em teoria) e a Bexsero de que nunca ouviram falar.

Sobre a alimentação

Ao contrário do que acontece em Portugal, aqui os pediatras parecem não orientar a diversificação alimentar. Perguntei à minha pediatra como deveria começar e ela não me deu muitas explicações, remetendo-me para uma folha A4 escrita em romeno com os alimentos permitidos. Por exemplo aqui não usam abóbora para fazer sopa. Usam vegetais que não há em Portugal e outros que são menos habituais como a pastinaca. Cá não há couve de folha verde, apenas branca, não há agrião, nabiças, grelos, nabo. Na tabela detectei um enorme contrasenso: não aconselham a ingestão de açúcar, mas permitem  aos 12 meses doces caseiros, nomeadamente o papanasi, que é uma espécie de donut recheado com chantilly e compota de ginja.

Também é quase impossível introduzir o peixe na dieta do bebé. A oferta é muitíssimo reduzida e a sua origem é sobretudo a aquacultura. O peixe congelado tem muito mau aspecto e tem a mesma proveniência.

Curiosamente aqui existe uma variedade de papas muito superior à de Portugal e o melhor é que dificilmente se encontra uma papa açucarada. Até uma simples farinha milupa apresenta os selos de “bio” e “sem açúcar adicionado”.

Sobre ser mãe na Roménia

No supermercado existe uma fila de prioridade para grávidas e bebés de colo e quando vou parar a outra caixa as pessoas indicam-me a caixa apropriada. Muitas vezes quando tenho o meu filho na mochila ergonómica as pessoas deixam-me passar e até me ajudam a colocar as compras nos sacos. Há pessoas extremamente bondosas que já se ofereceram para me ajudar a subir as escadas da entrada do prédio com o carrinho de bebé.

Hoje em dia as pessoas metem-se com o meu bebé, especialmente na fila do supermercado ou no elevador. Expressam sempre votos de que o bebé seja saudável e dizem sempre que ele é muito bonito, muitas vezes tocam-lhe nas mãos, o que me deixa um pouco tensa. Já vou compreendendo a língua mas muitas vezes dizem-me coisas que não percebo, eu sorrio e tento arranhar uma palavra ou outra que remata o diálogo.

Sobre ser criança em Bucareste

Há muitos parques para crianças entre edifícios ou nos enormes jardins que são a coisa que mais gosto aqui. Têm jardins enormes com lagos, muito bonitos, que enchem aos fins de semana onde se vê muitos carrinhos de bebé, famílias a passear, pais a andarem de bicicleta ou patins com os filhos, jovens a andar de skate, pessoas a passear os cães (há espaços próprios para os cães dentro dos jardins) e crianças nos parques infantis que são enormes. Vê-se que as pessoas privilegiam muito o convívio em família nos espaços verdes. Ofertas culturais para as crianças é que são raras, que eu saiba. Não costumo ver cartazes, excepto nas épocas festivas. No centro comercial perto da minha casa vejo pequenos eventos de pinturas faciais e actividades como teatrinhos e pintura.

Nos restaurantes não se costuma ver muitas crianças, até porque a zona de fumadores muitas vezes não é distinta e sente-se bastante o fumo, outras vezes há festas e música muito alta (os romenos adoram barulho).

Sobre as creches

Nunca visitei creches ou colégios mas uma amiga brasileira visitou duas e o relato não foi o melhor: para além de mãe e três filhos terem sido internados com rotavírus quase imediatamente após a primeira visita, ela diz que não dão liberdade às crianças para fazerem barulho e brincarem livremente no recreio, mantendo-os sossegados e calados com recurso excessivo de tablets. Não fiquei bem impressionada.

mae portuguesa romenia

O melhor e o pior de Bucareste

Faz-me falta a minha sogra para ficar com o bebé enquanto os pais vão felizes ao cinema comer umas pipocas doces, falta-me o peixinho grelhado e a praia, as minhas amigas e o meu pai. Preferia estar em Portugal. Sinto que o meu bebé ficaria mais bem alimentado e as idas ao médico seriam mais fáceis devido à barreira da língua (a maioria não fala inglês muito bem) e porque em Portugal temos os nossos carros, o meu filho criaria laços mais fortes com a família e poderíamos conviver mais com pessoas que falam a nossa língua (o meu filho só está com os pais praticamente).

Por outro lado (que no entanto não é suficiente), aqui em Bucareste tenho um conforto térmico durante o inverno que não existe em Portugal, porque o frio é seco e as casas estão preparadas para o frio a sério (já apanhei -20º C), a camada exterior dos prédios tem 10 cm de esferovite cobertos de reboco e tinta. Temos um custo de vida mais baixo e temos os maravilhosos jardins para onde rumamos nos fins de semana de bom tempo.

Sei que a vida é mais difícil em Portugal, eu e o meu namorado não vamos ter as mesmas oportunidades de emprego e vamos ser mais mal pagos. Não conseguiremos reunir o melhor dos dois mundos, mas criar e educar o nosso filho aqui é algo que não queremos porque há muito mais para desfrutar no nosso próprio país.