Quando eles pegam nos talheres sozinhos e começam a emborcar comida sem qualquer tipo de ajuda, acende-se uma luz ao fundo do túnel. Eles são independentes! Até que a luz se apaga.

Texto: Diana
Ilustração: Rita

“Tu na escola comes sozinha, porque é que em casa tenho de te dar a comida? Pega no garfo e come.”

“Hoje não consigo. Estou com a mosca.”

Este foi um diálogo real que tive com a minha filha de três anos, em breve quatro. Todas as refeições em família são uma espécie de jogo “quão rápido consigo enfiar comida na boca da criança?”

A criança começou por não querer comer a sopa sozinha. A mãe e o pai, depois de muitas chatices, aceitaram e impuseram uma regra. Nós damos a sopa, tudo muito bem, mas tu comes o resto sozinha. A coisa funcionou durante algum tempo. Até que deixou de funcionar.

o estranho caso

A miúda adora comer. Só não adora refeições grandes. Mal pode esperar pelo pequeno-almoço, que come sozinha, e adora os lanches e a fruta. O resto, bom, é uma grande chatice. “A minha barriga diz que não quer mais”; “O que é isto? Não gosto.” Acabamos a ter de lhe enfiar a comida pela boca abaixo enquanto falamos sem parar, seja a contar como foi o nosso dia, a perguntar como foi o dela, seja a contar histórias parvas só para ela se concentrar e abrir a porra da boca.

Nos restaurantes a coisa dá-se de outra forma. Ela levanta-se para “ir explorar” e vem à mesa “abastecer-se”, palavra que tem alguma dificuldade em pronunciar, mas mesmo assim tenta. Ok, é um restaurante, quero lá saber, só quero estar sossegada. Se ela quer deitar-se no meio do chão ou olhar fixamente para outro comensal, quero lá saber. Só quero comer em paz.

Em casa era simpático que a miúda colaborasse. Parecendo que não, uma pessoa habitua-se a não ter de alimentar outro ser e ganha-lhe o gosto. E depois o sonho é arrancado à bruta e fica-se meio atarantado. Até aviõezinhos faço com o garfo para a sacana comer.

A verdade é que não se pode contar com as crianças para nada. São imprevisíveis e adoram lixar-nos a vida. Provável resposta científica? É só uma fase.