Que o Universo me ajude, que os planetas se alinhem para me apoiar, que o grande Urso me guie – a minha filha transformou-se numa criatura insuportável que, quando não está a chorar, está a ignorar-me.

Texto: Diana
Ilustração: Rita

Chamo-a uma vez, duas, três, à quarta já estou aos gritos e ela nem se digna a dizer “já vou”. Opta por não responder ao chamamento, não se digna a responder, sua alteza real, a criança de três anos.

Surdez selectiva

Todos os dias – TODOS – começam e acabam mal. Ela acorda relativamente bem disposta mas basta um passo em falso (meu, claro), uma peça de roupa errada, um pequeno-almoço que não é de seu agrado para as comportas dos olhos se abrirem. Chora porque a panqueca se partiu. Chora porque disse que queria pão mas afinal já não quer. Chora porque não quer leite, quer iogurte. Chora porque quer leite, não quer iogurte. Chora porque não era aquela camisola que queria vestir, embora a tivesse escolhido. Chora. O raio da miúda chora.

Quando sai da escola o choro começa no carro porque de repente decide que quer ir para casa de uma amiga. Chora porque quer comer naquele preciso instante em que eu estou no semáforo à espera que fique verde para poder ir para casa. Chora quando chega a casa porque sim. Chora porque não quer ir tomar banho. Chora na hora de jantar porque não gosta da comida. Basicamente a minha filha chora e amua. E finge que não me ouve. E diz que não quer ser amiga. Ainda bem, porque eu também não quero ser amiga dela. Detesto drama queens.

Acontece que estou cansada. Farta. Com vontade de fugir. Não sei se me zango, se ignoro, se mantenho a calma, se faça chantagem, se seja positiva e alegre. Na dúvida, já experimentei de tudo e nada resulta. A única coisa que resultaria seria fazer-lhe as vontades todas e isso, evidentemente, está fora de questão. Ou não estará? Continuo a preocupar-me em querer fazer dela um bom ser humano, ou desisto, faço dela um monstrinho prepotente, e quem vier depois que a ature?

Bom saber que todos mantemos o sentido de humor, miúdos. Agora vou ali perder a cabeça outra vez e já volto.