Somos enfermeiras, empregadas de limpeza, aias de suas altezas reais, negociadoras exímias, chantagistas e ginastas. Tudo ao mesmo tempo. 

Texto: Diana
Ilustração: Rita

  1. Empregadas de limpeza: as migalhas no sofá, o iogurte no chão, os bocados de comida não identificada colada nos locais mais estranhos. O vomitado a meio da noite, nos lençóis, no pijama, no chão e em cima de nós; lavar a roupa e secá-la em tempo recorde; lavar o tapete do quarto a 60º para matar os ácaros.
  2. Aias de suas altezas: vestir, despir, todos os dias, às vezes mais de que duas vezes por dia; cortar as unhas das mãos que normalmente têm terra por baixo, a dos pés que crescem a uma velocidade assustadora; dar banho; desembaraçar o cabelo, pentear, fazer totós, tentar fazer tranças porque sua majestade assim o deseja, mesmo que o cabelo não dê. Ficar com uma tendinite depois de várias tentativas de trança e no final a pequena rainha chora e diz que não quer porque não ficou como ela imaginava; costurar às três pancadas para apertar a cintura das leggings porque senão caem pelas pernas abaixo; limpar ranho de narizes que ainda não se sabem assoar, assoar narizes com ranho verde; limpar rabos que não moram no seguimento das nossas costas, várias vezes por dia; lavar dentes minúsculos e pedir 87 vezes para que abram a boca quando insistem em trincar a escova.
    Ser mae
  3. Enfermeiras: tirar a febre com os lábios, com a mão, com o termómetro; estudar as borbulhinhas que apareceram à volta da boca e rezar para que não se alastrem; dar os medicamentos às horas certas, mesmo que implique acordar o monstro a meio da noite; não esquecer as gotas da alergia, deus nos livre disso.
  4. Saco de pancada: “já não gosto de ti”; “já não sou tua filha”; “tens um bebé na barriga, não tens?” (não, estou só gorda, obrigada por reparares); “não gosto mais de ti”; “tu não sabes nada, eu é que sei”.
  5. Parede de escalada: a posição de cócoras, naquele equilíbrio difícil e doloroso com a ponta dos pés fincada no chão e os calcanhares ligeiramente levantados, é um convite para trepar e em menos de nada uma criança está de pé em cima das nossas coxas e, se nos distrairmos, ela acaba em cima dos ombros.
  6. Vítima de maleitas várias: conjutivites; gastroenterites; gripes; amigdalites; piolhos; escarlatina; coisas estranhas.
  7. Artistas de circo e equilibristas: atirar ao ar, outra vez, outra vez e mais uma – parar quando não sentimos os braços; pô-los a voar; dar comida sem entornar enquanto se debatem e abanam a cabeça numa furiosa negação, com a mão livre agarrá-los pela camisola para que não fujam, enquanto cantamos uma canção para os distrair.
  8. Sofrer horrores no geral: ir de férias com eles é horrível, ir de férias sem eles é horrível; viajar sem eles é horrível, viajar com eles é horrível. Se eles caem o coração pára mas só temos vontade de lhes bater porque avisámos 45 vezes que iam cair; se eles se engasgam morremos durante uns segundos, quando passa desmaiamos de excesso de emoção.
  9. Artistas à força: cães que parecem ovelhas, ovelhas que parecem raposas, girafas que parecem dinossauros porque sempre tivemos 2 a Educação Visual; aguarelas, colagens, purpurinas coladas em todo o lado, raios partam; esculturas de plasticina, não mistures as cores, que se lixe, mistura essa merda, quero lá saber. Agora fazes bonecos castanhos que te lixas.
  10. Levantadoras de pesos: o colo a meio daquela subida íngreme; rápido levantamento da criança em movimento para que não pise cocó ou uma enorme poça de água; arrastamento de peso morto em momentos de birras no solo; agachamento para tirar e pôr na banheira; sobe e desce perna com mais de dez quilos em cima porque uma perna é um cavalo, obviamente.