São complicadas, únicas e todas diferentes. Em comum têm a preocupação com um miúdo de 15 anos. “As mulheres do Século XX” é um filme que passou despercebido, mesmo tendo sido nomeado para duas categorias nos Óscares. Mas falhou aquele mais deveria ter ganho: o de Melhor Atriz, com Annette Bening num papel incrível.

Texto: Diana
Ilustração: Rita

Quando Brie Larson teve de anunciar Casey Affleck como vencedor do Óscar de Melhor Ator, entregou-lhe o prémio e afastou-se, recusando-se a aplaudir a vitória. Foi a segunda vez que a atriz (“O Quarto”), defensora acérrima das vítimas de violação e assédio sexual, teve de entregar um prémio ao Affleck mais novo, acusado por duas mulheres de assédio e sexual. A polémica acabou esquecida e Casey ganhou o Óscar. Há quem argumente que é necessário separar o homem da obra, mas não me parece que isso seja justo. Para piorar tudo, Casey nem sequer merecia o Óscar: aquele papel foi feito para ele (até Matt Damon percebeu isso), um homem inexpressivo e vazio de qualquer tipo de emoção. Só que Casey é sempre assim, certo?

Em “Mulheres do século XX”, pelo contrário, Annette Bening, aos 58 anos mostra que continua a ser incrível. E linda. Este filme, do qual quase ninguém falou, distraídos que ficaram com o barulhos das luzes de “La La Land”, merecia uma nomeação para Melhor Atriz. Em vez disso, Emma Stone levou para casa a estatueta que não deveria ser dela.

O filme tem cinco personagens: três mulheres, um homem e um adolescente. Annette Bening tem 55 anos, Elle Fanning (cada vez melhor atriz) tem 17, Gerta Gerwing andará pelos 20 e tal e as três representam a sua geração. Além disso, são únicas, complicadas, infelizes, corajosas. A história de ambas as personagens do sexo masculino, acaba por girar em torno das mulheres — aquelas e todas as outras que fizeram e farão parte das suas vidas.

Mulheres sec XX

 

Dorothea Fields (Annette Bening), tem 55 anos e um filho de 15. Divorciada do marido, está completamente sozinha na árdua tarefa de criar um adolescente. A sua preocupação é que ele seja um bom homem, que seja feliz, muito mais do que ela conseguiu ser. Mas, no meio da preocupação, esquece-se de ser honesta com o filho. De falar com ele. De lhe perguntar o que é que ele quer.

As duas outras mulheres, uma amiga de infância do rapaz e a outra uma inquilina da grande casa de Dorotheia, dão uma ajuda, cada uma passando as informações femininas que consideram relevantes para a formação de um rapaz perfeito. Cada uma delas quer transformá-lo no homem que não existe. No homem que não precisa de perguntar nada porque percebe a sua mulher só com um olhar, no homem que sabe exactamente como lhe dar prazer, no homem 100% feminista. E acabam por se esquecer dele.

Não sei como é criar um rapaz, principalmente sem ajuda masculina. Não sei se de facto é assim tão importante ou se nós é que complicamos. O filme não chega a nenhuma conclusão, mas não precisa. É lindo, complexo, divertido, triste, tudo ao mesmo tempo. Cada personagem feminina é uma ode a esta cabeça complexa que nos calhou em sorte, mas nem por isso transforma as personagens masculinas em adereços sem norte. Os dois homens são, também ele, profundos, confusos, perdidos. Juntos fazem do mundo, pelo menos aquele pequeno mundo, um lugar melhor. É, no fundo, uma bonita carta de amor.