Natação? Não, demasiada água e balneários cheios. Ginástica? Meh. Ballet? E ter de assistir às apresentações, ou saraus? Matem-me já. 

Texto: Diana
Ilustração: Rita

Quase todos os dias me sinto culpada por não pôr a minha filha numa actividade qualquer. Falo com amigas e conhecidas que têm os filhos em coisas várias e autoflagelo-me mentalmente por ser uma mãe que se está nas tintas para o desenvolvimento extra escola da filha. 

Olho para ela, qual mini Pina Bausch ou Olga Roriz, em complicadas e espontâneas danças que incluem pés no ar, voltas e reviravoltas divertidas e penso: será que devia por a miúda na dança contemporânea? Na ginástica? No Yoga? Mas depois penso em toda a logística que isso acarreta e adio. Com culpa, claro.

Actividades

A minha mãe tentou pôr-me em actividades e todas as três falharam. Natação- não cheguei a entrar na piscina; ginástica- nunca aprendi a fazer pinos ou rodas; ginástica outra vez- tinha medo dos trampolins. A minha mãe desistiu. E eu saí vitoriosa: todas as atividades eram sinónimo de stress para mim, miúda introvertida e pouco amiga de socializações com desconhecidos.

Mas a minha filha não é uma desajeitada como a mãe. E eu quero que ela seja coordenada e tenha orgulho no corpo que lhe calhou. Que saiba lidar com ele despreocupadamente, que ele não seja um fardo como o meu foi durante tanto tempo.

Só que quando penso em todas as outras crianças que andariam na actividade com ela, fico com suores frios. Os gritos, a energia, o horror. As horas perdidas à espera que a aula acabe, a obrigação de a levar, os saraus, as apresentações aos pais, sacrificar mais um pedaço do meu já pouco tempo – espetem-me uma agulha de crochet no cérebro, como se eu fosse um zombie, e deixem-me morrer. 

Claro que todo este egoísmo faz de mim uma pessoa horrível. Que espécie de mãe não se sacrifica pelos filhos inscrevendo-os numa actividade que lhes faria bem? A resposta é óbvia: eu.

Para não me sentir tão horrível e irresponsável, um monstro que não pensa no futuro brilhante da filha no Ballet Gulbenkian, ai espera, esse fechou, argumento comigo mesma que ela só tem três anos e que tem tempo para escolher uma atividade. E que eu nunca fiz nada além de ler e está tudo bem comigo (mas depois lembro-me do ano e meio de terapia) ou que, por Toutatis, as crianças só precisam de amor e carinho. E de um iPad, de vez em quando, com puzzles para estimular o cérebro.

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8 Comentários

  1. Carla Marques

    Que texto delicioso e libertador. 😀
    A minha filha mais velha, de 3 anos, ainda não tem atividades e acho que vou colocá-la pelo menos numa daqui a pouco tempo.
    Mas, estranhamente (ou não) identifico-me muitíssimo com este texto, não em relação a atividades mas em relação a outras coisas. 😛
    Adorei!
    http://www.vinilepurpurina.com

  2. Raquel Silva

    A minha filha andou na ginástica, com 8 anos e não aguentou lá muito tempo. Assim que começaram a apertar com elas e as dores começaram a fazer parte do treino ela disse que queria sair. Agora, com 10, está na natação e adora. Mas já é autónoma. Vai sozinha para o balneário. Veste-se e despe-se sozinha, toma banho, etc. O avô leva-a e nós vamos buscá-la. E nada de saraus. bah! Acho, honestamente, que se entopem os miúdos com coisas em demasia. Depois não sabem “não ter nada para fazer” como se isso fosse uma coisa horrível. Com 3 anos tem muito tempo, mas isto é a minha opinião.

  3. Também não adoro frequentar sítios cheios de criancinhas aos berros… um dia a minha filha há-de interessar-se (ou não) e vai escolher (ou não) uma atividade.. enquanto isso não acontece só lhe quero mostrar o mundo e dar-lhe espaço para que saiba por onde escolher! Sinceramente não sinto culpas, nem com o tempo (ou a falta dele) nem com as atividades!! Não há mal nenhum em não ir para a natação aos 6meses ou para o ballet aos 3!!!Ela gosta de música e de dançar, por isso, agora com 2 anos, quando encontro atividades giras ela vai e eu faço gosto em acompanhá-la, mas sem obrigações e sem culpas!!

  4. Custódia Rebocho

    Tudo isso – no que a nós diz respeito – é mais! Tempo para fazer nada para eles que é tempo de desenvolvimento da imaginação! O meu só anda na natação – uma vez por semana basta – por uma questão de segurança. Começou aos 3 anos e mantém. Parece-me que, na maior parte dos casos, se submetem as crianças a um excesso de atividades.

  5. Também acho enfadonho e outras coisas esses saraus, passagem de cinto/categoria fora todas as outras saidas que as minhas sobrinhas teem com o óquei e a musica… Não puz os meus filhosel em nada(ps so a natação durante 1ano para aprenderem a nadar) pois sempre achei que não lhes faz falta não são nem mais nem menos que as primas assim podemos sair onde quizermos e voltamos quando quisemos… No verão passado as minhas sobrinhas nem a aniversarios/praia /piscina puderam ir por terem as saidas da banda filarmonica… Os meus filhos são felizes por não terem atividades e não é por nada mas tem melhores notas escolares que as primas(tem as mesmas idades)!!!Somos livres!!!!!!!

  6. Carolina

    Tão bom!!!! A minha só tem 6meses, por enquanto o objectivo dela passa por meter os pés na boca, para mim está óptimo. Espero que ela tenha a mesma coordenação motora que eu, assim sempre me safo de a meter em qualquer coisa que envolva ginástica…(era sempre a última a ser escolhida para as equipas de futebol da turma, e não morri nem perdi a auto-estima. Um bocadinho só vá, mas depois passou lol)

  7. Se achas que Realmente era importante… Podes arranjar uma parceria com outra mãe e vão à vez, ou podes partilhar com o pai, a avó, ou uma tia e cada semana vai um acompanhar, podes procurar uma atividade num local pequeno que não tenha imensos alunos e seja fácil de estacionar. Ou não 😉

  8. Raquel Wider Silveira

    Atividades aos três anos? Na minha opinião, nem pensar! Eu quero é curtir os momentos com ela antes que ela cresça 🙂 meu filho mais velho ainda ontem tinha 19 anos e as outras duas já vão para o segundo e quarto ano!
    Penso que muitos miúdos andam tão cansados de atividades, não têm tempo de estar simplesmente em casa, curtir a casa e a família. Não têm tempo de estar, simplesmente estar, fazendo algo ou não fazendo nada (que também é bom).
    Tudo tem o seu tempo.
    Gostei muito dos artigos que li, um grande beijinho!

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