Sábado e domingo, dois dias com tantas promessas, são apenas mais duas oportunidades de ficar (ainda mais) cansada. Socorro.

Texto: Diana
Ilustração: Rita

Temos uma vaga memória de quando acordávamos às horas que queríamos, fazíamos o que queríamos, quando nos apetecia, sem horários nem obrigações. Eram dois dias maravilhosos, cheios de possibilidades ou apenas um enorme sofá, tanto fazia. Como não havia ninguém para alimentar decentemente, qualquer porcaria servia para encher a barriga.

Íamos ao brunch ou a uma esplanada com amigos e não tínhamos de nos levantar de cinco em cinco minutos para apanhar crianças do chão ou ir com elas à casa de banho. Conseguíamos conversar, fumar e beber qualquer coisa sem ter de desviar a cabeça para ver o interlocutor porque a miúda resolveu trepar-nos para o colo e encostar o nariz ao nosso.

Domingo começou cedo, mas não tão cedo que me desse vontade de chorar – tenho sorte. A miúda acordou bem disposta e cheia de energia. Perguntou-me onde íamos e eu, sem pensar, respondi: à praia. Durante a hora que se seguiu, em que tomámos o pequeno-almoço, duche, vestimos e até limpámos o pó, a criança perguntou cerca de 60 vezes: “Quando é que vamos à praia?”.

Comecei a vesti-la, mas desisti porque tentar enfiar roupa a uma criança que se contorce e foge é tão desesperante como querer que um caracol ganhe uma corrida com um cão. Tive de me zangar e recorrer à tática: “Agora vais-te vestir sozinha.” Resultou. Por esta altura já estava cansada e o dia estava só a começar.

Segunda-feira

Na curta viagem para a praia a minha filha não parou de fazer perguntas – ela não pára, nunca, de perguntar tudo o que lhe passa pela cabeça – e quando eu lhe pedi que me deixasse ouvir só aquela música, que logo continuaria a responder a todas as questões, ela disse “não”. Ri-me, pus a música mais alta e ignorei-a.

Ela ouve tudo e quer saber tudo, principalmente todas as conversas que tenho com pai. Ouviu a palavra “horrível” que apliquei já não sei em que contexto e logo sentenciou: “Horrível não se diz, não podes dizer horrível.” Respondi da forma mais adulta que me lembrei: “Eu digo o que eu quiser, sou crescida e tu não tens nada a ver com isso.” Isto de ser controlada por uma criança de três anos é terrivelmente irritante.

Na praia foi preciso correr atrás dela cerca de 50 vezes para que não se enfiasse no mar (eu pensava que íamos fazer castelos) e levantá-la mais 50 para que a água não lhe molhasse as calças arregaçadas até aos joelhos.

Ao almoço ia caindo 10 vezes da cadeira, deu-me festas na cara com as mãos engorduradas e continuou a fazer perguntas. Quando chegámos a casa mal podia esperar para a pôr a dormir a sesta, esse momento mágico para quem tem filhos, mas a coisa foi difícil e o raio da chavala não adormecia nem por nada. Conta história, responde a perguntas, zanga, mais zanga, ameaças “se não dormes ficas em casa de castigo e não vais ao parque.” Sim, ao parque. Esse inferno na terra. Essa terra de ninguém onde vale tudo.

Quando ela acordar iremos ao parque, não sem antes lancharmos, porque uma criança não pode saltar refeições, e quando der por mim já é de noite. Haverá birra para tomar banho, como sempre. Não fiz nada de jeito mas ainda bem que amanhã já é segunda-feira. Onde eu trabalho não há parques infantis.