Sacrifícios atrás de sacrifícios, é assim a visão da maternidade para algumas pessoas. Nada contra, mas não é para mim. Anular-me não estava no contrato.

Texto: Diana
Ilustração: Rita

Ontem, depois de um filme inteiro da Disney, sentei-me durante uns instantes no sofá. A minha filha veio logo a correr – Deus me livre de ter uns minutos sozinha – e pediu que mudasse de canal. Disse-lhe que não. “Mas eu preciso de ver bonecos, mamã”, garantiu-me ela. “Preciso” e não “quero”. Boa tentativa, miúda. Respondi que agora era a minha vez. A televisão, afinal de contas, também é minha.

Eu faço sacrifícios por ela. Ou melhor, faço muitas cedências. Dou-lhe o fim do meu cornetto, dou-lhe a sopa ao jantar apesar da espertinha saber comer sozinha, deixo o meu jantar a arrefecer para a deitar e ler-lhe uma história naqueles dias em que tem tanto sono que não acaba de comer.

Mae macaca

Levanto-me a meio da noite quando ela dá um berro porque deixou cair a girafa de estimação. Dou-lhe a minha comida toda, se ela quiser. Fica com os melhores lombos do peixe, claro, e tem direito a panquecas ocasionais, ao pequeno-almoço ou ao lanche, mesmo quando não me apetece fazer nada.

Mas não tem direito a ouvir os Caricas no carro –  só em casa, no quarto dela ou às vezes na sala – porque quem manda no rádio do carro sou eu e o pai, ora que caraças. Fica a dormir nos avós várias vezes para podermos sair e fazer as coisas que gostamos, porque a nossa vida não acabou e, parecendo que não, gostamos de fazer coisas que não impliquem parques infantis. Não nos adaptamos a uma alimentação infantil, ela tem de comer o que nós comemos. E come, e gosta. Gosta de cogumelos, de camarão, adora amêijoas, todo o tipo de peixe e até gosta de salada de espinafres e de caril. Come entrecosto e codornizes e ainda pede mais.

Não a levei ao concerto do panda e dos Caricas, mas ela foi na mesma com uma tia emprestada, que é tão tia como se fosse verdadeira, e ficámos todos felizes. Não pretendo levá-la a nenhum concerto infantil, mas estou empenhada em transformar esse tipo de eventos numa tradição com a tia.

Também não brinco com ela. Ela pede-me e digo-lhe que não. Explico-lhe que não gosto de brincar e que terá de o fazer sozinha. Mas pinto-lhe as unhas, leio-lhe histórias, invento mais umas quantas, deixo-a ajudar-me a fazer o jantar, mesmo que suje tudo e torne toda a tarefa mais demorada, converso, danço, faço desenhos e pinturas e vejo desenhos animados com ela. Tempos houve em que brincava com bonecos e aos médicos, muito contrariada, porque a verdade é que detesto brincar. O pai não se importa de fazer Legos, eu prefiro caminhar sobre brasas, se tiver de escolher. E não estou disposta a sacrificar-me. Nem a anular-me. Até porque depois, quando for uma idosa chata e com reumático, não quero passar os dias a atirar à cara da minha filha de como deixei tudo por ela. Já bastará não conseguir controlar o chichi.

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2 Comentários

  1. Mariana

    Se a Rita (ilustradora) estiver numa de fazer t-shirts alusivas ao tema “nunca fui a um festival de música infantil nem tenciono ir”, estou compradora. É pela educação musical deles, claro.

  2. Alexandra João

    Descobri há pouco este blog e as suas crónicas fantásticas mas dou lhe já os parabéns por conseguir dizer tudo aquilo que todas nós sentimos (garantidamente) mas que a maioria não se atreve a dizer! Ser mãe é lindo,maravilhoso (é por isso repeti a dose),completa uma pessoa e tudo isso…sim! Mas tambem sempre achei que não significa,de todo, que a mãe se anule enquanto mulher com vontades e gostos próprios. Cheguei mesmo a ficar com remorsos, e a pensar que era uma péssima mãe, por nao gostar de partilhar o meu gelado com a minha filha e por lhe dizer,precisamente, que agora era a vez da mãe ver a série dela favorita na TV. Agora sei que sou “normal”!! Obrigada pelas partilhas…

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