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Fevereiro 2017

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Meia hora. Às vezes é só do que precisamos. 30 minutos para respirar sem a criança a pedir coisas ou em cima de nós. Uma maravilhosa meia hora. Se for uma inteira, ainda melhor. Texto: Diana Ilustração: Rita O meu olho treme cada vez que a minha filha profere a fatídica frase: “Mãe, anda brincar.” A maior parte das vezes digo que não, mas nem sempre dá. Mal posso esperar pelo momento em que a minha filha se vai entreter sozinha, passar horas a brincar às Barbies ou com plasticina, como a mãe dela fazia, sem chatear ninguém. Enquanto esse dia não chega, tenho de dar o corpo ao manifesto, ainda que muito de vez em quando e apenas nas atividades que me interessam. Porém, para que saibam brincar sozinhos, os miúdos precisam de uma ajuda – raio dos putos nascem sem saber fazer nada. É preciso mostrar-lhes que brincar sozinho…

Natação? Não, demasiada água e balneários cheios. Ginástica? Meh. Ballet? E ter de assistir às apresentações, ou saraus? Matem-me já.  Texto: Diana Ilustração: Rita Quase todos os dias me sinto culpada por não pôr a minha filha numa actividade qualquer. Falo com amigas e conhecidas que têm os filhos em coisas várias e autoflagelo-me mentalmente por ser uma mãe que se está nas tintas para o desenvolvimento extra escola da filha.  Olho para ela, qual mini Pina Bausch ou Olga Roriz, em complicadas e espontâneas danças que incluem pés no ar, voltas e reviravoltas divertidas e penso: será que devia por a miúda na dança contemporânea? Na ginástica? No Yoga? Mas depois penso em toda a logística que isso acarreta e adio. Com culpa, claro. A minha mãe tentou pôr-me em actividades e todas as três falharam. Natação- não cheguei a entrar na piscina; ginástica- nunca aprendi a fazer pinos ou rodas;…

Sábado e domingo, dois dias com tantas promessas, são apenas mais duas oportunidades de ficar (ainda mais) cansada. Socorro. Texto: Diana Ilustração: Rita Temos uma vaga memória de quando acordávamos às horas que queríamos, fazíamos o que queríamos, quando nos apetecia, sem horários nem obrigações. Eram dois dias maravilhosos, cheios de possibilidades ou apenas um enorme sofá, tanto fazia. Como não havia ninguém para alimentar decentemente, qualquer porcaria servia para encher a barriga. Íamos ao brunch ou a uma esplanada com amigos e não tínhamos de nos levantar de cinco em cinco minutos para apanhar crianças do chão ou ir com elas à casa de banho. Conseguíamos conversar, fumar e beber qualquer coisa sem ter de desviar a cabeça para ver o interlocutor porque a miúda resolveu trepar-nos para o colo e encostar o nariz ao nosso. Domingo começou cedo, mas não tão cedo que me desse vontade de chorar…

Ser super mãe é como tentar correr uma maratona na lua: impossível. E um dia a mãe rebenta, como um balão em que se vai soprando, soprando, soprando, soprando, até que: boom! Texto: Susana Almeida Ilustração: Rita Não tenho pretensões de ser a super mãe, a melhor, a mais forte, mas a verdade é que me tenho comportado como tal. Já o escrevi várias vezes, durmo mal há vinte e um meses, sou uma mãe suburbana exausta, somos nós e nós, sem ajudas, o que é bom por um lado, porque não dependemos de terceiros, o que é mau por outro, porque raramente temos terceiros de quem depender. E depois tenho um defeito, entre muitos, uma resistência absurda a descansar. Os miúdos sugam a maior parte da nossa energia, exigem tudo de nós, a diferença de idades é pequena. Oiço dezenas de vezes que agora custa, mas que vai ser…

Quando não estão a ser umas chatas, ou a fazer birras, as crianças são quase tão engraçadas como um stand up de Louis CK ou Jerry Seinfeld. E nós, como mães perfeitas que somos (só que não) apontamos tudo. Ou quase. Rita: “Estás sempre a usar essas calças.” “Não vou ao cinema “com a escola”, a escola está presa à rua.” “As filhas não gostam de cebola.” “Com estas cores de verniz fico mais brilhosa.” “Estou farta de te ouvir chamar.” “Quero batom bacieiro.” “Estás com sono, mamã? Então vai dormir para o teu quarto que eu vou para a sala ver televisão.” “Quero cambarão, patas de lil’fante e pizza. É só esse pouco.” “Ele é o pai degrau, tu és a mãe degrau, eu sou a filha degrau.” “As ovelhas dão melo.” “Tu não sabes tudo, mamã.” “Não se põe a língua no ouvido porque dá dor de garganta.”…

Há poucas coisas mais fixes – e especiais – do que a relação de uma criança com os avós. Sejam dos que ficam com eles todos os dias, ou dos que os visitam ao fim de semana. Os avós rulam. Atenção: este texto tem imeeeensos advérbios de modo. Texto: Diana Ilustração: Rita Lembro-me que o céu estava cinzento e dos edifícios altos. Claro que, na altura, para mim, tudo era alto. Teria uns sete anos e a memória só guardou as sensações e algumas imagens. Os factos fogem-me sempre, pelo que não faço ideia em que terra estávamos, eu e os meus avós, num daqueles passeios que costumávamos fazer. Lembro-me que andámos de barco, lembro-me que tinha o desenho de um albatroz que pensei ser uma gaivota. O meu avô explicou-me e nunca mais me esqueci que, além da gaivota, havia o albatroz. À noite fomos para um hotel -…

Há quem tenha medo das rotinas, mas o casamento também é feito de rotinas, de pequenos gestos que colam os dias. E Susana Almeida tem saudades da sua rotina a dois e já esteve mais longe de cortar os pulsos. Em sentido figurativo, claro. Texto: Susana Almeida Ilustração: Rita Estou sozinha com os miúdos há treze dias, faltam dois dias para o meu marido regressar a casa e eu estou quase a cortar os pulsos. Sinto falta de quem ponha o café a fazer de manhã enquanto eu tomo banho; sinto falta de quem se senta comigo no sofá a ver as notícias enquanto tomamos o pequeno-almoço; sinto falta dos braços que carregam o mais novo escada abaixo; sinto falta de quem me leva e vai buscar aos barcos todos os dias, sinto falta das mensagens a perguntar se é preciso fazer compras; sinto falta de quem me faz o jantar;…

Sacrifícios atrás de sacrifícios, é assim a visão da maternidade para algumas pessoas. Nada contra, mas não é para mim. Anular-me não estava no contrato. Texto: Diana Ilustração: Rita Ontem, depois de um filme inteiro da Disney, sentei-me durante uns instantes no sofá. A minha filha veio logo a correr – Deus me livre de ter uns minutos sozinha – e pediu que mudasse de canal. Disse-lhe que não. “Mas eu preciso de ver bonecos, mamã”, garantiu-me ela. “Preciso” e não “quero”. Boa tentativa, miúda. Respondi que agora era a minha vez. A televisão, afinal de contas, também é minha. Eu faço sacrifícios por ela. Ou melhor, faço muitas cedências. Dou-lhe o fim do meu cornetto, dou-lhe a sopa ao jantar apesar da espertinha saber comer sozinha, deixo o meu jantar a arrefecer para a deitar e ler-lhe uma história naqueles dias em que tem tanto sono que não acaba de comer.…

Há pessoas que não percebem que uma mãe é um ser humano pensante, que não ficou cerebralmente morta depois de parir e que tem sentimentos. Há coisas que somos obrigadas a ouvir e que não queremos. Mas como somos bem educadas, não arrancamos olhos. Texto: Diana Ilustração: Rita “Quando é que tens outro?”, perguntam-me quase todos os dias com aquele ar malandro, um piscar de olho imperceptível, ou, na versão passivo agressiva, “o que lhe fazia bem era um irmão”. Porque um irmão, toda a gente sabe, é um elemento mágico capaz de adormecer crianças, acabar com birras e fazer com que os pais tenham imenso tempo livre para voltarem à vida. Esperem só um bocadinho que vou ali num instante fazer mais três. “Vizinha, está mais gordinha, hã?” Esta pérola de sensibilidade foi-me dita aquando da minha gravidez por um vizinho que deve ter achado que eu não tinha espelhos em…