Eu minto, tu mentes, ela mente. Esta forma verbal começa muito mais cedo do que aquilo que eu pensava. A minha filha começou a contar pequenas mentiras e eu estou chocada.

Texto: Diana
Ilustração: Rita

Saio da casa de banho onde apenas estive uns segundo a lavar as mãos e vejo a minha filha a olhar para o chão da cozinha onde “nasceu” uma pequena poça de leite. Pergunto como é que aquilo aconteceu e ela responde que foi o cão. Procuro o cão com os olhos e o desgraçado está bastante longe do acontecimento. Ainda assim, não hesito e zango-me com ele, à distância. Como bom cão que é, ao ouvir o nome dele com um tom zangado, põe o rabo entre as pernas como se fosse, efectivamente, culpado.

Pequenas mentiras

Limpo o chão e noto uma certa expressão na cara dela. Uma coisa leve, que, agora, sei reconhecer: a expressão da mentira.

Pergunto-lhe quem é que entornou o leite. Não responde, olha para mim cada vez mais aflita. Volto a perguntar e consigo uma confissão: “Fui eu.”

Tentei controlar o meu choque e evitei zangar-me para que ela percebesse que pode e deve dizer sempre a verdade. Expliquei-lhe que os acidentes acontecem e não faz mal, mas que pôr as culpas nos outros, até no cão, era muito feio. Disse-lhe que pode dizer-me sempre a verdade. Acabamos num abraço de compreensão.

À noite comentei com o meu marido, disse-lhe que se é assim agora, imagine-se na adolescência, culpei-me, como mulher que sou, a culpa é certamente minha, a miúda deve ter medo de mim e então mente, ai meu deus, está tudo arruinado. Ele, que é a parte sensata desta relação, riu-se e disse-me que se tratava apenas de sobrevivência.

“Quem é a pessoa que ela mais ama no mundo? Tu. E ninguém gosta de desiludir ou chatear a pessoa que mais adora. Foi só isso.”

Só isso? Mas agora vai ser sempre assim? Ela a estragar coisas e a culpar o cão só para não me desiludir? Expliquei-lhe que mesmo quando me zango continuo a gostar dela e que as pessoas às vezes se zangam e que é normal, mas ela só tem três anos. Não sei até que ponto percebe todas estas complicações das relações humanas. E a verdade é que também não tenho a certeza de como reagir: Zango-me? Não me zango e falo calmamente? Qual é a fronteira do aceitável? Emigro? Faço uma dança? Como raio é suposto lidar com isto?

Quando eu era miúda era uma grande mentirosa. Mentia por tudo e por nada. Às vezes era automático mas hoje, quando penso nisso, sei que mentia porque a minha mãe fervia em pouca água. E para evitar um drama, mentia. Hoje em dia não conseguiria mentir nem se a minha dependesse disso.

Eu não quero perder a cabeça, quero ser compreensiva para que a miúda se sinta à vontade para me dizer a verdade. Mas também quero que ela perceba que mentir é feio e errado. Estão a perceber a meu problema?

 

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1 Comentário

  1. Ahahahahaha muito bom!!! Eu ca5acho que o melhor é o caminho que tomou….conversar calmamente e da.lhe confiança para contar a verdade….sempre. O que me ri com “a minha mãe fervia em pouca agua”…Tão eu. No outro dia a cadela roeu uma meia…ao perceber que me faltava uma meia perguntei ao adolescente (14 anos) se tinha visto se a cadela tinha pegado na meia, o miudo garantiu que não e tal…”nao mae….nao pegou”. No dia seguinte ao aspirar encontrei a meia meia desfeita debaixo da cama dele….voltei a questionar e disse.lhe que tinha encontrado ao que ele me responde: “pois foi mas tu ferves em pouca água que eu resolvi esconder”

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