A Ana está na Holanda, Joana foi para a Irlanda, a Diana rumou a Macau, a Teresa está em França, a Andreia e a Maria foram para a Suíça, a Sílvia foi para Moçambique, a Rita escolheu a Bélgica para emigrar, a Mafalda foi para a Suécia, a Sofia para o Qatar, a Irene foi para o Brasil, a Rute foi parar a Inglaterra e a Marisa escolheu o Luxemburgo. São portuguesas a trabalhar e a criar filhos noutros países, e que nos contam as diferenças entre lá e cá.

Texto: Ana de Almeida
Ilustração: Rita

“Uma grande amiga veio para Amesterdão fazer um estágio e eu vim visitá-la. Era Dezembro, estava muito frio e cinzento. E eu, mesmo assim, apaixonei-me pela cidade. Sempre tive vontade de sair do país e viver essa experiência.”

Ana vive em Amesterdão há seis anos: “Na altura estava com 27 anos e trabalhava numa agência de comunicação de Lisboa. Não tinha grande coisa que me prendesse mas sentia um ‘é agora ou nunca’ a ecoar na cabeça. Resolvi preparar-me para vir tentar a sorte. E assim foi, ao fim de um mês já estava a trabalhar e depois a vida foi acontecendo e eu fui ficando.”

O que começou por ser uma experiência de vida acabou por se tornar em… amor.

No meu segundo emprego aqui conheci um dinamarquês alto e simpático, casamos e agora tivemos a pequena Matilda.

Ana trabalha como Quality Lead numa empresa de telecomunicações internacional e também traduz o blog de beleza Dia de Beauté.

Sobre criar filhos longe de casa

Estar longe da família custa. Aquele convívio semanal não é como quando se vive no mesmo país e, em termos afectivos, claro que isso pesa. Mas também em questões mais relacionadas com conveniência. Os meus pais já estão reformados e dão um enorme apoio ao meu irmão mais velho com os filhos dele. Eu adorava ter isso… dá jeito ter um avô ou uma avó para ficar com a cria quando ela está doente, quando se precisa de resolver uma coisa qualquer e é mais rápido sem ela. Mas não ter essa possibilidade faz desses momentos pequenas vitórias porque mostra que somos muito capazes, uma equipa forte e que (quase) tudo se faz com um bebé. E claro que há sempre aqueles amigos que se têm bem perto do coração que são como família. Ser emigrante é ser também um bocadinho piroso.

Sobre o ritmo de vida

Em Amesterdão a qualidade de vida é altíssima. O ritmo de vida não é acelerado como em Portugal em que parece que a pessoa anda sempre numa correria contra o relógio. É uma cidade com tudo o que uma cidade grande tem (menos o trânsito, filas, engarrafamentos…) mas à escala de uma vila. Não demoro mais de 20 minutos de bicicleta a chegar ao trabalho, a creche da Matilda é super longe da nossa casa e fica a 15 minutos de distância, consegue-se atravessar a cidade de uma ponta a outra de bicicleta em meia hora. Aqui vive-se e aproveita-se a vida e o dia-a-dia. E trabalha-se das 9h às 17h ou das 8h às 16h e o que conta mesmo é o teu rendimento.

Sobre as creches

Não há creches públicas, são todas privadas e todas caríssimas. São tão caras (e os holandeses tão forretas) que não é comum ter os filhos na creche os cinco dias da semana – que custa cerca de 1700/1800 euros por mês. Mas recebe-se um subsídio do governo dependendo do rendimento anual de cada família sendo que, mesmo o escalão mais alto, recebe 33% do valor da creche. O horário das creches é, na maioria dos casos, das 08h00 às 18h30. E querem que até às 09h30 todas as crianças estejam lá porque começam o dia todos juntos, sentados à volta da mesa, a comer fruta e a conversar. Uma coisa que espanta muito quem nunca viu é a sala da sesta. Todos os colégios têm salas interiores onde as crianças dormem a sesta – são mais frias, sem barulho, mais escuras e têm “jaulas” onde as crianças dormem. Não sei, sinceramente, de onde veio esta tendência, mas acredito que tenha sido uma solução para a falta de espaço. Aos quatro anos sai-se da creche para a escola, que é gratuita.

Mae portuguesa Holanda

Sobre a alimentação

Quando me mudei para cá achava que eles almoçavam sandes de queijo porque era rápido. Mas percebi que eles comem sandes de pão de forma com queijo ao almoço todos os dias, desde que nascem até morrer, até ao fim de semana. Ao jantar é a tal refeição mais completa com carne, hidratos e legumes. A carne, o peixe e ovos são logo introduzidos aos 6/7 meses e aconselham apenas a não usar sal, mel e uns quantos vegetais com teor elevado de nitratos. Na creche da Matilda só oferecem a refeição quente a partir dos 8 meses (vegetariana e biológica) por isso eu mando comida que faço em casa todos os dias, para além do meu leite. Quando a educadora percebeu que sou eu que faço ficou muito surpreendida, o que me leva a pensar que a comida de boiões é de uso recorrente aqui.

Quando o meu marido perguntou à enfermeira que segue a nossa filha se lhe podíamos dar pato, ela ficou sem saber o que dizer. Percebi que ela nunca comeu pato na vida e já tem mais de 60 anos. E não é a primeira holandesa que eu conheço sem ter provado esta carne.

Sobre a língua

Eu falo um pouco de holandês mas preciso de melhorar bastante porque, por este andar, ficamos por aqui e alguém tem de ajudar nos trabalhos de casa. Eu falo só português com ela, o meu marido fala dinamarquês mas não é tão rigoroso e às vezes fala inglês com ela também. Se estamos os dois a interagir com ela é muito difícil não falar um pouco de inglês porque nem eu falo dinamarquês, nem ele fala português. E na creche falam holandês com ela. Vai ser uma mixórdia de línguas, mas espero que compense e que ela consiga tirar proveito disso.

Os bebés na Holanda

Os holandeses não são aquele povo extrovertido como os portugueses. Regra geral mantêm-se bem na vida deles e não se manifestam muito. Mas depois há os bebés… nunca tive tanta interacção com estranhos na rua como desde que fui mãe. E não são só as velhinhas que morrem de amores por bebés, é toda a gente. Metem-se com ela, perguntam coisas, sorriem. Uma vez, uma senhora de idade parou-nos à entrada do talho e perguntou quantos meses tinha, elogiou, perguntou o nome e depois cantou uma musiquinha holandesa chamada Matilda! Se nos transportes dão lugar? É que nunca! Nem a grávidas, nem a pessoas com crianças e nem a idosos. Tens de pedir muito. E também não se tem prioridade em caixas de supermercado, filas e outras situações tais.

Ofertas culturais para miúdos

Há vários parques pela cidade e aqui valoriza-se muito o tempo na rua. Os miúdos brincam lá fora mesmo que esteja frio e a chover (até no infantário, só não brincam na rua se estiver uma ventania de alerta laranja ou uma tempestade de relâmpagos), com impermeáveis e galochas. Aqui chove tanto que não há outra hipótese e é super aceite. No dia em que fomos visitar o infantário que escolhemos a manager pediu desculpa pelo estado do espaço exterior mas ainda não tinham tido tempo de por ordem na coisa porque no dia anterior tinham enchido o jardim de água para que os miúdos pudessem brincar na lama. Há museus para crianças e vários cafés que são especialmente virados para crianças e pais onde se fazem meetups e playdates.

Sobre os cuidados médicos

Para um português que viva em Portugal, se calhar são escassos. Para a maioria das pessoas mais a norte da Europa e para quem já se habituou a isto, são óptimos. Não há antibióticos e para tudo o que não seja grave prescrevem paracetamol e descanso. É socialmente aceite que quem está com gripe ou constipado tem de ficar em casa a descansar em vez de ir contaminar os colegas para o escritório. É-se seguido pelo médico de família e, no caso das crianças, também por uma enfermeira com mais frequência.

Não se vai ao ginecologista a menos que haja algum problema grave. É-se seguido por uma parteira, fazem-se duas ecografias (às 10 e às 20 semanas), tem-se filhos em casa e sem anestesia. Fui sempre bem informada em relação a tudo e nunca nada me foi ‘impingido’- vives a gravidez com tranquilidade e como queres. E o parto também. Senti-me muito respeitada e tida em conta, decidimos juntos, ninguém decidiu nada por mim. Depois do parto há uma enfermeira que vem a casa durante uma semana passar o dia e ajudar os pais.

Sobre as férias

As férias aqui são mais espaçadas – são menos extensas mas mais frequentes. Em média são uma semana no Outono, duas no Natal, duas em Fevereiro/Março, uma na Páscoa e pouco mais de um mês no Verão. Quando já estão na escola, os miúdos só podem ausentar-se mesmo nas férias. Se, por algum motivo, os pais quiserem tirar férias fora dos períodos oficiais têm de pedir autorização e se for negada não podem ir. Ou podem… mas depois pagam uma multa alta. Há casos de pais que não pedem porque sabem que lhes vai ser negado, inventam uma gripe e depois chegam a casa e levam com uma multa porque puseram uma foto dos miúdos na neve no Instagram. É comum irem à neve nas férias de Fevereiro e a países com mais sol no Verão ou depois do Natal.

O melhor e o pior de Amesterdão

Para mim o melhor é este ambiente maravilhoso internacional que se vive em Amesterdão e também o facto de ser relativamente a meio, entre Portugal e a Dinamarca. Mas no geral é a qualidade de vida: ir trabalhar e voltar para casa ainda cedo, a tempo de viver as crianças e fazer coisas juntos sem ter de os enfiar em mil actividades extra curriculares porque não há tempo ou é preciso trabalhar até muito tarde.

O pior, para além da falta de sol e da luz de Lisboa, é a licença de maternidade que fica tão aquém de todos os países aqui à volta. São 16 semanas pagas para a mãe (das quais quatro são para tirar antes do parto) e três dias para o pai. Eu acho que é machista e injusto porque em 12 semanas não se aprende a ser mãe e largar um filho na creche, quanto mais em três dias. Dói-me quando há pessoas que vêem o país como evoluído neste aspecto porque contratam e não despedem grávidas, quando é precisamente o contrário. Não há o direito a viver um filho em pleno, a falta de incentivo à amamentação, a visão machista de que um homem vai logo trabalhar enquanto a mulher fica em casa a assegurar as primeiras semanas do bebé.