A Joana está na Irlanda, a Diana rumou a Macau, a Teresa está em França, a Andreia e a Maria foram para a Suíça, a Sílvia foi para Moçambique, a Rita escolheu a Bélgica para emigrar, a Mafalda foi para a Suécia, a Sofia para o Qatar, a Irene foi para o Brasil, a Rute foi parar a Inglaterra e a Marisa escolheu o Luxemburgo. São portuguesas a trabalhar e a criar filhos noutros países, e que nos contam as diferenças entre lá e cá.

Texto: Joana Henriques
Ilustração: Rita

Joana chegou à Irlanda há 7 sete anos. A ideia era apenas ganhar experiência profissional durante um ano mas nunca mais voltou.  “Estava muito frustrada com a minha prospecção de carreira em Portugal. Ordenado baixo, sem meio de evoluir. Comecei a pesquisar ofertas no estrangeiro e acabei por vir para a Irlanda.  Fiz uma entrevista por telefone e outra presencial e vim trabalhar na sede da Ryanair no departamento de Marketing.”

Hoje, Joana trabalha na Google em “consultoria para clientes que querem exportar os seus bens ou serviços”.

É um trabalho gratificante. Estou numa empresa que tem uma mentalidade e modo de estar com o qual me identifico e pela primeira vez na vida posso dizer que sou muito feliz no meu local de trabalho.

Sobre criar filhos longe de casa

É muito, muito difícil. Não ter a família por perto complica bastante as coisas. A vida de casal é a que sofre mais impacto depois de ter um filho. Não temos com quem deixar os miúdos e a vida a dois fica mais condicionada. Há que encontrar um ponto de equilíbrio. Nós fazemos pelo menos um date night por mês. O que inclui contratar uma babysitter. Quando os miúdos estão doentes, ficamos em casa à vez, mas não é fácil. As pequenas vitórias são os momentos em que as estratégias funcionam, como encontrar as babysitters certas, planear muito bem as actividades e encontrar um empregador family friendly que percebe que os pais precisam de flexibilidade no trabalho.

Sobre o ritmo de vida

Considero a Irlanda muito family friendly. Há parques por todo o lado. No fim de semana há famílias às centenas a passear, andar de bicicleta, trotinetes, etc. Não vivo perto do trabalho mas demoro no máximo 40 minutos a chegar a casa. Passamos tempo de qualidade com os nossos filhos durante a semana e ao fim de semana vamos a parques, quintas com animais, entre outras actividades. A escolha é variada. Apesar de ser uma capital tem um ambiente mais relaxado em comparação a Lisboa, por exemplo.

Sobre as creches

A maioria das creches aqui segue a metodologia Montessori. Agrada-me a forma com lidam com a crianças. Dão-lhes abertura para explorarem o que gostam e não são muito rígidos com a aprendizagem. No que concerne a alimentação, é bastante diferente da nossa cultura. Recordo-me dos primeiros tempos na creche do meu filho mais velho e ver no relatório diário que ao almoço comeu chicken curry… duas vezes! Ele tinha 9 meses.  Portanto há que ter a mente aberta para outras culturas e a verdade é que até hoje ele adora galinha com caril. Nos dias em que faz parte do menu na creche a cozinheira tem de fazer a dobrar pois quase todas as crianças repetem o prato.

Outro facto interessante é que as crianças brincam bastante na rua. Aqui chove com frequência mas brincam ao ar livre com galochas. É interessante ver como em Portugal muitos infantários limitam o horário de brincadeira ao ar livre porque faz muito sol, faz muito calor, faz muito frio, faz muito vento, etc. Aqui desde que não chova a potes e não estejam -20 graus, as crianças brincam todos os dias na rua. Brincar no exterior é sem dúvida a parte do dia que o meu filho mais gosta.

Sobre a alimentação

É muito à base de batata e carne. Fascina-me este país que é uma ilha e o consumo de peixe e marisco é tão baixo. Até em termos de doçaria não são muito variados. A quantidade de emigrantes no país é elevada então nos restaurantes e cafés já se começa a ver uma grande variedade de ofertas.

Lembro-me que quando o meu filho mais velho fez dois anos e fizemos uma festinha em casa com os amigos da creche. Um deles tinha fome mas não queria comer nada do que estava na mesa, então perguntei à mãe do menino se por acaso ele não queria sopa. Tínhamos uma acabada de fazer e o meu filho adorava. A resposta da mãe do menino foi: “Não sei se ele quererá sopa. Ele nunca provou, nunca fiz sopa.” Para os restantes portugueses presentes na festa foi um minuto de silêncio… Este é um exemplo das diferenças alimentares.

Maes portuguesas na Irlanda

Sobre a língua

O mais velho fala mais inglês que português mas entende tudo o que dizemos uma vez que em casa falamos apenas a língua de Camões! Já tivemos situações em que tive de levar para a creche  um papel com palavras em português traduzidas em inglês para que percebessem o meu filho. Como por exemplo “I want mais pão with butter” e outros clássicos. Muitas vezes também dou por mim a dizer asneiras como: “Queres mais cake?” ou “Vai buscar os shoes”.

Sobre ser miúdo na Irlanda

Há muitos parques para brincar, muitos parques com espaços verdes, quintas com animais, museus, quintas temáticas (por exemplo amostras de abóboras no halloween e o comboio de natal no Natal). Feiras temáticas. Normalmente qualquer evento público tem um palhaço, alguém a encher balões para crianças, etc. Até os cinemas aqui têm sessões para mães onde podem levar os bebés ou crianças mais pequenas para uma sala menos escura e com espaço para eles brincarem enquanto os pais vêm o filme. Há eventos especiais em museus, parques infantis, celebrações de freguesias na capital, feiras, parques naturais, o zoo, workshops, até yoga para famílias, patinagem no gelo, Pet farms onde os miúdos podem interagir com os animais, caminhadas, fazer bonecos de chocolate, andar de pónei, andar de comboio na vila, etc.  Note-se que a grande maioria das actividades são ao ar livre.

Sobre os cuidados médicos

Toda a gente vai ao GP (general practitioner  / médico de família) e caso o médico considere que o paciente deva ser encaminhado a um especialista, passa uma carta e depois esperamos ser chamados por esse especialista. A meu ver este método é altamente falível acima de tudo no que toca a crianças. Muitos médicos de família falham na avaliação de desenvolvimento de uma criança pois não têm formação pediátrica especializada. Quase não há pediatras privados em Dublin. Um pediatra é um especialista e por isso encontram-se em hospitais e clínicas e apenas disponíveis através de carta passada pelo GP.

Em relação a urgências de pediatria, não tenho razão de queixa e acho que são boas, ao contrário da minha experiência em Portugal, perguntam-me sempre qual é o meu feeling como mãe e quais são todas as minhas preocupações.

Sobre as férias

Eu tenho 25 dias de férias por ano e o meu marido tem 20.  A maioria dos pais aqui no Verão viaja para um destino de sol com as crianças. O destinos mais comuns são o Algarve e o sul de Espanha. As férias escolares são um pouco diferentes das portuguesas mas o conceito é o mesmo. Mais pausas ao longo do ano (uma semana no halloween, por exemplo) e férias de verão mais curtas.  São raras as famílias que não saem do país pelo menos uma vez por ano. Nós viajamos duas vezes por ano para Portugal mas também visitamos outros países. Como família decidimos que não íamos gastar todas as férias a visitar apenas a pátria, mas também para viajar pelo mundo.

O melhor e o pior da Irlanda

Pior é  sem dúvida a estrutura e o esquema do serviço de saúde. Ainda me dá alguns cabelos brancos! Os custos da creche e as rendas altas. O facto de Dublin ter as sedes europeias de grandes empresas como a Google, Facebook, Amazon, Linkedin, etc faz com todos os anos cheguem mais pessoas à cidade. A procura é largamente superior à oferta o que fez subir o preço das rendas das casas/apartamentos.

O melhor é a qualidade de vida e o que posso oferecer aos meus filhos, as oportunidades profissionais que temos e que fazem com que o nosso futuro familiar seja bastante mais risonho. Diria também que os irlandeses, como povo e em geral são 5 estrelas.