A Diana rumou a Macau, a Teresa está em França, a Andreia e a Maria foram para a Suíça, a Sílvia foi para Moçambique, a Rita escolheu a Bélgica para emigrar, a Mafalda foi para a Suécia, a Sofia para o Qatar, a Irene foi para o Brasil, a Rute foi parar a Inglaterra e a Marisa escolheu o Luxemburgo. São portuguesas a trabalhar e a criar filhos noutros países, e que nos contam as diferenças entre lá e cá.

Texto:Diana Oliveira
Ilustração: Rita

Chegou a Macau há seis meses, com o marido e a filha, através da empresa onde trabalhava em Portugal, onde é consultora na área de tecnologias de informação:  “Surgiu uma vaga para integrar a equipa na filial de Macau. Não hesitei e mudámos a nossa vida em 3 semanas!”

Criar a filha longe de casa é difícil, principalmente por não ter uma estrutura familiar que a apoie. Mas tudo isso passa com a ajuda do Facetime, até as 7 horas de diferença entre Lisboa e Macau.

É tão bom ouvir a nossa filha tão depressa a dizer “bom dia” como “love you” ou “m goi” (obrigada). Ela tem vários amigos de várias nacionalidades e consegue comunicar com eles.

Sobre o ritmo de vida em Macau?

O ritmo de vida que tínhamos em Lisboa era de loucos, uma correria constante. Em Macau conseguimos sair do trabalho e chegar a casa em 10/15 minutos e não há praticamente trânsito.

Num dia normal em Lisboa, chegava a demorar quase 2 horas entre sair do trabalho, passar pela creche e chegar a casa. A vida no geral é bem mais calma e tranquila e dá para aproveitar e ter uma boa qualidade de vida. Conseguimos ir com a pequena ao parque depois do trabalho, brincar com ela antes de ir dormir e ter mais tempo enquanto casal.

Sobre a creche e os horários:

Em Macau, e na maioria dos países asiáticos, são os avós/amas que ficam com as crianças até aos 3 anos.  Existe pouca oferta de creches face à procura sendo que a maioria das creches é comparticipadas pelo Estado e têm regras muito específicas. As vagas abrem anualmente por volta de Março e depois há um sorteio e a lista final é comunicada por volta de Abril, começando as aulas em Setembro. Nós chegámos em Julho e era evidente que a nossa filha não poderia iniciar o próximo ano lectivo. Havia 2 opções: ficar com a nossa empregada em casa ou procurarmos uma creche privada. Tivemos sorte e encontramos uma creche perfeita. Ela adora lá estar, todas as pessoas da creche a adoram. Aprende línguas, dança, faz bolos, pinta, desenha e brinca muito.

Alimentação, como é?

O almoço é sempre da responsabilidade da creche e baseia-se apenas num prato, carne picada com arroz…todos os dias! Por isso ao jantar e ao fim de semana compensamos com sopa, peixe, vegetais e o que achamos que a nossa filha deve comer em casa. Ela gosta imenso de arroz, noodles e de comidas chinesas no geral, que são super doces. Também já provou picante por engano, acontece. O melhor é a variedade de frutos, a maioria deles tropicais como manga, papaia, lichias e dragon fruit. A água que se bebe ao longo do dia e nas refeições é sempre quente, porque segundo a tradição chinesa, limpa o organismo e elimina as bactérias.

Portuguesas em Macau

Sobre ser criança em Macau

No nosso dia-a-dia ou quando visitamos locais mais frequentados por turistas, muitas são as pessoas que nos abordam para tirar fotos à nossa filha ou fazer-lhe festas. Algumas vezes concedemos algumas fotos, mas sempre ao nosso colo, nunca sozinha. Desconfio que muitas nunca tenham visto uma criança ocidental. Ainda para mais uma super fofa, de lacinhos, com mini-caracóis e muitíssimo simpática com o seu “Hello” sempre pronto.

Existem muitos parques públicos infantis espalhados pela cidade mas o que frequentamos mais com ela são os parques do condomínio em que vivemos. Macau não tem muitas ofertas culturais para crianças, por isso durante a semana normalmente procuro eventos que a possamos incluir e faço um plano para a entreter a ela e a nós ao fim-de-semana. Muitos hóteis e casinos têm parques de diversões para crianças mas ao ar livre também há vários templos e passeios interessantes que fazemos em família.

 Sobre a língua

Uma das línguas oficiais aqui em Macau é o português, mas apenas os portugueses que aqui vivem a falam. Quando chegou a Macau a nossa filha poucas palavras dizia em português e o próprio pediatra reforçou que ela deveria ter um atraso na língua porque ia aprender muitas línguas ao mesmo tempo. Em casa falamos português, com a empregada fala inglês e na escola tem inglês, mandarim e cantonês. O dia dela é um mix de línguas e ela percebe e pronuncia palavras em cada uma delas sem qualquer dificuldade. Tivemos imensa sorte porque a professora da nossa filha é brasileira e durante a integração dela falava em português para a ajudar. Quanto ao chinês, na escola dizem-me que ela está muito desenvolvida mas confesso que não me posso pronunciar porque se sei mais que cinco palavras, é muito.

Sobre as festas

Existem vários eventos ao longo do ano que são comemorados. O mais importante é sem dúvida o Ano Novo Chinês, festejado durante 1 semana entre final de Janeiro e início de Fevereiro. Depois existe o Festival do Dragão em Junho, onde são espalhados pela cidade vários dragões e é feita uma corrida de barcos com formas de dragão.

Temos também o Festival da Lua em Setembro, quando a lua é maior e mais brilhante, para celebrar as colheitas. É muito bonito porque todas as ruas e edifícios se iluminam com lanternas de papel.

Em Outubro existe um feriado da Implantação da República Popular da China e a Festa da língua portuguesa, onde se juntam para comer, beber, dançar e conversar pessoas de Portugal, Brasil, Angola, Cabo Verde, Moçambique, Guiné.

Sobre os cuidados médicos

A nível de saúde e cuidados médicos, não nos podemos queixar das condições que temos em Macau. Assim que temos o Bilhete de Identidade e Residência, podemos ir ao centro de saúde registar a nossa filha. O plano de vacinação de Macau é ligeiramente diferente de Portugal. Os medicamentos quando são receitados pelos médicos não tem qualquer custo e são disponibilizados no próprio local. Os médicos, no geral, falam pouco inglês mas dá para nos entendermos. Um facto curioso é que os médicos nos perguntam quantas doses de arroz damos à nossa filha, isto porque eles consideram que as crianças são saudáveis se comerem arroz a cada refeição. Não estivessémos nós na China.

 O melhor e o pior de Macau

O melhor é a qualidade de vida e o tempo útil que temos para a nossa filha, a oportunidade de lhe dar a conhecer novas culturas e aprender várias línguas e claro, poder visitar vários países que antes seriam muito distantes para nós. Atrevo-me a dizer que Macau também  é dos locais mais seguros do mundo por isso acho óptimo para criar a minha filha.

Quanto ao pior, existe uma grande falha na comunicação. Nós não falamos chinês, eles praticamente não falam inglês, sendo que muitas vezes a comunicação é feita por mímica ou tradutor do google. A falta de civismo e boas maneiras também é algo a que não estamos habituados. É frequente os chineses serem muito individualistas. Não existem filas, é o salve-se quem puder. Ninguém segura a porta do elevador ou da rua. Actos tão simples mas que aqui são simplesmente ignorados.