A Teresa foi para França, a Andreia e a Maria foram para a Suíça, a Sílvia foi para Moçambique, a Rita escolheu a Bélgica para emigrar, a Mafalda foi para a Suécia, a Sofia para o Qatar, a Irene foi para o Brasil, a Rute foi parar a Inglaterra e a Marisa escolheu o Luxemburgo. São portuguesas a trabalhar e a criar filhos noutros países, e que nos contam as diferenças entre lá e cá.

Texto: Teresa Vieira da Silva
Ilustração: Rita

Teresa foi para Paris há 4 anos e meio e adora. É advogada numa empresa de recursos humanos e foi parar a França porque o marido teve uma oferta de emprego. Mudaram-se e os dois filhos, gémeos, nasceram lá, há 17 meses. Têm bons amigos, mas não como os de Portugal que os conhecem há 20 anos e “são praticamente família”.

Para sair em casal, é preciso ponderar bem, já que não têm família por perto e não podem pedir a ninguém que fique com os filhos. “Além do mais a babysitter custa uma fortuna, por isso temos de ponderar muito bem cada saída.”

A parte emocional é provavelmente mais difícil ainda que a parte prática. Sentimos muita falta da família e dos amigos e custa-me que os meus filhos crescem longe dos avós. Mas viva o FaceTime!

Sobre o ritmo de vida

É muito intenso, como qualquer grande metrópole. A cidade é grande, com muita gente, locais e turistas, mas a rede de transportes é fantástica. Também temos a sorte de morar perto do emprego e da creche, por isso fazemos a nossa vida toda a pé ou de bicicleta. Por vezes o meu marido tem horários muito difíceis e eu viajo bastante pelo emprego, mas também tenho o luxo de poder trabalhar a partir de casa, se for preciso, por isso a coisa acaba por equilibrar-se. Tenho uma ama quatro vezes por semana para ir buscar os meus filhos à creche, o que é uma ajuda preciosa. As creches estão abertas das 8h-19h. Eu deixo os meus filhos às 8h45/9h e a ama vai buscá-los às 17h. A creche pública em França é gratuita mas é muito difícil arranjar vaga. Eu, com gémeos e a viver num bairro “family friendly” não consegui vaga na pública, por isso tive de optar pela privada onde têm uma enfermeira presente todos os dias, uma psicóloga infantil e uma especialista em motricidade infantil uma vez por semana. Os fins-de-semana são sagrados em França por isso, por muito que se trabalhe durante a semana, é muito raro ter de se trabalhar ao fim-de-semana.

Mae portuguesa Franca

Como é que a comida é vista

A alimentação é das melhores coisas das creches e escolas francesas e o almoço é uma parte muito importante do dia. A ideia é ensinar os meninos a serem autónomos e terem prazer em comer. A comida é feita nas creches e a ementa é digna de chef. É uma comissão do Estado que define a ementa das creches e escolas. É uma forma de assegurar que todos os meninos comem pelo menos uma boa refeição por dia, qualquer que seja o nível social ou o bairro onde vivem. O filho do CEO que vive no melhor bairro de Paris come o mesmo que o filho do desempregado que vive no pior bairro de Marselha (é mais ou menos esta a ideia, pelo menos). Não há o habito da sopa como em Portugal mas comem imensos legumes. Há carne 2/3 vezes por semana, peixe 2/3 vezes por semana e um queijo diferente todos os dia! E há sempre fruta para sobremesa. Os meninos não são obrigados a comer. Comem o que querem e na quantidade que querem. Há dias que, se não gostam de nada, pura e simplesmente não almoçam. Os meus com 17 meses já comem sozinhos (com colher e/ou à mão) e as educadores só supervisionam e ajudam se for preciso, mas não dão a comida à colher. A partir dos 24 meses, os meninos servem-se sozinhos e levantam a mesa (despejar os restos e arrumar a loiça no alguidar próprio).

Ser criança em Paris

França tem uma taxa de fertilidade muito elevada, por isso vê-se muitas crianças. E famílias com mais de filhos é relativamente comum. As pessoas são educadas e respeitam muito as grávidas e mulheres com crianças pequenas. Já se sabe, os parisienses não são propriamente gentis ou simpáticos, mas eu nunca fui tão bem tratada como quando estava grávida. E a verdade é que as crianças francesas são incrivelmente bem-educadas. Ficam à mesa nos restaurantes, sentados e bem comportados, por exemplo, sem i-pad nem brinquedos.

A oferta cultural e de brincadeiras é imensa, com excepção de uma coisas: baloiços. Não sei dizer porquê mas não há praticamente baloiços em Paris e os poucos que há são pagos (2€/10min). Mas há muitos espaços verdes (jardins e parques) e algumas salas de “soft play”. A oferta cultural é imensa: exposições, teatro, cinema, actividades é o que não falta. As bibliotecas municipais têm uma oferta e um espaço incrível por isso nós vamos ao parque quando está bom tempo e à biblioteca quando está a chover. Quase todas as crianças vão à piscina (desde os 6 meses). Eu não vou, confesso, porque com gémeos é uma aventura e eu tenho mais que fazer ao fim-de-semana!

Cuidados médicos

O sistema de saúde francês é fantástico e pode ser gratuito. Nós temos uma pediatra privada porque nos foi recomendada pelo hospital (bébés prematuros com alguns problemas).

Mas há um serviço de médicos de urgência 24h/dia que enviam médicos a casa chamado “SOS Médecin”. Em menos de 1h temos um pediatra em casa e a consulta (entre 40€ a 80€) é reembolsada a 100%. Eu já usei este serviço dezenas de vezes. Evitam-se idas às urgências ou quando a pediatra não nos pode ver. É para mim das melhores coisas que há em França!

O melhor e o pior de Paris

O melhor é a comida, o sistema de saúde e a variedade de programas que se podem fazer nesta cidade, quer enquanto adulto, quer com os filhos. Um simples passeio no Jardim das Tulherias até ao Louvre é gratuito e no entanto não deixa de ser uma experiência incrível!

O pior é o custo de vida (nomeadamente rendas exorbitantes), o mau tempo, a poluição e – clichés à parte – a arrogância dos parisienses. Mas eu adoro viver em Paris e acho que os pontos positivos pesam mais do que os negativos e acho que é uma cidade e uma cultura que pode beneficiar imenso a educação dos meus filhos.