A Andreia e a Maria foram para a Suiça, a Sílvia foi para Moçambique, a Rita escolheu a Bélgica para emigrar, a Mafalda foi para a Suécia, a Sofia para o Qatar, a Irene foi para o Brasil, a Rute foi parar a Inglaterra e a Marisa escolheu o Luxemburgo. São portuguesas a trabalhar e a criar filhos noutros países, e que nos contam as diferenças entre lá e cá.

Ilustração: Rita
Texto: Andreia Neto e Maria Vieira
Edição: Diana

Andreia Neto é professora de português e foi para a Suíça em 2013, para trabalhar. Foi lá que conheceu o marido, por quem se apaixonou à primeira vista. 10 meses depois engravidou e depois nasceu a Luísa.

Admito que não tem sido nada fácil estarmos sozinhos aqui, embora a minha irmã viva perto com a família. Só que os avós fazem muita falta. Não só porque a relação via skype é muito artificial, mas também porque os pais precisam de namorar e de algum tempo sozinhos, e isso não acontece. Fico feliz quando percebo que mesmo à distância, a Luísa reconhece os avós e gosta do colo deles quando vamos de férias e nos encontramos.

Maria Vieira, que já tem uma filha adolescente, é gerente de uma empresa e assistente numa escola primária, e chegou à Suíça, a Zurique, em 2008, “num daqueles  volte-face que a vida nos proporciona”. Aterraram no dia de feriado nacional, sem data de regresso. Ficaram até hoje.

Nunca me senti longe de casa. Os meus sogros são uns avós maravilhosos e taparam o buraco familiar português. Nem a barreira da língua conseguiu ser uma verdadeira barreira. A minha filha, que tinha 8 anos quando viemos, aprendeu alemão a uma velocidade estonteante, e eu no meu primeiro ano (enquanto travava duras batalhas contra a lingua de Goethe) comunicava com toda a gente em francês ou inglês. Zurique nesse ponto é fantástico.

Sobre o ritmo de vida

Andreia:
A vida é muito mais tranquila do que em Portugal. Não há tantas atividades extra-curriculares e não há pressão para que os nossos filhos sejam perfeitos ou academicamente exemplares. Além disso, aqui vivemos no campo e temos galinhas, coelhos e horta, dos quais temos de tratar. Quando a miúda crescer mais um bocadinho, hei-de lhe dar a escolher algumas atividades para ela experimentar: música, esqui (que também praticam com a escola), ballet para crianças, zumba ou karaté, ou eventualmente aulas de inglês.

Maria:
Em Portugal trabalhava a 100%, vivia sozinha em Lisboa com uma miúda cheia de energia, o que fazia com que o nosso ritmo fosse de 240km/hora. Por isso, quando oiço pessoas a queixarem-se do rápido ritmo de vida em Zurique, até rio. Nunca conheci outro.

Como é ser criança na Suíça

Andreia:
As crianças são muito bem vistas. As escolas funcionam muito bem, as clínicas médicas têm um espaço com brinquedos e os médicos recebem muito bem as crianças. As pessoas metem conversa, ou pelo menos sorriem. Os carrinhos de bebé podem ficar à porta dos estabelecimentos que ninguém lhes mexe. Os restaurantes também acolhem muito bem as crianças e muitos têm cadeiras e menus infantis. O barulho não é muito bem visto e é esperado que as crianças se saibam comportar em público, porque birras aos gritos não são muito bem toleradas.

Maria:
Há um hábito muito giro nas escolas no aniversário das crianças. A criança aniversariante fica em casa à espera que os colegas e professora o venham buscar. E há sempre um carrinho especial, ou uma coroa, para que a criança sinta que ele é especial e amado pelos colegas.

Em todo o lado há carrinhos de bebés e até há cafés e restaurantes que, por serem pequenos e não terem lugar no interior para os carrinhos, fazem um parking coberto para eles, na rua. Quer seja no eléctrico, autocarro ou comboio, há uma zona específica (e até uma porta!) para os carrinhos.
Se, por exemplo, encontramos uma criança a brincar a caminho da escola e vemos que ela está atrasada, vamos até lá lembrar a criança que agora tem de ir e não pode brincar mais. Mas como as crianças são ensinadas a não falarem com estranhos, a coisa resulta na perfeição: eles desatam a correr desalmadamente para a escola com medo do estranho.

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Sobre a escola e balanço trabalho/filhos

Andreia:
Eu trabalho para o governo português, por isso sou abrangida pela lei portuguesa, daí os 5 meses de licença (com 80% do salário). Na Suíça são 120 dias e se for preciso ficar de baixa antes do parto, o tempo começa a contar nessa altura. Os pais têm no máximo três dias de licença de paternidade (dependendo dos contratos de trabalho), mas o normal é um dia.

As aulas começam a meados de agosto e terminam a meados de junho e as férias de verão duram no máximo 8 semanas, mas há mais períodos de férias ao longo do ano. Acho este sistema melhor do que em Portugal. Depois das aulas as crianças podem ficar mais uma hora (paga) na escola para fazerem os trabalhos (quem quiser e precisar) ou frequentam algumas das actividades que há na vila.

Maria:
No Cantão de Zurique a escola começa muito cedo: às 07 h30. E vai até às 15h30, com uma hora de almoço. Os miúdos vão a pé para a escola sozinhos, desde a pré-primária. A polícia vem quase diariamente à escola ensinar os miúdos como e quando devem atravessar, e como devem caminhar nos passeios. Depois há uma coisa chamada indepêndencia-responsabilidade que desde muito cedo é ensinada às crianças. Elas têm que aprender a vestir e calçar sozinhas e aos 4 anos já têm desporto como disciplina. A partir dos 6 têm natação e aí também têm de se vestir, secar os cabelos e não chegar atrasados à aula seguinte. Last but not least: a escola é gratuita ! (num país onde se paga tudo…). Livros, cadernos, canetas, lápis, enumerem o que quiserem que eu respondo: grátis. Já as creches… chegam aos 120€ por dia.

Uma das coisas que mais me surpreendeu por cá foram as percentagens das horas de trabalho. Há muitos empregos a 20-40-50-60-80%. O que permite que as mães trabalhem umas horas, ou somente em alguns dias, e nos restantes possam ficar com as crianças. Confesso que até há uma certa antipatia pelas mães que trabalham a 100%. Só que durante o tempo em que as mães optam por ficar em casa, não há apoios do Estado.

Sobre a alimentação

Andreia:

Quanto à alimentação, não sei muito bem como é com os suíços, porque sou eu que cozinho para ela, mas das indicações do pediatra e do que tenho lido, não é nada de muito diferente do que faria se estivesse em Portugal. Aqui tenho reparado é que há muita oferta de comida de boião e papas com produtos biológicos e sem açúcar adicionado, por isso não há cá em casa Cerelac nem nada desse género.

Maria:

Zurique é uma cidade muito cosmopolita, com diferentes nacionalidades. Por isso, quando vamos ao supermercado parece que estamos num World Food Festival.
O jantar é normalmente um prato com queijos, salame, fiambre e/ou coisas do género, por vezes um ovo cozido, tomate cherry, pepinos de conserva e um cesto de pão ao lado. Existe uma grande preocupação em comer biológico. Por isso encontramos mercados em todo o lado, e nos supermercados as ofertas são diversificadas.

Muito importante é também a alimentação nas escolas. Doces, bolos, chocolates só são permitidos quando alguém da sala tem aniversário e leva um bolo para celebrar com a classe. Ideal para o lanche é fruta, cenouras, frutos secos e tudo o que for saudável. Para que os pais aprendam no inicio de cada ano lectivo, recebemos uma lista com o que se deve e não se deve levar.

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Sobre o melhor e o pior na Suíça

Andreia:

É um país muito organizado, bonito e muito limpo. Tem uma grande diversidade a vários níveis, linguísticos, paisagísticos, culturais, e aceita bastante bem os emigrantes, o que só enriquece a vida de quem cá mora.

A única coisa má é que podia ser só ali do outro lado da fronteira para estarmos mais perto dos nossos. É que isto de vivermos fora é tudo muito bom, mas a geografia pesa-nos no coração.

Maria Vieira:

O melhor da Suiça é o não parar. Aqui podes sempre continuar. Não há limites. Tu és responsável por ti próprio. A ideia é: apesar de ontem teres falhado, se hoje recomeçares e fizeres bem, nada te impede de chegar ao topo. Os suiços têm uma expressão para isso que significa “não parar de morder”, ou seja, não desistir.

Outra coisa maravilhosa neste pais são as paisagens. As maravilhosas montanhas com paisagens de cortar a respiração. Encontramos lagos de cores divinais.

O pior são aqueles meses em que a luz é cinzenta. Parece que estamos dentro de um ovo (deve ser assim que os pintainhos se sentem). E quanto mais tarde começar a nevar, mais longos são esses períodos. Por isso é que todos adoramos as primeiras neves.