Adormecer crianças pode ser das actividades mais frustrantes que existem. Principalmente se os pequenos selvagens não querem dormir. Susana Almeida conta-nos as suas aventuras.

Texto: Susana Almeida
Ilustração: Rita

“The cats nestle close to theirs kittens,

The lambs have laid down with the sheep.

You are cozy and warm in your bed, my dear.

Please go the fuck to sleep.”

 

A minha maior inabilidade enquanto mãe é a de adormecer os meus filhos. Com um mês a minha filha já dormia a noite inteira. Um sonho. O maior pesadelo era conseguir adormecê-la. Eu cantava, embalava, ralhava, tentava sentada, de pé, deitada na minha cama, com ela deitada no berço de mão dada comigo, no escuro, com a luz acesa, com música, sem música. Só não fiz o pino.

Não melhorou com a idade. Aos três anos e meio continua a ser um desespero. Não minto se disser que já estive três horas para a adormecer – o que teria dado para ver vários episódios da Guerra dos Tronos. A nossa rotina é simples. Está uns minutos ao meu colo, pede para a deitar na cama dela e começa a nossa saga. Se me levanto, pede para eu ficar só mais um bocadinho e mais dois bocadinhos e mais três bocadinhos; se eu digo que não, chora, grita, implora, eu ralho, eu grito, ela chora mais alto e não saímos dali. A solução é sempre a mesma: ficar com os nervos todos esfrangalhados e esperar que ela adormeça profundamente. Quando finalmente adormece, o que pode demorar cinco minutos ou uma hora, conto até cem (não se riam, eu conto mesmo até cem), levanto-me devagarinho e saio do quarto quase sem tocar no chão, para que a madeira não ranja o suficiente para a acordar.

GoTheFucktoSleep

Já vos disse que tenho dois filhos?

Com o meu filho mais novo o início foi doce. Não há dois filhos iguais, toda a gente o diz e eu queria acreditar. Era só deitá-lo na cama e ele adormecia sozinho. Não dormia a noite inteira, é certo, acordava três e quatro vezes para comer, madrugava mais cedo que o galo do quintal do vizinho, mas não me stressava para o adormecer e isso já era uma grande conquista para esta mãe. Afinal o problema não era meu!

Pouco depois de fazer um ano, o meu rapaz passou a dormir a noite inteira e escusado será dizer que começou o drama para o adormecer. Não há dois filhos iguais o tanas! Se dez vezes o deitar no berço, dez vezes ele acorda. Puxa os cabelos, os dele e os meus, grita, chora, vira-se para um lado e para o outro, quer ir para o chão. Raça do miúdo. Transforma-se no Lotso, o urso do Toy Story 3, cor de rosa, sorridente e a cheirar a morango, mas que no fundo é um rufia que quer controlar os brinquedos todos. Só o posso deitar no berço quando já está num sono profundo. Mais uma vez conto até cem (muito conto eu) e saio do quarto quase sem tocar no chão, para que a madeira não ranja o suficiente para o acordar.

Não há uma rotina que funcione, um ritual, não há livros, dicas, rezas ou terapeutas que ajudem. A única solução é ser o pai a adormecê-los. O problema não são eles, sou eu. Com o pai a corda não estica e comigo estica ao ponto de me só apetecer gritar: GO THE FUCK TO SLEEP.

* Título roubado ao livro de Adam Mansbach

 

Autor

5 Comentários

  1. Ahahahahahahah… O que eu adorei este texto. Tal e qual. Muito se escreve sobre ste assunto. E agora sim, finalmente li algo REAL. Eu só tenho uma, também com 3 anos e meio, e é igual. As tantas só dá vontade de a fazer “voar”…

  2. Bem… a minha filha mais velha (tem 2 anos) também não adormecia sozinha. Sempre a embalámos quando era pequenina e, mais tarde, já com mais de um ano, era preciso ficar na cama dela até ela adormecer (o que podia levar mesmo muitoooooo tempo).
    Depois decidimos que isso teria de acabar (para bem da nossa sanidade mental). Às vezes as coisas acabam por ser mais simples do que parecem e com muita persistência e paciência tudo acaba por ficar bem. Mas, cada caso é um caso e o que resulta para uma criança não resulta para a outra. De qualquer forma, deixo aqui a minha experência com a esperança de que possa ajudar qualquer coisa: http://www.vinilepurpurina.com/2016/05/14/quero-acreditar-nisto/

    Beijinhos e força

  3. Bem… a minha filha mais velha (tem 2 anos) também não adormecia sozinha. Sempre a embalámos quando era pequenina e, mais tarde, já com mais de um ano, era preciso ficar na cama dela até ela adormecer (o que podia levar mesmo muitoooooo tempo).
    Depois decidimos que isso teria de acabar (para bem da nossa sanidade mental). Às vezes as coisas acabam por ser mais simples do que parecem e com muita persistência e paciência tudo acaba por ficar bem. Mas, cada caso é um caso e o que resulta para uma criança não resulta para a outra. De qualquer forma, deixo aqui a minha experiência com a esperança de que possa ajudar qualquer coisa: http://www.vinilepurpurina.com/2016/05/14/quero-acreditar-nisto/

    Beijinhos e força

  4. Tânia Seixas

    A madeira atraiçoa-me tantas vezes! Não há nada pior do que estar mais de uma hora a tentar adormecê-lo, acordar sempre quando o deito no berço, e quando finalmente consigo o raio da madeira range… ou então bato em alguma coisa a sair do quarto… é que dá mesmo vontade de gritar! Assim é com o mais novo com 4 meses, o mais velho tem quase 3 anos e felizmente sempre adormeceu sozinho, que sortuda que eu era!

  5. Mariusky Spínola

    Ai Jesuh! como entendo!!! O meu Rodrigo (8anos) não dormia nem de dia nem de noite e o pior é que quando acordado só parava de berrar qd estava a comer!! A enfermeira dizia que era o chamado “síndrome do bebé irritável”, ou seja, o bebé que não tem posição de conforto… Aos seus 7 meses tive o início de um esgotamento nervoso à conta de não dormir… Tratou-se logo. Passou!! Aos 18 meses começou a dormir a noite toda e ainda hoje são necessários apenas segundos para ferrar!! Vai para a cama às 21 horas e nem resmunga!! O meu João Guilherme (4 anos) começou ao contrário… Dormia a noite inteira só acordando para comer (nasceu com 4.500 kg, imaginem o apetite!!) mas tudo mudou aos 13 meses… Uma estomatite aftosa tirou-lhe a capacidade de tolerar a chupeta de que tanto precisava/gostava para dormir… Era um sem fim de tira chupeta, põe chupeta e a rotina do sono lá se foi… Até hoje!!! Ora acorda e Lembra-se que quer ver o Faísca Macqueen, ou precisa de companhia, ou sei lá… Tanta coisa!! Qd o ignorávamos começava “Mãeeeeeee! Paiiiiiiii!” aumentando o tom de voz até que ficássemos assustados com uma possível chamada dos vizinhos à PSP por estarmos a tentar matar o puto… Está a melhorar… Já só leva cerca a de 1 hora para dormir (comigo ou com o pai ao lado) e já só acorda 1 vez por noite (nas noites boas…). Mas… E para ficar bem na foto, ser mãe é só coisas boas!!! Recomenda-se!!!

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