A Sílvia foi para Moçambique, a Rita escolheu a Bélgica para emigrar, a Mafalda foi para a Suécia, a Sofia para o Qatar, a Irene foi para o Brasil, a Rute foi parar a Inglaterra e a Marisa escolheu o Luxemburgo. São portuguesas a trabalhar e a criar filhos noutros países, e que nos contam as diferenças entre lá e cá.

Ilustração: Rita
Texto: Sílvia Valente
Edição: Diana

Em Outubro de 2012 o marido de Sílvia foi para Moçambique trabalhar. No Verão do ano seguinte, Sílvia e o filho foram até lá para passar férias e “ainda que ir a Moçambique de férias não seja o mesmo que viver e trabalhar, foram uns dias bem passados e o facto de a família estar junta acabou por ser determinante na decisão”, conta. Em 2014, depois de o seu contrato de trabalho ter terminado, Sílvia pegou no filho e foi para Maputo, onde hoje vivem em família, com mais um membro de quase dois anos.

Sílvia trabalhava como consultora na área dos Recursos Humanos, em Moçambique, mas desde que a filha nasceu, que está em casa com ela.

Estarmos só nós, a milhares de quilómetros da nossa zona de conforto, acabou por nos unir ainda mais, pois apesar de termos aqui pessoas que já consideramos amigos e que nos ajudam a suportar a distância, crescemos enquanto família e fortalecemo-nos ao lidar com os pequenos problemas que vão surgindo e que temos de resolver sozinhos.

Sobre o dia-a-dia em Moçambique:

Aqui, é muito normal as famílias terem uma ou mais babás para ajudar com as crianças. Nós optámos por não ter. Temos uma empregada, assegurada pela empresa onde o meu marido trabalha, que nos ajuda quando necessário. Aqui, qualquer família com algumas posses tem pelo menos uma empregada, já que a mão de obra é muito barata. Além da empregada, há ainda os guardas. Todas as casas ou prédios têm guarda; uns contratados a empresas de segurança, outros recrutados individualmente pela comissão de moradores ou pelas empresas onde trabalham os expatriados. Nós vivemos num apartamento, num terceiro andar sem elevador, e confesso que ter pessoas que me ajudam a trazer as crianças e as compras para cima é um alívio para as costas.
O dia-a-dia começa cedo: nas empresas começa-se a trabalhar às 7h/8h, mas às 5h30 já há movimento nas ruas. Para a maioria o dia de trabalho acaba às 17h. E muitas empresas trabalham ao sábado de manhã também. Apesar disto, tudo tem o seu tempo para se fazer e não adianta entrar em stress.

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Sobre as creches e a licença de maternidade:

O nosso filho frequenta uma creche privada onde convive com meninos de diferentes nacionalidades e culturas. A escola abre às 7h30 e muitas vezes é lá que tomam o pequeno almoço (ou mata-bicho, como dizem aqui), porque como vivem fora de Maputo, e com o trânsito caótico, têm de sair de casa muito cedo. Os pais devem ir buscar as crianças até às 17h30. Têm música, inglês, dança, e fazem as restantes actividades normais de qualquer creche. A bebé está comigo. Quando chegámos, comecei a trabalhar e só parei quando a bebé nasceu. Os horários nem sempre eram fáceis de conciliar e, como há a ideia de que quem tem crianças tem babá, dias houve em que tivemos de fazer uma grande gestão familiar e pedir o apoio da empregada para nos organizarmos. Mas creio que isto depende muito da empresa para que se trabalha. É claro que a minha realidade não é a da generalidade do povo moçambicano, as mulheres que trabalham por conta própria, a vender fruta ou peixe, por exemplo, transportam consigo os filhos às costas nas famosas capulanas, ou deixam-nos ao cuidado de familiares ou vizinhos quando são um pouco mais crescidos. A licença de maternidade aqui é apenas de 2 meses e a de paternidade 2 dias… Depois de a bebé nascer, fui ficando por casa com ela e, por agora, assim vou continuar até irmos a Portugal de férias.

Sobre a alimentação:

A alimentação que fazemos aqui é semelhante à que fazíamos em Portugal, mas há alimentos que aí são do dia-a-dia e que aqui são bem mais caros, como é o caso dos iogurtes – aqui encontram-se sobretudo os de longa duração, que não necessitam de frio -, do queijo ou do azeite. O custo de vida é bastante elevado e nos dois últimos anos a subida tem-se acentuado, mesmo produtos que antes eram baratos, como o camarão, as mangas, o caju, em determinadas alturas têm um preço proibitivo… Depois, nem sempre se encontra tudo o que se quer numa única ida às compras e os vegetais nem sempre estão nas melhores condições. Esporadicamente, pedimos à empregada que nos prepare algum prato típico, como a xima, os quiabos, a matapa ou o caril de frango com amendoim.

Sobre ser criança em Moçambique:

As crianças são bem vistas e muitas são as pessoas que interpelam os pequenos quando passeamos. Mas, infelizmente, sabemos que por aqui há muito a fazer no que diz respeito ao bem-estar e à saúde infantil. Quem tem dinheiro e pode pagar, vive bem, quem não tem e é obrigado a sujeitar-se ao sistema público, vive a realidade típica de África, com bastantes crianças de rua que não frequentam a escola ou vendem amendoim ou fruta para ajudar a pagar os estudos.
Há alguns parques e jardins, mas praticamente todos a necessitarem de uma intervenção no que diz respeito a questões de segurança e higiene. Há falta de manutenção. Os que estão menos mal são os que têm algum restaurante, que funciona como concessionário. Ou então os que pertencem a um hotel, mas estes têm entrada paga. Ofertas culturais vão aparecendo esporadicamente e, por norma, são pagas.

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Sobre as férias:

Como trabalhei como consultora, quase em regime freelancer, sempre deixei claro que estaria dependente das férias do meu marido. Tirei férias quando precisei de ir a Portugal e, como o meu marido trabalha para uma empresa portuguesa, tivemos direito aos habituais 22 dias. Mas os trabalhadores moçambicanos têm direito a 15 dias no primeiro ano e 30 a partir do segundo.
As férias grandes são entre Dezembro e Janeiro, altura do Verão no hemisfério sul, e os moçambicanos com algumas posses deslocam-se até às praias mais a norte. Outros, optam pela África do Sul ou pela Europa. Mas estes são sempre uma pequena percentagem da população, claro. A larga maioria, sem possibilidades financeiras, fica mesmo em casa. Nós aproveitamos as férias para ir, naturalmente, a Portugal, mas vamos aproveitando também um ou outro fim de semana prolongado, ou em que o meu marido não trabalhe ao sábado, para ir até à praia (Bilene, Inhambane) ou até à África do Sul, ao Kruger Park, por exemplo.

Sobre a saúde:

Em termos de cuidados médicos o sistema público é muito deficitário, com infraestruturas muito debilitadas e profissionais com formação muito abaixo do que estamos habituados na Europa. Mesmo nas clínicas privadas procuramos sempre uma segunda opinião se não sentirmos confiança no atendimento que recebemos. Para casos mais graves, não urgentes, o ideal é uma deslocação à África do Sul, a pouco mais de 2 horas de carro, com centros hospitalares muito semelhantes aos europeus. Por estas razões, optei por ter a bebé em Portugal; não me sentiria segura de outra forma e aí teria sempre apoio familiar, fundamental no pós-parto. Isto para não falar nos valores que as clínicas cobram por cada parto… O acompanhamento da gravidez, até ao terceiro trimestre, foi cá.