Rui Tovar tinha uns olhos azuis difíceis de esquecer. Um bigode farto e uma voz que toda a gente reconhecia à distância. Era jornalista, marido e pai. Maria João Lourenço, sua mulher, conta-nos como era o Rui que não se via no “Domingo Desportivo“: o pai.

Texto: Maria João Lourenço
Ilustração: Rita

Hoje faz de conta de que tenho olhos azuis, os olhos mais transparentes do mundo, e bigode.

O meu marido era assim, mas a descrição peca por defeito, escusado será dizer. Somos jornalistas cá em casa e ele costumava aparecer na televisão. No pequeno ecrã, como se dizia nos velhos tempos da TV Guia. Uma vez, lembro-me de alguém ter contado ao Rui pai que uma velhota adormecera a vê-lo, diante do seu vetusto televisor a preto e branco, e que, ao acordar, apanhou o maior susto da vida dela, confrontada com aqueles olhos-azuis-quase-brancos do pivô do “Domingo Desportivo“.

O Rui foi um pai fora de série, para não dizer o melhor pai do mundo (e arredores), até porque as leitoras e os seguidores fiéis do blogue ficariam desconfiados. Pai herói, escusado será acrescentar, cool daddy na intimidade, mas pai castigador à sua maneira pedagógica e directa. Como tal, adepto dos raspanetes na hora certa e de um ou outro par de palmadas no rabo (açoites é uma palavra pré-histórica e medieval, ou, traduzindo por miúdos, ultrapassada e malévola). Se bem me lembro, defendeu com unhas e dentes o direito de educar o besnico com base nas mais elementares regras da boa educação e do respeito, ensinando-lhe desde pequeno a amar os outros… e a não lhes ligar grande importância se fossem espécimes de fraca natureza e sem valor(es). Responder correctamente, ser fiel e verdadeiro, quer nas atitudes do quotidiano quer nos momentos das grandes decisões. Quando alinhava pelo jogo da vida, o Rui Mário não vencia o Rui Miguel aos pontos nem através de pontapés da marca de grande penalidade: convencia-o. Desculpem, mas foram muitos anos a ler (e a transcrever) textos dele! Lembro-me de duas, muito concretamente em que o levou de vencida, a mal, mas, para ser sincera, o puto nunca mais bateu a porta do quarto com violência nem voltou a responder torto. Tudo isto dentro de portas.Abriste a janela e saíste por ela

Pela parte que me toca, lembro-me de lhe ter dado uma bofetada das antigas em público. Quem nunca levou com um carrinho de supermercado nos tornozelos e ficou com lágrimas nos olhos que (não) atire pedras! Tive o nosso filho aos vinte anos, no esplendor dos meus verdes anos… e da relva nos jardinzinhos da Faculdade de Letras, e muito do que lhe ensinei funcionou, ao mesmo tempo, em benefício da aprendizagem própria. Éramos dois no mesmo barco, a navegar à boleia imbuídos do espírito livre (a liberdade estava a passar por aqui), atravessando a cidade de madrugada no mesmo velho Renault 5 vermelho e fazendo concursos de palavras ao desafio para nos distrairmos durante os engarrafamentos. O rapaz bebia copázios de leite à minha frente, nos dias do Académico com pequeno-almoço na nossa Versailles, deixando-me à beira da agonia, e comia bem que se fartava. Ensinava-lhe o que sabia e podia, ao mesmo tempo que aprendia tudo e mais alguma coisa com ele. Só não consegui adquirir o dom raríssimo da bonomia, reconheço, mas infelizmente também não é coisa que se venda no super nem na botica da esquina.

Bom, mas esta crónica não é sobre mim. Afinal, com três letrinhas apenas se escreve a palavra pai. Oito anos mais velho do que eu, o Rui dos bigodes tinha uma costela porventura mais conservadora, que ateou até ao fim a nossa relação amorosa, e, acima de tudo, era dono e senhor de uma invulgar inteligência e de uma saudável dose de pragmatismo. Sempre que era preciso chamar o Rui (filho) à pedra ou resolver alguma questão candente, entrávamos os dois na sala, que é como quem diz, no quarto dele, e tratávamos do caso. Ele fazia de polícia mau (com um coração frágil mas de ouro) e a mim cabia-me o papel de polícia boazinha. No cruzar de experiências e conceitos estava a virtude. Acreditem. Não é difícil. Basta conhecer o miúdo em causa.

Os psis e os pedagogos dizem da sua sapiência e escrevem tratados sobre o assunto. O meu querido amigo Júlio Machado Vaz, que não se debruça apenas sobre o sexo dos anjos, já escreveu muitas verdades por linhas tortas, aqui entre nós. Cabe-nos a tarefa de viver com os pés assentes na terra, abrindo os olhos dos filhos ao mundo, como quem acredita no futuro (e se ele galopa à nossa frente, nos dias que correm!), tricotando janelas com paciência e amor de pais.

Há dois anos o meu paredão ruiu. Pela fresta aberta o meu peito ruiu. Agradeço as palavras que o Sérgio Godinho me emprestou. Foi no dia 3 de julho de 2014. E a marca ficou cá.