A Rita escolheu a Bélgica para emigrar, a Mafalda foi para a Suécia, a Sofia para o Qatar, a Irene foi para o Brasil, a Rute foi parar a Inglaterra e a Marisa escolheu o Luxemburgo. São portuguesas a trabalhar e a criar filhos noutros países, e que nos contam as diferenças entre lá e cá.

Ilustração: Rita
Texto: Rita Barroso
Edição: Diana

O que é que acontece quando trabalhamos mas não recebemos nada? E quando surge um divórcio? A Rita decidiu ir-se embora para a Bélgica. “Achei que a emigração seria a única maneira de manter o nível de vida a que os meus filhos estavam habituados, sem recorrer à ajuda da família e sem deixar de ser uma mãe presente.”

No Verão de 2012 pegou nos filhos – dois rapazes, hoje com 15 e 9 anos – e deixou Portugal, a família e tudo o que lhes era familiar. A Bélgica, foi uma escolha pensada.

Quem emigra sozinho com filhos pequenos tem de pensar num plano B… Como tinha feito um programa de intercâmbio na Bélgica e continuava a manter contacto com a família de acolhimento pareceu-me o destino lógico.

Hoje, a Rita dirige o centro de documentação de uma ONG, em part-time e na outra metade do tempo faz traduções e legendagem como freelancer para uma empresa em Portugal. E também dá aulas de conversação de espanhol. “É uma vida um bocado doida, ando sempre a mil. Há dias em que ando às voltas com quatro línguas diferentes, é cansativo. A vantagem é que posso organizar os meus diferentes horários como quero, de forma a acompanhar os meus filhos o mais possível.”

Sobre as dificuldades de criar filhos longe do país:

“No início, o mais difícil foi recomeçar do zero, ao mesmo tempo que geria a integração das crianças e procurava trabalho. Valeu-me o facto de vivermos numa aldeia nas Ardenas, onde as pessoas nos ajudaram imenso com móveis, roupa, comida. A nossa maior vitória foi termos conseguido ultrapassar essa primeira fase de adaptação e termos criado uma cumplicidade incrível… que se estende ao belga que, entretanto, entrou nas nossas vidas.

Hoje, diria que o mais complicado é fazer simultaneamente de polícia bom/polícia mau, porque não há mais ninguém para compensar. Às vezes, sinto que estamos todos a precisar de descanso uns dos outros, mas não temos família por perto para ajudar. Vivemos em circuito fechado, portanto temos mesmo de dar a volta por cima. Não é fácil começar uma relação amorosa neste quadro, mas acho que nos estamos a sair muito bem.”

Sobre o ritmo de vida, a escola e os horários:

“A produtividade é completamente diferente neste país. O dia começa cedo, com um ritmo de trabalho bastante acelerado, e acaba igualmente cedo. A típica família belga janta às 18h30.

Na Bélgica, o ensino é gratuito, quer seja privado ou estatal. Os manuais são praticamente todos emprestados pela escola, sendo devolvidos em perfeito estado no final do ano. Os meus filhos andam em colégios católicos, que têm programas mais exigentes e onde todos os extras são pagos. A entrada na escola faz-se aos dois anos e meio. Na primária, que dura 6 anos, as aulas são das 8h30 às 15h45. No secundário, que também dura 6 anos, as aulas são das 8h às 16h. Às quartas-feiras, saem todos as 12h… é uma complicação! Todas as actividades extracurriculares (excepto ginástica, natação e inglês) têm de ser feitas em academias específicas. O final do dia é um momento de correria para as famílias.”

Sobre a alimentação:

“Os belgas fazem apenas uma refeição cozinhada, à noite. Ao almoço, come-se sopa, sandes e fruta. São muito descomplicados. Nós habituámo-nos a este sistema, mas jantamos sempre comida portuguesa. Como moramos a 15 minutos do Luxemburgo, é fácil comprar produtos nacionais. Acho que a cozinha belga tem demasiados fritos e carne. As escolas não têm cantinas, nem cafetarias, só vendem sopa. As sandes vêm de casa. Na primária, na hora do recreio, há uma tigela com fruta e vegetais da época à disposição das crianças.”

Mae Belgica

Sobre o balanço emprego/família:

“Tal como a maioria das mães belgas com filhos pequenos, trabalho em part-time. Regra geral, as mães não trabalham às quartas à tarde, nem às sextas-feiras. Claro que este sistema não deixa de ser algo machista, mas no meu caso específico funciona perfeitamente. No início de cada ano escolar, reorganizo o meu horário em função das actividades dos rapazes e comunico ao meu chefe. Mas, se for preciso trocar uma folga porque um deles está doente, não há problema. Desde que o trabalho apareça feito, ninguém diz nada. Há aquela ideia de que há x trabalho para fazer em x tempo, tu é que geres o teu horário.”

Sobre ser criança na Bélgica:

“Por norma, os belgas têm muitos filhos. Os filhos únicos são raríssimos. É comum ver jovens casais com 1, 2, 3, 4… crianças todas em “escadinha”. Não sei como é que aguentam, sinceramente. A sociedade e a família adaptaram-se a esta realidade. Como existem muitas crianças, não existe aquela idolatria que se vê em Portugal. Ninguém toca na barriga das grávidas, nem faz festinhas aos bebés na fila do supermercado. Aqui, não há crianças-rei que monopolizam totalmente a vida dos pais. A educação é encarada com outra descontracção e tranquilidade. As crianças são crianças até mais tarde mas, quando entram na adolescência, espera-se que comecem a assumir certas responsabilidades como trabalhar ou gerir uma conta bancária. Aos 18 anos, é suposto saírem de casa para irem para a universidade.”

Sobre a língua:

“Nunca foi um problema. Contrariamente ao Luxemburgo, por exemplo, na Bélgica há as chamadas fronteiras linguísticas. Nós vivemos na zona francófona. Eu já era bilingue e os rapazes aprenderam a falar francês com uma rapidez surpreendente. Hoje, vivemos num bilinguismo perfeito: em casa, falamos maioritariamente francês; entre mãe e filhos, só falamos português. Às vezes, baralhamos tudo e desatamos a rir… Mas noto que o mais novo, se o deixarmos, já só fala francês.”

Sobre parques infantis e ofertas culturais para os miúdos:

“Em qualquer metro quadrado de relva se vê um banquinho e um parque infantil. Os belgas fazem imensas actividades ao ar livre com as crianças, mesmo à chuva ou no meio da neve. No início, fez-me alguma confusão. Há muitas ofertas culturais para bebé e crianças pequenas. Na idade dos meus filhos é mais raro. Há diversos parques aquáticos e temáticos, mas são bastante caros.”

Sobre os cuidados médicos:

“Na Bélgica, é obrigatório ter uma “Mutuelle”, uma espécie de seguro de saúde privado. Os cuidados médicos são gratuitos até aos 18 anos, excepto nalgumas especialidades. Para os adultos, o reembolso faz-se consoante o escalão de rendimentos. Mas, por exemplo, uma consulta de medicina geral custa apenas 25 euros… antes do reembolso. As farmácias quase não vendem medicamentos sem receita médica e tendem sempre para a medicação natural e homeopática.”

Sobre as férias:

“Os belgas conjugam com uma perícia digna de um jogo de Tétris o seu mês de férias anual com os diversos feriados e pontes ao longo do ano inteiro. Raramente ficam em casa nas férias, fazem muito turismo interno e fartam-se de viajar para o estrangeiro. Como estamos perto de vários aeroportos é fácil arranjar bilhetes de avião baratos.”

Mae Belgica

 

O melhor e o pior da Bélgica:

“O melhor da Bélgica é viver numa sociedade multicultural e aberta, no centro da Europa… em menos de uma hora conseguimos estar na Holanda, na Alemanha, no Luxemburgo ou em França. É um povo sem peneiras, muito descontraído, tolerante e poupado. Aqueles temas fracturantes que foram alvo de discussão em Portugal nos últimos anos são uma realidade há décadas: aborto, eutanásia, casamento/adopção por homossexuais, etc. Há uns tempos, discutia-se a eutanásia de crianças. Só para dar um exemplo: num reality show chamado “L’amour est dans le pré”, onde diversos agricultores procuram a sua alma-gémea, um deles está à procura de um companheiro. É normalíssimo, ninguém estranha.

Não é uma sociedade perfeita, obviamente. Há uma grande comunidade árabe onde o radicalismo está a crescer. O Estado é proteccionista em relação aos estrangeiros: é complicado obter o direito de residência e conseguir uma equivalência de diplomas. Há contestações e greves constantemente. Há impostos elevadíssimos para tudo e mais alguma coisa. E claro, o mais evidente… é uma terra friaaaaa! Houve anos em que começou a nevar em Novembro e acabou em Maio. É desesperante. O que faz mais falta nem é o calor ou o sol, é a luminosidade.”