Ser mãe é para sempre. A barba rija não importa para uma mãe. Maria João Lourenço, tradutora de Murakami em Portugal, e mãe de um marmanjo de 39 anos, brinda-nos com mais uma crónica.

Texto: Maria João Lourenço
Ilustração: Rita

“A minha mamã mima-me”, escreve a professora no quadro. “A minha mamã ama-me. Que bom, minha senhora”, diz a Mafalda à mestra, “os meus parabéns. Vejo que tem uma excelente mãe. E agora, podemos falar de coisas realmente importantes?”

A lengalenga poderia continuar, até porque há historietas parecidas nas tirinhas ao lado. Apesar de Quino ter regressado à sua pátria, depois de passar a dois metros de mim num corredor da Leya, teremos sempre os exemplares com os cantos dobrados, repletos daquelas tiradas únicas. Cá em casa, marcaram a nossa vida: começámos pelas primeiríssimas edições, cada cor seu paladar, um mundo multicor de livrinhos que cabiam debaixo do braço ou enfiados à má fila na carteira. Eu e o Rui passávamos noites a ler e havia sempre uma Mafaldinha entre nós, salvo seja.

Amor de mãe aos 60 anos

Amor de mãe. É disso que se trata, certo? Sim e não. Uma pequena mentira para chamar as atenções nem sempre traz mal a este mundo. De esquizofrénico todos temos um pouco. Mãe há só duas, dizem as vozes mais modernas. Os filhos vivem connosco o tempo todo, e não digo isto pelo facto de os trazermos na barriga, lhes fazermos festas e cantarmos canções da nossa mocidade antes de eles nascerem. Começam por existir na nossa imaginação de crianças, quando brincamos às bonecas, ganham contornos mais físicos em plena adolescência, depois nascem, o milagre repete-se, e, quando chegamos à minha idade, sessenta anos redondos, descobrimos que, no fundo, eles são ainda aquele bebé que embalámos, mimámos q.b. (ainda mimoseamos, com cromos, discos, livros, canja e rosbife, atenção, não misturar tudo no mesmo saco, às vezes o caldo entorna-se), aos quais ralhámos… e continuamos a ralhar, fingindo logo a seguir que era uma piada. Os filhos crescem. Vemo-los crescer, com assombro, muito, e uma pontinha de ciúme. Têm vinte, trinta, quarenta anos. Olhamos para eles e parece-nos que foi ontem que a criaturinha deslizou de dentro de nós, na calada da noite. Quarenta e seis centímetros de gente, com pouco mais de dois quilos de peso. Até aqui, têm gostado? Bate tudo certo?

Aposto que pensaram que eu ia escrever mais uma crónica recheada de lugares-comuns. Nada disso. Cada mãe tem a sua relação, pessoal e intransmissível, com os rebentos. Chamem-se eles besnicos, minhocas ou coquinhas, é igual ao litro. O elo existe, quando existe, e é bom que se mantenha forte. Uma mãe percebe lindamente que o filho cresceu, que a filha está mais madura, que os gémeos começam a seguir caminhos diferentes, mas o amor não esmorece nunca… e o mesmo acontece com o desvelo. Queremos sempre o melhor para eles, escusado será dizer. Nós, as mães com bom coração e os neurónios a funcionar a cem por cento. A frase pode até soar a lamechice pegada, embora tenha um fundo de verdade. Nada que ver, portanto, com outra parecida, que quase todos os dias me entra por um ouvido e sai pelo outro (atenção, convém não usar cotonetes, são perigosas, dizem os otorrinolaringologistas). A saber: “desde que eles estejam bem, nós também estamos bem”. Uma filosofia preguiçosa, de pacotilha, se querem a minha opinião. Que eu saiba, ser mãe e ter cinquenta ou sessenta anos não diminui o nosso QI, tão-pouco apazigua a nossa consciência. Longe disso. Bom, esta conversa ficará para segundas núpcias, que a prosa vai longa, em número de caracteres, e tenho o Murakami à espera. É sempre a mesma cantiga.

Por sinal, estou a ouvir «Secret Garden», do velho (?!)  Bruce Springsteen. A sério, tirando o tom delicodoce do videoclip, inspirado nas imagens do filme com a Renée Zellweger e o Tom Cruise, alguma vez mergulharam na letra? O Springsteen, um dos maiores do rock puro e duro, tem baladas de fazer chorar as pedras da calçada (ainda posso escrever esta frase, enquanto a dita-cuja não desaparece, para bem dos caminhantes da nossa bela cidade de Lisboa). Parem, escutem e vejam se não tenho razão.

Voltando ao que eu dizia. É porque amamos os filhos que o mundo faz sentido, que os passos em volta constroem geografias reais e fictícias, que não temos medo nem vergonha de continuar a chamar a atenção deles para as coisas verdadeiramente importantes.