A Mafalda foi para a Suécia, a Sofia para o Qatar, a Irene, foi para o Brasil, a Rute foi parar a Inglaterra e a Marisa foi para o Luxemburgo. São portuguesas a trabalhar e a criar filhos noutros países, e que nos contam as diferenças entre lá e cá.

Ilustrações: Rita
Textos: Mafalda Samuelsson- Gamboa
Edição: Diana

Mafalda conheceu o marido quando fazia Erasmus em Praga. Apaixonou-se e seguiu-o para o seu país natal, a Suécia. Vive em Gotemburgo há três anos e meio e tem uma filha, Tesla, “um exemplar excepcional” de 13 meses, que nasceu lá.

Mafalda é arquitecta, assim como o marido, mas neste momento está ainda em licença de maternidade (e a tirar um mestrado em design de interacção). É que na Suécia as coisas são mesmo diferentes e os pais podem ficar mais tempo em casa com os filhos. Estar longe da mãe, é o pior.

Felizmente nós moramos relativamente perto dos meus sogros, que não são nada o que eu imaginava uns sogros serem, muito menos uns sogros suecos! Apoiam-nos imenso, e gostam muito da neta. No entanto não são portugueses. Obviamente a culpa não é deles, mas é não é bem a mesma coisa. Tenho muitas saudades da minha mãe e sinto constantemente que a minha família me faz falta, e que fará falta à Tesla.

Sobre o ritmo de vida na Suécia:

“Existe uma palavra sueca que os representa em quase todos os aspectos da vida: lagom. Lagom quer dizer suficiente ou quanto baste. Diria que o ritmo de vida aqui é “lagom”. Não tão rápido que dê stress, nem tão lento que se aborreça. Como em tudo o que se segue, falo só da minha experiência. Mas aqui trabalham-se as 8 horas e acabou. Trabalhar horas extra não dá prestígio a ninguém, muito pelo contrário, significa que se é pouco eficiente. A vida familiar é muito respeitada, e dessa forma, o ritmo de vida é muito adaptado ao ritmo das crianças.
Temos 5 semanas de férias, mas há quem tenha bastante mais. Os pais aqui costumam ir de férias para um sítio cheio de sol, e praia, e boa comida…tipo Portugal, vá. Mas em termos de férias, claro que há de tudo também. Acampar é muito popular, cá, por exemplo. Há imensos tipos de campos de férias e etc. As crianças têm muito mais férias do que os pais, e nesses casos tem que se resolver a coisa.”

 

Mãe portuguesa na Suécia

Sobre as creches e horários:

“A Tesla ainda não anda na creche. Aqui só se põe as crianças na creche depois do ano de idade. É para ficarem em casa protegidas durante, pelo menos, o primeiro ano de vida. É por isso que existem as licenças dos pais. A primária só começa aos 7 anos e antes disso chama-se pré-escola. A pré-escola é muito descontraída e maioritariamente ao ar livre. E sim, aqui chove, e neva, e faz frio, mas as crianças andam à mesma na rua. Como os pais só costumam realmente trabalhar as 8 horas, os horários são relativamente flexíveis, mas costumam abrir às 7 da manhã e fechar mais tardar as 18h ou 19h. Mas mais terei para contar daqui a uns anos…”

Sobre a alimentação:

“Aqui não há a cultura da sopa. A alimentação é muito livre e não há ordem nenhuma para introduzir alimentos. Aconselha-se que as crianças comam o mesmo que a família a partir do primeiro ano de idade, antes disso, apenas comida sem sal e evitar dois ou três alimentos proibidos como por exemplo os espinafres (alto teor de nitratos), mel e frutos secos. A comida em boião é muito habitual cá durante o primeiro ano de vida. Quase todas as crianças bebem farinha em biberão antes de dormir: chama-se välling! Mas a Tesla não acha graça nenhuma. De resto, toda a comida tem molho e as gomas são uma epidemia aqui!

Sobre ser criança na Suécia:

“As crianças são muito bem vistas, excepto quando são umas chatas! Metem-se muito com elas, mas ninguém toca num estranho. Nós andamos imenso de transportes, como aliás quase todos os pais aqui. Os autocarros e eléctricos têm um lugar específico para os carrinhos de bebé entrarem, tal como existem espaços para os “estacionar”. É muito habitual ceder o lugar a famílias com crianças! Cá não é exactamente necessário ter um carro quando se tem um bébé. Eu nem carta de condução tenho e sempre me dei bem! A Suécia foi o primeiro país do mundo a proibir a punição corporal. Aqui, as palmadinhas dão prisão.”

Sobre a língua:

“A Tesla ainda não fala muito (ou fala na língua dela), mas infelizmente 5 das 6 palavras dela são em sueco. Será uma luta manter o português vivo, dado que eu sou a única pessoa aqui na Suécia que falará em português com ela. Daqui a uns anos veremos!”

Sobre diversões para miúdos:

“Parques infantis há a cada 100m. Ofertas culturais, todos os dias. Em especial para os pais que estão em licença! Até há uma marcha dos carrinhos de bebé, e visitas guiadas com os carrinhos de bebé, e jogos de tabuleiro para bébé, etc, etc, etc. Eu sou uma péssima mãe que gosta muito de estar em casa ou brincar só com a Tesla, por isso acabo por participar em poucas dessas actividades. Mas até no museu da cidade existe uma área que é só para crianças, como um parque infantil interior. (O que não é de espantar dado o clima horrível desta cidade.) Há também cinema especial para crianças e museus com dias específicos para os mais pequenos. De resto, há muita natureza para explorar com equipamento variado para crianças.”

Sobre os cuidados médicos:

“A gravidez na Suécia não é doença, e não se faz drama nenhum disso! Só se faz uma ecografia e apenas às vinte semanas. Duas, caso se tenha muita curiosidade ao início, ou  caso algo de errado seja detectado. Diria que nem metade das pessoas sabe o género do bebé até ao parto, por exemplo. Não vi um único médico durante toda a gravidez, só parteiras. Aqui não há pediatras privados. A Tesla viu um pediatra 3-4 vezes na sua vida. De resto, o acompanhamento é feito com uma enfermeira especializada em crianças. No entanto, a clínica onde ela é vista tem um pediatra sempre disponível que responde a mensagens, vídeos e telefonemas. O único problema do sistema de saúde sueco são as urgências que não são particularmente eficientes. A grande vantagem é que aqui é tudo à borla para crianças, incluindo o dentista. Em Gotemburgo há dois hospitais, e só se sabe em qual se vai dar à luz no próprio dia, dependendo das vagas em cada um. Todo o processo foi tão calmo e, mais uma vez, não vi um único médico. Mas, minhas amigas (e amigos, que o meu marido também experimentou), aqui há um gás que dá uma moca daquelas para rir e que ajuda imenso com as contracções. Comprem a vossa própria botija de Etonox e depois contem-me!”Mãe portuguesa na Suécia

Sobre sair com as crianças para restaurantes:

“Claro que depende dos restaurantes, mas em geral sim. Costumam estar disponíveis cadeiras para bebés e normalmente há menu para criança. Mas aprecia-se que os pais vivam a sua vida! No entanto, não é bem visto que as crianças observem adultos a beber bebidas alcóolicas. Estranhamente, na Suécia, é bastante habitual casamentos sem crianças. Neste caso, porque se espera que os pais se possam divertir ao máximo, é normal as crianças ficarem com os avós ou outros familiares no sossego habitual.”

Sobre a amamentação:

“Aqui é proibido fazer publicidade a leites de substituição! Eu tive sorte de a amamentação ter corrido muito bem com a Tesla. De tal forma que ela ainda é amamentada. Mas diria que a decisão de não amamentar seria respeitada, depois de alguma insistência, claro. No entanto, há imenso apoio e recursos disponíveis para quem realmente quer amamentar e fazer com que isso funcione. A amamentação em público é muito habitual.”

O melhor e o pior da Suécia:

“O melhor é, sem dúvida, o apoio do estado. As licenças longas que apoiam a partilha igual entre pai e mãe fazem com que eu sinta que aqui os pais estão tão envolvidos com a educação das crianças como as mães. A igualdade entre géneros é muito mais próxima do ideal. Aqui seria absolutamente inaceitável discriminar uma mulher em idade fértil ou, até certo ponto, recusar a liberdade a um trabalhador para estar com os seus filhos. (Por outro lado, a maior parte das mulheres trabalham até às 40 semanas). As consultas médicas são todas à borla, os medicamentos com receita médica também, e o que se paga pela pré-escola é inferior ao valor de abono familiar que se recebe.

O pior da Suécia é, claro, o clima. Vocês não estão bem a ver o que é tentar tirar uma criança de casa com 20 graus negativos. Andar com o carrinho à chuva constante, num inverno escuro e sombrio. Mas se a minha família e amigos morassem aqui todos, tenho a certeza que não acharia assim tão negro o cenário!”