A Sofia foi para o Qatar, a Irene, para o Brasil, a Rute foi parar a Inglaterra e a Marisa foi para o Luxemburgo. São portuguesas a trabalhar e a criar filhos noutros países, e que nos contam as diferenças entre lá e cá.

Texto: Sofia Carvalho
Ilustração: Rita
Edição: Diana

“O que me fez dizer ‘vamos aproveitar’ não foi o facto de estarmos desempregados. O meu marido tinha o seu trabalho e eu tinha o meu escritório de advocacia com as minhas colegas. Corria bem a vida. Mas sempre quis mais e melhor. Não só para mim, mas para os meus. E pensei neles. Pensei nos meus filhos e nas hipóteses que lhes iríamos dar ao sair de Portugal, que tanto nos estava a tirar sem dar uma luz brilhante no fundo do túnel. Por este motivo, aos 41 anos de idade, decidimos partir. Para dar mais e melhor aos nossos filhos.”

Assim, seguindo a proposta de trabalho que o marido tinha recebido, Sofia e os dois filhos, de 11 e 4 anos, chegaram ao Qatar no Verão de 2015 com as temperaturas a rondar os 50ºC.

Chegámos em tempo de férias. E que maravilha foi… O Qatar está projectado para famílias. Todas as semanas conhecíamos um parque novo. E o que era magnífico era o facto de, em muitos deles, as únicas crianças a brincar eram os meus filhos.

Sobre a educação:

“Grande parte das crianças aqui, apesar de se notar que são extremamente amadas, não são devidamente educadas. Existe aquele pensamento: ‘não coloco o lixo no lixo porque há quem apanhe’; ‘não digo se faz favor e obrigada porque os empregados estão lá para nos servir’. Dizemos educadamente a essas crianças que há regras de sociedade universais: respeito. Até agora não me dei mal, mas já me disseram que tenho tido sorte. Mas não quero que os meus filhos sigam alguns dos exemplos que vêem.”

Sobre a escola:

A escola começa cedo. Às 7 horas já estão sentados na sala de aula. O mais pequeno começa às 7:15. E, consequentemente, acabam mais cedo também. O que nos deixa com a tarde livre para brincar e trabalhar. Só têm trabalhos de casa durante a semana (a professora entrega ao Domingo, que é a nossa segunda-feira, e os meninos devolvem à quinta-feira, a nossa sexta-feira). Ficamos com os fins-de-semana livres de trabalhos obrigatórios.”

Mãe portuguesa Qatar

Sobre os tempos livres:

“Emigrámos sim, mas gostamos de ter prazeres e retirar o que de bom tem esta terra para oferecer. Gostamos de ir a espectáculos. A oferta é muita e vários são grátis para famílias (os que se pagam por vezes têm um preço elevado). Os museus também têm entrada gratuita, todos os dias. E por vezes fazem workshops para famílias. Temos o deserto e depois de o atravessar, temos as suas praias maravilhosas onde adoramos ir passar o dia (ainda não passámos lá a noite, mas está nos planos).

Sobre a comida:

Gostamos de provar novos sabores e de os dar a provar aos nossos pequenos. Quando vamos comer fora (no mínimo uma vez por semana) escolhemos sempre restaurantes de comida árabe (seja Iraquiana, Síria, Turca, etc).

Em casa, tirando uma vez ou outra em que compro ‘produtos locais estranhos’ – como diz o meu filho –, a ementa é ocidental. Como há muitos expatriados (aqui não se usa o termo de emigrante) os hipermercados têm uma vasta selecção de produtos a que estamos acostumados. Tirando o porco, claro. E o vinho! Em Portugal usava-o para tempero. Aqui, dada a proibição do álcool, isso não é possível. Temos um armazém que vende porco e álcool a quem tem permissão para comprar (essa permissão é dada pela entidade patronal, a que chamamos de patrocinador) mas opto por não o fazer pois o vinho é mais caro do que na nossa terra e quando há é mesmo para beber e não temperar.

De quando em vez, comemos o nosso delicioso pianinho de entrecosto, mas o mais habitual é borrego, vaca e frango. Carne de peru nunca encontrei à venda, a não ser o bicho inteiro. O peixe, optamos por experimentar muitas vezes o local. Já fiz pratos deliciosos e outros para esquecer… peixe de água quente é muito mole. Mas também temos o salmão, dourada e robalo (nem que seja a preços elevadíssimos).”

Sobre a forma como as crianças são vistas:

No Qatar cada família árabe tem em média 3 a 4 filhos. São bem recebidos nos restaurantes. Rara é a quinta e a sexta-feira que não se vêem restaurantes cheios de famílias. Mas divergem um pouco das nossas. Enquanto nós (ocidentais) levamos as crianças connosco e sentamo-las connosco na mesa, os muçulmanos, muitas vezes munidos das suas amas, colocam as crianças numa mesa à parte. As amas não repreendem as crianças e por vezes vemos atitudes menos civilizadas. Mas também vemos famílias inteiras a comer alegremente.

Nunca vi um olhar reprovador, uma resposta má, o que quer que seja que me fizesse pensar que aqui as crianças não são bem tratadas. Antes pelo contrário. A este respeito aconteceu um episódio curioso. Estávamos nós a jantar no Souq Waqif (mercado típico árabe) e no restaurante ao lado estava uma menina com os seus três anos a fazer uma birra enorme. Os pais não a conseguiam acalmar e um árabe que ia a passar com um grupo de amigos, baixou-se, falou com ela, deu-lhe um beijo na testa e seguiu o seu caminho. Claro que não consegui perceber o que tinha dito, mas que deu resultado deu.  Eles são fantásticos para as crianças, seja que nacionalidade for.”

Mãe portuguesa Qatar

Sobre as diferenças culturais:

A sexta-feira, num país muçulmano, é dedicada à oração. Todos os estabelecimentos abrem à hora normal mas às 11 horas encerram para que os funcionários, muçulmanos ou não, estejam livres para a oração, retornando a abrir às 13 horas.

Durante o mês Ramadão é proibido comer, beber, mascar pastilha elástica e fumar. E caso alguém infrinja essa lei (sim, está legislado) é punido com pena de prisão até 3 meses e com pena de multa que poderá ir até aos 3 mil qataris reais. Torna-se também ‘mais perigoso’ mostrar ombros e joelhos. A verdade é que durante todo o ano não convém mostrar, até porque existem letreiros à entrada dos centros comerciais e edifícios do governo a impedir a entrada de pessoas vestidas com essas partes do corpo à mostra. Eu não mostro. E não custa. Se quero que me respeitem tenho de os respeitar também.”

Sobre estarem longe da família e amigos:

“Com a vinda para cá as coisas mudaram completamente. Acabaram-se aquelas saídas a dois, o cineminha para ver aquele filme “Não Disney” ou “Não Pixar”, aquele copo com amigos só nossos… Acabou isso tudo! Não temos cá os avós nem aqueles amigos com filhos que os conhecem desde bebés e que tantas vezes convidavam os nossos pequenos para pernoitar.

Esse campo emocional foi complicado ultrapassar (se é que já foi ultrapassado), o afastamento da família. Não quero que eles esqueçam, e por esse motivo não é rara a vez que falo de quem gostamos e que está a milhares de quilómetros de distância. E isso é bom e é mau.”

Sobre o trânsito:

Encontramos o pior que há por esta terra: o trânsito. Caótico! Uma falta de respeito, civismo, urbanidade, tudo. Parece que querem ser todos os primeiros a tirar os seus 4×4 do parque. Tudo ao molho e fé em Deus. O mesmo se passa nas estradas de Doha… Caótico! Não há tempo a perder. Se necessário, ultrapassam pela berma para ficar mais perto do semáforo, entrada da rotunda, o que seja. Passam só para ganhar 2 ou 3 carros de avanço. E furar filas? Costumo dizer que os nossos taxistas são uns meninos comparados com os condutores de cá.”

Sobre os cuidados médicos:

Os serviços médicos aqui são TOP! Uma vez que temos seguro vamos ao privado mas, sei que o serviço público também é bom. O meu filho Gonçalo necessitou de ir à urgência do hospital. Febre e diarreia, nada mais. Fez análises e mandaram voltar no dia seguinte (dando todas as dicas de como deveria proceder até lá, inclusive o médico pediatra disponibilizou o contacto telefónico móvel para o caso de piorar – SIM. O número particular). Voltámos e as análises ao sangue demonstravam um aumento de glóbulos brancos. Mas a análise às fezes nada indicava. Não satisfeito, o pediatra mandou fazer nova colheita. Após as 48 horas voltámos e de facto apareceu algo. O meu filho tinha salmonela. Adorei o serviço. A delicadeza de todo o pessoal, a atenção para comigo e com ele foi maravilhosa. E gostei particularmente da insistência do pediatra.