Marisa Maurício chegou ao Luxemburgo em Março de 2012 com o marido e o filho mais velho, hoje com 5 anos. O marido, desempregado há oito meses, resolveu candidatar-se a posições no estrangeiro e… acabou por ser contratado pela Cruz Vermelha Luxemburguesa logo na primeira entrevista. Depois da mudança tiveram uma menina, agora com um ano, e ainda estão a habituar-se à vida no estrangeiro. No Luxemburgo, diz Marisa, o melhor é “a justiça social, a estabilidade e segurança“.

“É sermos recompensados adequadamente pelo nosso trabalho, o que nos permite sonhar com coisas que seriam impossíveis em Portugal. É a multiculturalidade e a hipótese de dar aos nossos filhos uma educação para a tolerância, o respeito, com boas probabilidades de sucesso.”

O pior, explica, “é a falta de humor e espontaneidade”. “É o pequeno estigma que ainda existe quando percebem que somos portugueses; é a ausência de água, seja rio ou mar; é a falta de luz e os intermináveis dias cinzentos.”

Sobre o ritmo de vida:

É bastante calmo. É um país extremamente pequeno e facilmente chegas a qualquer lado (quando não há trânsito). Costumamos comprar as mercearias na Alemanha, depois damos um salto ao IKEA na Bélgica, e podemos finalmente almoçar em França. Aproveita-se o dia bem cedo, quer no Inverno, porque anoitece muito cedo, quer no Verão porque amanhece às cinco da manhã e já tens bastante luz.

As lojas e supermercados fecham às 18h e aos domingos não há quase nada aberto. As pessoas dão imensa importância às actividades ao ar livre, mesmo quando o tempo não está de feição, uma coisa a que ainda me estou a habituar!

Sobre a alimentação:

Não há grande tradição culinária no Luxemburgo, do meu ponto de vista. Come-se imensa carne (de boa qualidade, ainda assim) e o peixe não é assim tão fresco, obviamente. Os pratos emblemáticos são peixe frito, salsichas com feijão verde e uma espécie de omeletes de batata. Usam muitos produtos artificiais para engrossar os molhos e que depois sabem todos ao mesmo, as saladas também são sempre acompanhadas de molhos. É uma cozinha pouco fresca e bastante pesada.

Na escola o miúdo é obrigado a começar por uma salada (um buffet de onde deve escolher, pelo menos, dois ingredientes), depois um prato principal e finalmente a fruta ou sobremesa. Comem muito kebabs, massas, hambúrguers que, apesar de serem feitos na cantina com ingredientes frescos, deixam um pouco a desejar.

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Sobre a língua:

Há três línguas oficiais no Luxemburgo: francês, alemão e luxemburguês. Além disso, um quarto da população activa é portuguesa, portanto em muitos sítios é como se estivéssemos mesmo em Portugal! Nós falamos bem francês e eu também alemão, por isso nunca tivemos dificuldades.
Quando chegámos, o meu filho tinha um ano e meio e mal falava português. Eu morria de medo que não o entendessem na creche. Mas rapidamente ele me ensinou que os miúdos são incrivelmente rápidos na assimilação das línguas e começou a falar francês na creche, reservando o português para casa. Hoje já fala luxemburguês fluente, interage com amigos, vizinhos e outras pessoas nessa língua. Portanto, com cinco anos, fala fluentemente luxemburguês, francês e português. Ainda me maravilho com isto!

Sobre a escola, hábitos e horários:

O mais velho já anda na escola pública, no pré-escolar. São dois anos antes da primeira classe, em que brincam, fazem desporto, passeiam, vão à piscina, passeiam na floresta (mesmo quando há chuva e neve!), desenvolvem as competências sociais e aprendem a história e a língua do país. Às terças e quintas à tarde não há escola, mas existe uma espécie de ATL onde ficam. A escola começa às 7h55 e acaba às 12h00 (terças e quintas) ou às 16h00 (segundas, quartas e sextas).

Sobre o balanço trabalho/filhos:

Ambos os nossos empregadores são bastante flexíveis e compreendem as dificuldades de ter filhos pequenos. Aqui, cada pai só tem direito a dois dias por ano para doenças dos filhos, ao contrário de Portugal onde têm 30 dias por ano. Como podem imaginar, dois dias por ano com duas crianças pequenas é absolutamente irreal. Há um projecto de lei para alterar esse número de dias (depois da petição de uma portuguesa, pois claro!) que será aprovado em breve. O horário de trabalho é estipulado por lei, oito horas por dia, quarenta por semana, num máximo de 46 horas por semana. Em Portugal trabalhava menos (sete ou sete horas e meia por dia) e por isso tinha um pouco mais de tempo para o bebé.

No meu caso, e dadas as características da minha posição – sou gestora de vendas para o mercado português numa empresa de pagamentos (pensa quando vais a uma loja e pagas com o teu cartão. O terminal onde inseres o teu cartão pode ter sido vendido por mim!)- posso trabalhar a partir de casa. Mas sei que compreensão e flexibilidade da entidade patronal não é regra geral aqui.

Sobre ser criança no Luxemburgo:

Os bebés e crianças são aceites em todo o lado. As velhinhas adoram falar com as crianças e, surpresa!, dar-me conselhos sem que os tenha pedido. Os miúdos daqui são mais calmos do que os meus filhos, parece-me. Os nossos já fizeram birras épicas em alguns sítios e já interrompemos visitas por isso mas, no geral, as pessoas não te olham de lado. Há parques infantis infinitos! Qualquer quadradinho de terra é útil para colocar uns baloiços, umas traves de madeira e é diversão garantida. Há muito eventos programados para crianças (o dia em que o campo vai à cidade é bestial) e há eventos organizados para pais que incluem as crianças.
Nos restaurantes as crianças foram sempre bem recebidas, sempre houve cadeiras para a mais pequena e lápis e papel para o maior. Há normalmente pratos para crianças ou porções reduzidas.

Na escola pública, é que já tentam domar muito os miúdos. Por exemplo, no Carnaval não podiam levar serpentinas ou papelinhos porque iriam sujar a escola – parece-me um bocado ridículo e castrador.

 Sobre os cuidados médicos:

Temos uma caixa de saúde estatal obrigatória, que devolve um mínimo de 80% das despesas médicas. Pagas primeiro a despesa e envias depois o comprovativo de pagamento para seres reembolsadoPodes escolher o teu próprio médico de família e muitos médicos dão consultas sem marcação para ajudar com emergências.

Os cuidados hospitalares são excelentes e as instalações modernas e confortáveis. Estive hospitalizada cinco dias quando a miúda nasceu num quarto particular, sem pagar um único cêntimo. O pessoal foi extremamente atencioso. Depois, fui visitada em casa por uma parteira semanalmente durante quatro semanas, que seguiu o desenvolvimento da bebé, a continuidade da amamentação e me tranquilizava no pós-parto.

Aqui os pediatras têm algumas reservas em receitar medicamentos para casos onde não é claro que eles possam realmente ajudar. Primeiro, tentam a alternativa mais natural possível e só depois de esta falhar é que passam para os medicamentos.

Sobre as férias:

Normalmente dependem dos acordos colectivos de trabalho. Eu tenho 32 dias de férias e o meu marido tem 34 ou 36. Os miúdos têm mais férias durante o ano mas no Verão, em vez dos três meses portugueses, têm apenas dois.

Os pais que se podem dar ao luxo, viajam imenso e é costume fazer férias de praia quando faz frio aqui. Tentam também aproveitar ao máximo a vida ao ar livre e também programam férias desportivas/de aventura. No nosso caso, reservamos umas semanas por ano para ir a Portugal e viajamos o máximo que podemos aqui à volta, mesmo durante os fins-de-semana.

Vejam também como é ser mãe no Brasil e em Inglaterra.

Ilustração: Rita
Textos: Marisa Maurício
Edição: Diana