Texto: Ana Kotowicz
Ilustração: Rita

A gravidez de uma girafa dura 60 semanas. A minha já vai em 75. Não, não sou uma aberração da natureza nem um caso de estudo clínico – e se for será por motivos bem diferentes deste.

Se por esta altura me estão a imaginar com uma imensa barriga que chega a tocar no dedo grande do pé, já perceberam como me sinto. Foi há 75 semanas que me disseram que ia ser mãe e desde então – mesmo que os meus filhos não estejam para chegar pela via biológica – a minha barriga não pára de crescer.

gravidez imaginária

A questão é que vou adoptar. A decisão demorou algum tempo a tomar, a burocracia levou mais outro pedaço, e depois de ter sido avaliada durante seis meses disseram-me que estava apta para todo o serviço. Hip hip hurra. Nesse dia comemoramos, eu mais o meu marido, e dentro de mim houve uma explosão de fogo de artifício e milhares de balões foram lançados pelo ar.

Naquele dia zero – o tal em que me disseram que estava tudo ok e que era só uma questão de esperar pela minha vez – a minha vida mudou. É o equivalente ao dia em que uma grávida faz xixi para um pauzinho e o teste dá positivo.

E é aqui que começam todos os senão. E é aqui que a minha imensa gravidez invisível – que só eu vejo e mais ninguém – é diferente das gravidezes de todas as minhas amigas a quem eu vi crescer a barriga durante nove meses.

Quando se está grávida sabe-se que há-de sair um bebé de dentro de nós. Quando se está grávida sabe-se se é menino ou menina ou se são gémeos. Quando se é, como eu, portadora de uma gravidez invisível só sabemos que não sabemos nada. Pevas. Zero.

O meu filho podem ser dois filhos. O meu filho pode ter um ano, ou pode ter três, ou quatro ou cinco. O meu filho até pode afinal ser uma filha. Ou duas filhas. E é nestas alturas que o meu cérebro dá um nó.

Como todas as grávidas eu quero desesperadamente construir o ninho. Quero pintar o quarto, comprar a cama, encher uma gaveta de roupas pequeninas. Então porque é que não faço isso? Bolas… mas eu sei lá se ele (ou ela) vai gostar mais de dinossauros ou de princesas. Eu sei lá se lhe compre um pijama do Homem Aranha ou das princesas do Frozen. E mesmo que arrisque tudo e decida comprar cuecas da Minnie não faço ideia qual o tamanho que hei-de escolher.
Na dúvida, arrisquei nos biberões. Comprei para cima de 20, de diferentes tamanhos, cores e com tetinas para diferentes fases. Foi o meu momento zen. A partir daí, fiquei cada vez mais dependente deles. Preparar esta espécie de enxoval acalma a minha ansiedade gerada por uma espera cada vez mais longa.

A seguir veio a roupa indiferenciada. Camisas interiores maioritariamente brancas, calças de fato de treino com cores que dão pro menino e pra menina, t-shirts com dizeres unissexo, seja lá o que isso for. O tamanho? Como no máximo terão cinco anos, comprei tudo para quatro. Assunto arrumado.

A gaveta deles está cada vez mais cheia. Já há edredons e roupa de cama, bonecas e dinossauros. Não é muita coisa mas é suficiente para ir acalmando as contrações imaginárias e um ou outro pontapé que me dão quando estão agitados. Quando penso neles, nos meus filhos que ainda não chegaram, agarro-me à barriga como as grávidas fazem uma e outra vez. É como se estivesse mais próxima deles. Como se pudesse senti-los crescer cá dentro, mesmo sabendo que isso é um imenso disparate.

A gravidez do elefante indiano dura 89 semanas. A minha já vai em 75.

Ana Kotowicz é jornalista e autora do livro “Reis procuram príncipes”, da livros Horizonte, que será editado dia 1 de Junho, com ilustrações de Rita Correia.