Ilustrações: Rita
Textos: Rute
Edição: Diana

A Rute tem 31 anos, é médica e tem duas filhas gémeas de 4 anos. No ano passado, “sem pensar muito”, ela e o marido decidiram partir à aventura. Saíram do país e foram para Inglaterra, “entusiasmados com o recomeço de vida”. Instalaram-se em Leamington Spa, deixando para trás empregos estáveis, “créditos habitação, automóvel, pacote tv + net + voz, cartão Continente e Poupa Mais“. 

Trocamos o certo, habitual, rotineiro  e familiar, pelo incerto, novo, inesperado e estranho. Aumenta os níveis de adrenalina para patamares anteriormente desconhecidos, que alternam constantemente entre o entusiasmo e o medo!”

Sobre a língua:

Apesar de acharmos os dois que falávamos bem inglês, quando se está rodeado de “nativos”, a coisa é um bocadinho diferente. Demora até ficarmos fluentes o suficiente para nos sentirmos à vontade em diferentes situações. Em relação às miúdas, posso dizer que em menos de 6 meses estavam a falar inglês com british accent. Começo a dar por mim a insistir mais com o português, que faço questão que não seja esquecido. É também uma tarefa que exige esforço… todas as noites lemos para elas alternadamente em inglês e português, ouvimos muita música portuguesa e tentamos explicar-lhes o que se vai passando de importante no país, inclusivamente os feriados e seus motivos.

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Sobre a escola, horários, hábitos:

Aqui a escolaridade obrigatória começa aos 5 anos (Year 1) que corresponde à salinha de 5 anos das nossas creches e infantários em Portugal, com a ligeira diferença de que é suposto as crianças já saberem ler e escrever. Eu sou daquelas mães que acha que os miúdos devem brincar e adquirir conhecimentos relacionados com o meio até chegarem ao 1º ciclo. A solução que arranjei foi basicamente a mesma que usei para outras situações do género: parar de dramatizar e tentar equilibrar aquilo que pensamos dentro do núcleo familiar, com aquilo que nos é exigido fora de casa. Hoje, quase a acabar o ano lectivo, elas já sabem ler bastante bem em português e inglês e escrevem algumas palavras. A política inglesa em relação aos irmãos gémeos é separá-los para assegurar a independência, individualidade, bla, bla, bla! Tudo muito pertinente, mas que na hora eu não conseguia engolir, muito menos concordar. Mais uma vez a vida resolveu-se sozinha e elas estão óptimas, adoram as professoras, partilham os intervalos, os amigos, e estão felizes.

Por cá as escolas funcionam das 9h às 15h/15h30 e não há possibilidade de deixarmos as crianças mais cedo ou ir buscá-las mais tarde, são extremamente exigentes com os horários. São também muito exigentes com a assiduidadeAusências mais longas com justificações como férias, visitar familiares, casamentos, nem pensar. Temos que preencher um formulário com 6 semanas de antecedência e se a autorização for recusada e as crianças faltarem à escola na mesma, torna-se um processo penal com direito a multa e sinalização às autoridades competentes. Não estou a brincar!

A escola fecha duas semanas no Natal e na Páscoa, além do mês de Agosto e parte do de Setembro. Mas o que realmente altera a vida familiar são os half terms, uma semana no final de Outubro, uma semana em Fevereiro e outra no final de Maio… é o verdadeiro caos doméstico. Para compensar, existem inúmeras possibilidades de campos de férias e de actividades muito interessantes, diferentes e… caras. Mas a verdade é que aqui o normal é as mães não trabalharem até os filhos terem quase 10 anos, ou então trabalharem em part-time ou três dias por semana. Além disso os horários convencionais de trabalho não ultrapassam as 16h/17h como hora de saída, e às sextas-feiras muitos terminam às 15h.

Sobre a alimentação:

A ementa da escola é um documento que me causa algum prurido… não têm sopa, peixe só uma vez por semana e normalmente frito. Para terminar em beleza têm sempre doces como sobremesa. O mais normal é beberem sumos, sendo que se as crianças preferirem água, têm que a pedir (não é a primeira opção, é a alternativa).

Fora de casa, não vale a pena pedir sopa, são sempre extremamente picantes (nem eu consigo comer algumas). Contudo, é possível fazer se uma alimentação equilibrada se privilegiarmos as refeições em casa. Mas vale a pena sair ao fim-de-semana para comer uma fatia de bolo de cenoura, scones ou uma bebida quentinha no Inverno. Nisso os ingleses são exímios, a criar conforto em dias de muito frio.

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Sobre ser criança em Inglaterra:

Como resultado das poucas horas de sol durante o Inverno, janta-se e vai-se para a cama muito cedo. Por volta das 18h30/19h os miúdos já comeram e já estão a dormir. No entanto, o que tenho sentido é que tudo em Inglaterra é muito pensado para a família. Todos os restaurantes ou cafetarias têm menu infantil e um espaço para as crianças brincarem. Qualquer parque, museu, infraestrutura (tudo o que se lembrarem), está preparado com local para amamentar e mudar fraldas. É muito habitual encontrarem-se nas casas de banho, toalhitas de limpeza, fraldas e creme hidratante.

A oferta cultural e de eventos para crianças é enorme. Há sempre muita coisa a acontecer, desde festivais a mercados, passando por teatros e workshops. Todos os monumentos, castelos, edifícios históricos ou museus têm preços adaptados para famílias e actividades orientadas para as crianças… a maior parte das coisas vale mesmo a pena!

O país é conhecido pelos seus espaços verdes e estes são sem dúvida uma mais-valia. Nós vivemos numa cidade relativamente pequena e temos três parques enormes perto de casa. Todos têm parque infantil, ou lago com patinhos com possibilidade de andar de barco ou gaivota. E relvados infinitos para correr e rebolar.

Sobre os ingleses:

As restantes famílias que acabamos por conhecer nos parques ou na escola, são muito simpáticas. Por cá estão muito habituados a ouvir crianças falarem outras línguas além do inglês e perguntar de onde somos pode ser só o início de uma boa conversa ou até de uma amizade entre pais e filhos. É verdade que os ingleses não são tão expansivos como nós, mas não são de todo inacessíveis e apreciam um bom convívio.

As crianças inglesas parecem-me um pouco mais calmas que as nossas (ou então são só as minhas que inclinam um pouco para o selvagem!) A forma de brincar é mais organizada, menos barulhenta e parece que lidam melhor com as regras (mais uma vez, pode ser só em comparação com as minhas filhas que adoram brincadeiras malucas e ridiculamente sonoras). Não posso deixar de enfatizar a importância que os colegas de turma das minhas filhas tiveram na adaptação de ambas. Assisti a vários exemplos de ajuda e de generosidade por parte das crianças inglesas para com as miúdas, em termos de dificuldade na língua, diferentes rotinas dentro da sala de aula, entre outras.

Sobre os cuidados médicos:

As minhas filhas nasceram no Porto e felizmente ainda não precisei de cuidados médicos para nenhum de nós. A maior diferença prende-se com a vigilância pré-natal: não têm conceito de consulta pré-concepção e fazem apenas duas ecografias e dois estudos analíticos durante uma gestação sem risco (em Portugal fazem-se três, uma por cada trimestre). No fundo, a medicina é menos interventiva e a acessibilidade menor… não existem sistemas perfeitos.

Saibam também como é ser mãe no Brasil.

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1 Comentário

  1. Gajinha

    Esqueceu-se de referir os 1500£ por criança que se paga no infantário que é privado, não há público, pelo menos em Londres…
    eu não tenho conhecimento de nenhuma mãe que deixe de trabalhar por causa dos filhos. Há mais flexibilidade da parte empregadora para sair mais cedo, sim, mas muitos pais precisam de contractor alguém para ir deixar e/ou buscar o filho à escola primária porque 09:00-15:30 implica chegar ao trabalho as 10-00 e sair as14:30. Flexibilidade mas nem tanto

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