Todos os meses vamos publicar um texto vosso. Uma forma de vos agradecer por terem aceite ser nossas amigas e uma forma de vos conhecer melhor. Escrevam-nos para amaezonia@gmail.com

Texto: Ana Rita Gomes, 32 anos, mãe de dois, um de 5 e outro de 2, e dona do Saltos sem Altos.
Ilustração: Rita

Bom então vou escrever sobre ser mãe. Pode ser? Este tema que ninguém debate, verdadeiramente inovador, esta onda tsunamica que é ser mãe.

Deixem-me apresentar-me primeiro. O meu nome é Ana Rita. Tenho 32 anos e trabalho na fascinante área da banca desde os 22. Casei nova, viajei, bebi camiões de imperiais em miradouros, perto da minha (#ohcéusquesaudades) casa na Graça. Adoptei um cão que de tanto mimo apaneleirou para sempre e foi então que decidi ser mãe. Engravidei rápido, larguei a casa amorosa de vista rio e varandim português na Graça e assumi um compromisso mais forte que o matrimónio com o banco: comprei uma casa longe da cidade (uma hora e meia para ser precisa, entre carro, comboio e metro), com terra, pinheiros e o som do mar ao fundo.

Trabalhei o meu coração para receber o primeiro dos meus 6 filhos (já lá vamos*). Lavei todas as pecinhas de roupa à mão. Sonhei com aquele cheirinho maravilhoso de bebé, imaginei (UuUuU) a maravilha de estar de baixa na Primavera/verão, naquela casa, sossegada, arranjada e a ler um livro no jardim enquanto o bebé dormia.

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E de repente ele nasceu. Grande cabrão. Ninguém me tinha avisado. O puto não se calava. O puto não dormia mais de 10 minutos seguidos. O puto invadiu-me todos o espaço do corpo e da alma, entre leite, pontos da cesariana, sono interrompido (ou inexistente), colo permanente. Livro no jardim? #GANDALOL. Tomar banho com direito a amaciador tornou-se um luxo raríssimo. E com tudo isto a enxurrada brutal de hormonas assassinas, cereja no topo do bolo para eu me sentir uma verdadeira aberração, quando à noite me levantava pela milésima vez e o olhava berrando ao meu colo: foda-se puto. Não sei se gosto de ti.

Grávidas não fujam, voltem aqui.

Chama-se a este estado caótico que descrevi de pós-parto. Ele passa, comigo passou naquele segundo em que o pequeno ser cabeludo e chorão abriu um sorrisão desdentado e babado para mim. E foi ganhando, com a mesma força do caos pós-parto mas em sentido inverso, uma dimensão que mete um buraco negro num chinelo: sorri, senta, palminhas, gatinha, mããããe (lágrimas amigas, lágrimas), primeiros passos, abraços, e amôxê como mais ninguém sabe dizer. Estas coisas que parecem insignificantes, são na verdade uma arma brutal que a natureza preparou para nos derrubar a lógica. A lógica dir-me-ia que depois de tanto tempo sem dormir, sustos de morte com doenças e febres, falta de tempo para tudo (mesmo tudo), saudades de ir à casa de banho sem ser às escondidas para não ser perseguida, a logística das horas, essas vacas que nos limitam tudo, as saudades de uma imperial sossegada numa esplanada em vez de estar constantemente a correr para salvar um pequeno ser, enfim, depois da alteração gigante à tua vida centrada no eu mais básico, jamais voltaria a repetir a brincadeira. Mas voltei, dois anos e tal depois. E foi…. um susto ma-ra-vi-lho-so.

Porque ser mãe é isso mesmo: um pavor cheio de amor.

(*eu tinha dito que queria ter 6 filhos certo? Não senhores. Na consulta pós-parto do meu segundo filho perguntei em lágrimas à minha ginecologista se não podia fazer qualquer coisa para ter a certeza que “aquilo” NUNCA mais voltava a acontecer. Ela perguntou-me porquê, a sorrir. E eu respondi-lhe que o meu coração não aguentava mais, é muito, é demais, é uma hipérbole avassaladora de amor.)