A Irene é portuguesa mas quis o destino (e o emprego do marido) que fosse parar ao Brasil, mais especificamente ao Rio de Janeiro. Irene é uma artista que trabalha por conta própria e é mãe do Rafa, um rapaz de 13 meses que “acha que é carioca, mas é alfacinha”. Com a Irene e o Rafa inauguramos uma nova rubrica no Amãezónia: Mães (portuguesas) pelo mundo. Se houver mais portuguesas por este planeta fora, enviem-nos um email para amaezonia@gmail.com.

Ilustrações: Rita
Textos: Irene
Edição: Diana

Sobre criar um filho longe de casa: dificuldades, pequenas vitórias:

Apesar de a minha mãe, ao longo destes 13 meses, já ter vindo umas três vezes ao Rio de Janeiro  para me dar uma ajuda, a maior dificuldade em criar um filho longe de casa, para mim, é a falta do apoio familiar. O poder ficar com os avós, brincar com os primos, dormir em casa da tia… O Rafa não está a ter isso durante o primeiro ano de vida dele e não haverá como corrigir essa lacuna. Dói um bocadinho pensar nisso. Também aprendemos a dar mais valor a algo que outrora tomávamos como garantido e agora quando vamos a Portugal aproveitamos ao máximo esse tempo familiar, para compensar os meses que passamos longe.

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Sobre trabalhar com ele em casa:

Ele ainda não vai à creche, tanto eu como o pai decidimos que só iria depois de completar um ano e meio. Quanto a trabalhar com ele em casa, confesso que no início (mãe de primeira viagem, sem noção) caí na ilusão de que era possível trabalhar enquanto ele brincava ao meu lado. Total utopia: nunca foi possível e por isso acabámos por contratar uma pessoa que fica cá em casa com ele durante o dia, de segunda a quinta-feira. Assim, eu consigo refugiar-me no meu atelier em casa e trabalhar. Há sempre mais distracções, mas eu encaro o facto de poder fazer uns intervalos e dar-lhe uns mimos como uma sorte, tanto para mim como para ele. Por trabalhar por conta própria e gerir o meu horário, dá-me também a oportunidade de poder tirar um dia da semana para estar com o meu filho, por isso às sextas feiras o meu dia é dedicado a ele e tento sempre fazer alguma coisa diferente (isto quando não estou morta de cansaço, claro).

Sobre a alimentação e os hábitos brasileiros:

Enquanto os filhos das minhas amigas aí em Portugal começaram a comer sopas de legumes e papas, aqui o nosso Rafa começou a comer caldo de feijão e muita fruta passada, (qualquer fruta). Agora que já pode comer tudo tem umas predilecções totalmente cariocas. Adora tudo o que é daqui a começar pela água de coco, que bebe directo do coco pela palhinha, como qualquer adulto, passando pelo açaí, a tapioca, o aipim cozido com carne picada (o chamado escondidinho), o pão de queijo ou o (horroroso) pão francês na chapa com manteiguinha. A fruta preferida é a banana. Eu costumo dizer que ele só não é carioca de gema porque nasceu em Lisboa

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Sobre a forma como encaram os bebés e as mães:

Uma das coisas que  mais me surpreenderam quando cheguei ao Rio de Janeiro foi a falta de civismo da maioria das pessoas. No trânsito, na entrada do elevador, na rua. O que interessa é passar à frente, não dizer bom dia e por aí vai… Esse sentimento foi mudando conforme a minha barriga foi crescendo. Assim que percebiam que estava grávida mudavam a atitude passando a dar o lugar nas filas, a abrir portas, até carregar sacos de compras. Esse tratamento enquanto grávida manteve-se quando vim com o Rafa, com apenas 2 meses, para cá. Toda a gente se mete com ele na rua, são simpáticos, brincam com ele, perguntam o nome, a idade e interessam-se. Ajudam na rua com o carrinho, seguram as portas dos elevadores e dão sempre prioridade em qualquer lugar. No meu caso passei também a ser muitas vezes confundida com a babá do meu filho, mas isso dava outra entrevista!

Sobre a língua:

Com ele ainda não se notam as diferenças, que são muitas, apesar da língua ser a mesma, porque ele ainda não diz muito mais que mamã, cão, água e às vezes papá. Mas para terem uma ideia das diferenças linguísticas e de sotaques, nos meus primeiros meses aqui, ainda falava sem sotaque carioca e nos restaurantes davam-nos o menu em inglês. Às vezes perguntavam-me de que país da América Central é que eu era. Agora que já tenho um sotaque mais ou menos só me perguntam de que Estado sou, porque não sou do Rio! Quanto ao Rafael, enquanto não for para a creche, acredito que vai falar com o nosso sotaque, mas depois disso e pelos exemplos que tenho aqui de filhos de portugueses, vai começar a falar com o sotaque brasileiro, o que para mim não será problema.

Sobre diversões para os miúdos:

Há muita coisa para miúdos, concertos para bebés, teatrinhos, etc. Nós moramos na Barra da Tijuca e aqui qualquer condomínio tem parques infantis, piscinas e clubes. Enquanto não fomos pais nunca ligámos muito a nada disso, mas agora com um filho pequeno posso dizer que dá um jeitão, até pela questão de proximidade e poder fazer uma série de coisas a pé. O Rafa todos os dias tem actividades, vai para o parque onde brinca com outros meninos, tem aulas de natação e passeia muito. Ao fim de semana tentamos fazer praia que ele adora. Uma das coisas boas desta cidade é ser tão convidativa às actividades ao ar livre durante quase o ano inteiro. Com crianças isso é ainda melhor!

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Sobre ir aos restaurantes com crianças:

Aqui existe a cultura das babás, mesmo ao fim- de- semana. O Rafa também tem, mas fica com ela apenas quando eu estou a trabalhar, o tempo restante está comigo e com o pai. Quando saímos todos juntos para algum restaurante normalmente somos a única família sem a babá a cuidar das crianças, enquanto os pais conversam entre si ou com os amigos. Quando não há babá, substituem-na pelos telemóveis com desenhos animados e filmes, e é ver todos a comer com o aparelho em frente do nariz. Não me revejo nessa forma de domar o comportamento das crianças, nós vamos com o Rafael, ele senta-se na cadeirinha portátil e nós tentamos ensinar (nem sempre dá) como é que ele deve estar à mesa. Apesar de a maioria das famílias ter sempre as crianças controladas e entretidas (todos menos nós), quando há alguma birra ou choro também não é mal visto e nunca senti nenhum tipo de rejeição ou antipatia por estar num restaurante com o meu filho bebé.

Sobre o acompanhamento médico:

Tive a sorte de ter um acompanhamento médico cinco estrelas aqui no Rio. Foi, claro, no privado e nem sequer tinha seguro que cobrisse as consultas, mas o dinheiro que gastei foi bem gasto. Tive um médico maravilhoso, bom profissional e muito humano a acompanhar a minha gravidez. No caso do Rafael também tenho uma pediatra de quem gosto muito e que está sempre disponível. Apesar de eu ser muito chata, responde-me sempre a todas as dúvidas e questões por whatsapp, mensagem ou telefone, seja a que horas for.

Sobre as férias:

Aqui são 30 dias de férias seguidos (os dias úteis e fim-de-semana contam todos). Quem tem dinheiro sai do Rio, aos fins-de-semana prolongados e feriados, para Búzios, Angra, Parati ou algum outro local que fique perto mas que seja menos confuso que a cidade. Em férias adoram passear pela Europa ou Estados Unidos. Quem não tem dinheiro faz praia, convive nos churrascos com os amigos e passeia pelos inúmeros shoppings da cidade.