Texto: Susana Almeida
Ilustração: Rita

As mães têm de aturar muitas coisas. A opinião altamente especializada do resto do mundo é só uma delas. Quando damos por nós, estamos rodeadas de especialistas em tudo o que diz respeito aos nossos filhos, desde a cor e consistência do ranho ao cheiro e consistência do cocó.

Tudo começa com os filhos ainda na nossa barriga. O hospital em que decidimos parir, se optamos por parto natural ou por cesariana, o pediatra que escolhemos, o tempo que vamos estar de licença de maternidade, se vamos amamentar, a creche onde os vamos inscrever, como se as nossas escolhas tivessem algum peso físico, emocional e financeiro sobre a vida dos outros.

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Estava eu grávida da minha filha mais velha e tinha uma amiga preocupada se eu punha creme na barriga, como se as eventuais estrias não fossem minhas por direito. Ou outra que me perguntava se as vitaminas que tomava seriam suficientes porque não, elas não me tinham sido prescritas pelo obstetra.

As pessoas dizem tolices e nem dão por isso. Um dia ao mudar a fralda à minha filha mais velha, uma amiga incomodada com o cheiro disse-me que o cocó da filha dela não tinha cheiro. Acho que foi a primeira vez que fiquei sem resposta. Também há as especialistas em constipações, infecções respiratórias, bronquiolites e várias outras ites. Os meus filhos são esponjas, nas creches as doenças são uma ementa generosa e eles são uns glutões. Apanham tudo, incluindo piolhos. Ao desabafar com uma colega, disse que havia miúdos que nem um gorro na cabeça usavam no inverno e nunca estavam doentes, e os meus sempre bem agasalhados, bem alimentados, com as vacinas em dia estavam sempre com qualquer “ite”. Arrependi-me logo. Fui esclarecida que o mal era esse, os meus filhos andavam agasalhados demais.

Que meta o dedo no ar quem nunca ouviu que o seu leite era fraco, que a criança não estava satisfeita, que não sabia amamentar, que nessa posição o bebé não estava confortável ou que o filho não está a aumentar de peso.

No capítulo da amamentação o terrorismo psicológico é tanto, que há mães que desesperam se não conseguem amamentar ou sentem-se as piores do mundo se não gostam de o fazer. Eu amamentei a minha filha até ao primeiro mês. Nem eu nem ela tínhamos paciência para aquilo, ela não sabia mamar e eu só queria que ela ganhasse peso. Desisti e comecei a dar leite adaptado. Foi a melhor coisa do mundo. Amamentei o meu filho mais novo até ele ter cinco meses. Continuei sem paciência para aquilo, mas o miúdo gostava e crescia. Aceitei as condições.

Se a criança começar a andar depois dos doze meses logo vêm os avisos de que não está a ser estimulada o suficiente. Se não fala, precisa de terapia. Se é tímida, tem de socializar no parque infantil. Se não anda na natação desde que nasceu vai ser um fracasso. Se não sabe inglês aos quatro anos, Deus nos ajude!, vai ser burra. Se é menina e brinca com loiças, o lugar dela vai ser na cozinha. Se é rapaz e brinca com loiças, vai ser mole.

É cansativo ser imune às opiniões dos outros. Na maternidade não existem certezas absolutas, ser mãe é difícil para caraças. Ter alguém a questionar constantemente as nossas escolhas torna-nos propensas a desatarmos aos pontapés à primeira pessoa que abrir a boca para emitir uma opinião nada científica. Por isso, da próxima vez que tiverem uma opinião a respeito da idade com que a filha da vossa amiga devia deixar a chucha, calem-se e lembrem-se que as escolhas que a vossa amiga faz para os filhos dela, são dela e da família dela. Não têm necessariamente de coincidir com as vossas. Tomem as vossas decisões conscientes de que estão a fazer o melhor possível pelos vossos filhos. Quanto às opiniões dos outros, evitem-nas, ignorem-nas ou, se preferirem, mandem alguém à merda. Pode ter um efeito libertador, sobretudo se for acompanhado pelo vosso mais belo sorriso. Mas isto é só a minha opinião.