Texto: Diana
Ilustração: Rita

Engravidei por acidente numa daquelas noites “deixa-estar-não-te-preocupes-que-não-vai-acontecer-nada” mas depois acontece mesmo (ponham os olhos nisto, adolescentes). Não é que não quisesse, mas o momento já não era o ideal. Tinha acabado de aceitar um novo trabalho, numa revista, e a menos de um mês de lá estar descobri que estava grávida. Má onda.

Fiquei feliz, mas principalmente assustada. Era a segunda vez que engravidava, a primeira não tinha corrido bem. A euforia que senti da primeira vez não a tornei a sentir: tinha medo, uma coisa profunda que me deixava triste e à defesa. Recusei sentir-me demasiado alegre não fosse ter outro desgosto. Mas passadas as 12 semanas do costume, acalmei. O medo passou, ficou o alívio e uma fome cada vez maior, enjoos esquisitos que me impediram de comer manga, e sono. Muito sono.

Nunca me senti completamente confortável.

Chateavam-me as limitações alimentares – legumes crus nem pensar, carne mal passada faz mal, sushi é melhor não – a pressão para deixar de fumar (não deixei, reduzi para 4 por dia), a culpa de não deixar de fumar, a vergonha que me vissem a fumar, a paranóia de nunca atravessar a estrada a menos que estivesse verde, mesmo que não viessem carros num raio de dez quilómetros. E quando atravessava levava as mãos na barriga como uma armadura.

De vez em quando sentia-me especial, crescida, feliz como se guardasse um segredo incrível que só eu sabia, como se de repente tivesse poderes sobre-humanos. Mas o maior desses poderes foi o de engordar em menos de nada o equivalente a outra pessoa (quase) ou a um cão bastante grande.

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No fim da gravidez tinha mais 30 quilos, umas pernas que pareciam troncos graças à retenção de líquidos, coisa que achava ser um mito mas que também me suprimiu os tornozelos, tão elegantes e magrinhos, deu-me uns pés que pareciam qualquer coisa que se usa no cozido à portuguesa mas feitos de plasticina, e umas mamas enormes que impediam que eu própria me reconhecesse ao espelho. Aceitar que já não me reconhecia foi muito difícil.

A minha gravidez foi horrível: testemunhos

#1
Filipa, que trabalha em marketing e tem dois filhos, sofreu com tudo, desde enjoar todos os cheiros, até o seu próprio odor, a diabetes gestacionais, acabando a dormir sentada a partir do 6º mês graças a uma dor forte nas ancas. E também não lidou bem com as transformações físicas e hormonais: “Não me sentia bonita, bem pelo contrário, sentia-me um pequeno pote. Sou uma pessoa muito confiante, bem-disposta e, de alguma forma, em controlo das minhas emoções. O impacto que as alterações hormonais tinham no meu estado de espírito – muito chorona sem perceber bem o porquê – foi algo que me desagradou”.

#2
Maria Mendes, 27 anos, mãe de um rapaz de dois meses, além dos enjoos sofreu de algumas fobias que a impediam de fazer coisas tão simples como ir ao supermercado: “Devido ao meu mal-estar, não me sentia segura em ir ao supermercado e afins”. Outro problema foi a falta de memória que afecta quase todas as grávidas: “A nossa capacidade intelectual diminui mas eu achei mesmo que estava a estupidificar. Recados, lembretes, estava o caldo entornado. Finalmente quando me começo a habituar à ideia que estou grávida e a lidar com todas estas limitações, vieram os quilos a mais (23) que fizeram com que nem os atacadores conseguisse apertar sozinha. Basicamente não fazia nada sozinha, não podia pegar em nada, tornei-me numa dependente”.

#3
Catarina tem 35 anos e é mãe de duas filhas, uma com 4 anos e outra com 9 meses. Teve duas gravidezes muito diferentes, mas nenhuma especialmente boa. A primeira, apesar de ter sido calma, não lhe deixou uma boa memória: “Detestei a experiência, sentia-me pesada, gorda, feia, cansada e, apesar de ter feito exercício até ao dia do parto, engordei 14 quilos. Tive imensos enjoos até às 17 semanas e nunca pensei que estes fossem tão incapacitantes. Às vezes, nem conseguia andar”.

As expectativas:

Quando me imaginava grávida o cenário era sempre idílico: vestidos de verão, a transbordar felicidade, pele luminosa, bem estar e uma data de merdas de revista. A única coisa que correspondeu às expectativas foram os vestidos de Verão. XXL, mas de Verão.

#1
Catarina, ao contrário de mim, tinha baixas expectativas: “Nunca imaginei a gravidez como o mar de rosas que muitas mulheres pintam e sentem. Sempre a encarei – se posso pôr as coisas nestes termos – como um mal necessário para atingir um fim muito desejado. Mas confesso que ambas conseguiram superar as minhas expectativas pela negativa. Antes 100 partos que uma gravidez! Nunca tive medo do parto e sempre fui bastante calma para a maternidade, talvez por saber que ia deixar de estar grávida em breve”.

#2
Filipa, não tinha expectativas: “Acho que nunca tinha pensado muito como seria a gravidez. Concentrei-me sempre no simples facto de querer muito ser mãe, pelo que nunca racionalizei muito a coisa nem criei grandes ideias feitas de como seria. O meu grande medo era o parto e, se calhar por causa disso, achei tudo bem simples”.

A gravidez é uma coisa horrível, dicas para sobreviver:

  • Engordar o mínimo indispensável: eu sei que a comida é um conforto e sei que, quando não se controla mais nada do que está a acontecer no corpo, comer pode ser a única forma de consolo. Eu comia massa e gelados e tudo o que apanhasse à mão como uma espécie de forma de protesto. Já que estou a passar por isto, já que tenho estas limitações, ao menos como. E ai de quem se atravessasse no meu caminho da sala à cozinha. Lembro-me de ir ao Alive, quando já mal me tinha em pé, e de cobiçar à chegada os noodles que uma amiga estava a comer. Ela entregou-me a caixa imediatamente não fosse eu comê-la a ela. Nessa noite ainda comi batatas fritas e mais umas porcarias gordurosas. A verdade é que o aumento de peso dificultou-me muito a vida e contribuiu para o meu mal-estar e falta de autonomia. E se perdi grande parte em apenas dois meses – com dieta rígida – só voltei ao que era um ano depois. Não comam hidratos à noite, mesmo que o costumassem fazer antes de engravidar. Não se entreguem aos gelados, nem ao pão. Façam uma dieta equilibrada. A sério.
  • Tentar ver o lado bom da gravidez: fazer um esforço mental para aceitar as limitações e aproveitar as coisas boas. Durante a gravidez não há menstruação, maravilha; durante a gravidez o cabelo não cai e fica brilhante; durante a gravidez os pelos crescem menos, não é preciso ir à depilação tantas vezes; durante a gravidez a maioria das pessoas dá-nos o lugar e deixam-nos ir à casa de banho em todos os cafés mesmo que não tenhamos consumido nada; a gravidez é uma desculpa para comprar alguma roupa nova; sentir o bebé a mexer no início é incrível (lá mais para o final é um suplício de pés e cotovelos espetados sem qualquer consideração pela nave mãe).
  • Aceitar as lágrimas: as hormonas transformam-nos em seres chorões e lamechas que desabam em lágrimas perante a porra de um vídeo de gatinhos bebés. Chorem à vontade, que nem umas loucas, será a única altura em que o poderão fazer sem serem julgadas. Chorar é libertador. E depois passa, garanto. Rapidamente voltarão a odiar o mundo como boas e velhas misantropas. Ou sou só eu?
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9 Comentários

  1. Cada caso é um caso… Não vou dizer que estar grávida foi o melhor momento da minha vida, até porque foi uma gravidez de risco e estive 5 meses sem poder sair de casa. No entanto, nunca tive enjoos, ou dores, engordei 9 kgs e 2 semanas depois de a minha filha ter nascido tinha regressado ao meu peso habitual. Isto para dizer que as experiências não são todas iguais e que o melhor da gravidez não tem que ser o parto!

  2. Tive duas gravidezes tranquilas do ponto de vista fisico, mas emocionalmente desgastantes: entre o chorar e o ficar chateada e “rezingona” … o meu filho pré-adolescente dizia-me eu gostava de dois irmãos, mas já mudei de ideias. Não quero passar mais meses contigo assim.

  3. Sofia P.

    Já eu adorei quase todos os momentos da minha gravidez, tirando os enjoos que passaram ao fim do primeiro trimestre e um período de 3 dias em que estive de estar deitada por um falso descolamento de placenta. Até fiquei mais esperta e fiz uma cadeira com distinção e uma apresentação num congresso 😀

  4. 37 semanas de tortura…. Desde o dia 1 até ao parto com enjoos e a vomitar, foi assim do meu primeiro e a história repete se… Não tá fácil, à meses que não sei o que é dormir uma noite inteira, quando não é o calor insuportável (devo ter mais 20 graus que as outras pessoas) é a vontade de fazer xixi, e a azia, e a sede… Desde o princípio da gravidez perdi 9kg e nas últimas 5 semanas recuperei 2,nada mau….isto não tá fácil…. Já só faltam 3 semanitas…

  5. Nathalia

    Pra mim tem sido um martírio e é pelo menos agradável perceber que não sou um monstro por odiar.
    Me sinto um lixo, não consigo comer nada, meu casamento está um inferno por que meu marido não entende que eu não estou feliz. Vomito todo o tempo, tenho gastrite e estou obrigada a ficar longe dos remédios que me aliviam. E tenho apenas 12 semanas.
    Choro sempre que penso que poderia ter evitado isto e prometi a mim mesma arrancar meu útero quando possível ou simplesmente nunca mais fazer sexo na vida por que 5 minutos de prazer não valem essa tortura maldita…

  6. amaezonia

    Olá Nathalia,a gravidez pode ser mesmo muito difícil. Mas não devias viver isso sozinha. Há algum centro de preparação para o parto, ou um centro do bebé onde possa ir e falar com pessoas na mesma situação? Às vezes o maus estar dura apenas nos primeiros 3 ou 4 meses e depois passa. Boa sorte, coragem e força. Qualquer coisa estamos aqui.

  7. Devido a um aborto retido na primeira gravidez, não consigo curtir a minha gravidez agora. São muitas dúvidas, medos e incertezas. Pra mim está sendo uma tortura, só penso q qualquer hora alguma coisa ruim pode acontecer e vou passar por todo sofrimento novamente, sofrimento esse q ainda não estou totalmente recuperada.

  8. Cláudia Wahnon

    Como a compreendo, Telma.
    Só que no meu caso engordei 30 kg!
    Tortura é pouco.

  9. Cinthia Ferreira Marinho

    Acho quase impossível eu encarar outra gestação,pelo simples fato de que minha vida virou um inferno desde que me descobri grávida. Desde planos que eu tinha até eu me tornar completamente inútil desde o primeiro mês, porque vomitava jatos igual a garota do exorcista. Isso sem falar da azia e má digestão que cada mês piora mais. Me sinto uma porca porque a cada minuto é um arroto. Me sinto uma nojenta,e outra ir no banheiro cagar é lá uma vez ou outra, porque grávida não tem intestino praticamente. E agora com quase 8 meses as náuseas voltaram a me perguntar. Olha, com toda a sinceridade eu sabia que gravidez não era fácil,mas conseguiu ser pior do que eu imaginava. E as pessoas ainda me olham feio porque eu falo que de jeito nenhum quero repetir esse fato na minha vida. Se eu soubesse que seria assim, acho que jamais teria filho na vida. Foi um ano perdido,com sensações horríveis. Saudades da minha progressiva,da minha barriga chapadinha,das minhas roupas tamanho médio. Não vejo a hora de acabar esse pesadelo,e daqui a poucos meses vou trabalhar. Se eu tiver que ficar em casa sem trabalho cheirando a fralda suja e pomada de assaduras eu vou surtar! Preciso pagar minhas contas (que agora vão ser bem maiores)e também é um alívio pra minha cabeça ficar um pouco longe de casa. Espero que essa maré barra pesada passe logo.

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