Texto: Susana Almeida
Ilustração: Rita

O que me lixa é a falta de tempo. Esse cão que nos rói os ossos.
Sou mãe de uma menina de três anos e de um menino de nove meses. E o que me lixa é a falta de tempo para dormir.

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Sou uma mãe suburbana, das que acordam às 6h da manhã num dia bom e atravessam o rio em direcção a Lisboa. Quando o despertador toca, a noite foi regra geral mal dormida. A filha crescida já veio para a nossa cama há várias horas, já chorou por não encontrar a chucha, já resmungou porque não tem frio e não se quer tapar, já espetou os joelhos nas minhas costas ou os pés na cabeça do pai. O filho pequeno já acordou para comer, já chorou porque não consegue apanhar a chucha, já chorou só porque sim.

Quando abrimos a porta de casa para sair, já tivemos as birras para vestir, para pentear, para beber o leite, para ver os desenhos animados e não as notícias (malditas gravações automáticas que têm a Masha sempre disponível), já alimentámos o gato Tom, já voltámos atrás porque alguém quer levar os bebés para a escola e outro livro que não aquele que tinha escolhido em primeiro lugar ou porque alguém fez cocó e tem de ser mudado.

Deixamos os miúdos na escola, sentamo-nos no carro e respiramos fundo pela primeira vez, já estamos exaustos. Seguimos em piloto automático.

Trabalhar fora de casa é um alívio, aturar por algumas horas outras birras, ouvir conversas mais ou menos adultas, produzir alguma coisa que não aspirar a casa ou meter roupa a lavar.
São umas horas de descanso da escravidão dos filhos, da constante necessidade de atenção que nos suga a energia. Os filhos não são só os filhos, é toda uma logística que gira à sua volta.
As fraldas e as toalhitas que não podem faltar, ter a certeza que há leite em pó suficiente, o que vamos jantar, se temos fruta em casa, se há roupa passada e lavada, os banhos ao final do dia, se chegamos a horas de os ir buscar à escola.

Ir buscá-los à escola é entrar outra vez no carrossel, correr para o metro para apanhar o barco o mais rápido possível, ir às compras caso não o tenha feito na hora de almoço, ir deixar as compras a casa, aproveitar estupidamente para fazer as camas, lavar a loiça do jantar do dia anterior e do pequeno-almoço, aspirar o chão e preparar as coisas para os banhos, sair de casa a correr, ir buscar os miúdos, dar os banhos, alimentar o mais pequeno, adormecê-lo enquanto deixo a irmã ver mais desenhos animados do que deveria, correr para a cozinha para adiantar o jantar enquanto finjo que finalmente dou alguma atenção à minha filha. Já estou cansada.

Quando nos sentamos a jantar, já a birra de sono da mais velha atingiu o seu auge, é raro conseguirmos jantar sem choros, pedidos de chucha ou para ir à casa de banho de minuto a minuto, tentamos conversar mas só queremos jantar depressa, metê-la a lavar os dentes para vestir o pijama e o pai ir ler uma história para dormir.
De repente a casa fica em silêncio, o pai adormece a filha, eu levanto a mesa, arranjo as roupas para o dia seguinte e em menos de nada estou deitada no sofá, não demoro muito a adormecer. Arrastamo-nos para a cama.

Quando a Diana me convidou para escrever um texto, disse que só não valia dizer que os filhos são o melhor do mundo. Mas caraças, os filhos são o melhor do mundo, os meus são. Os sorrisos do meu filho tiram-me instantaneamente o cansaço e as conversas da minha filha fazem-me rir à gargalhada. O que me lixa é a falta de tempo para dormir, para poder usufruir dos meus filhos com toda a calma e paciência que eles merecem. No fundo, sou só uma mãe suburbana que precisa de dormir.

Susana Almeida é mãe de dois, trabalha a tempo inteiro, utiliza transportes públicos, mas não por razões ambientais e, acima de tudo, é uma mulher que precisa de dormir.