Por: Catarina Fernandes Raminhos
Ilustração: Rita

Ultimamente, o espelho tem-me inventado cabelos brancos. Muitos. Bem grossos e espetados, para sobressaírem bem entre os meus verdadeiros fios de cabelo, de tom castanho-escuro.

Como se não bastasse, faz-me aparecer uns papos nos olhos, especialmente depois de noites mal dormidas – que, vendo bem, são quase todas. Esses papos deixam-me incrivelmente parecida com a minha mãe e, francamente, não me parece que isto seja bom…
O espelho teima ainda em criar um efeito – qual app da moda para iphone – que deve ter a ver com a lei da gravidade, uma vez que na imagem tudo aparece mais descaído. Para o espelho, eu não tenho 35 anos. Tenho 50. E o cabrão já se vai rindo porque com o terceiro bebé a caminho, lá para o verão chego aos 60 que é um mimo.

Por muito que se tente fugir ao lugar comum, o tempo passa mesmo a voar. Caraças, ainda ontem andava a tentar disfarçar borbulhas na testa e a descobrir os êxitos pré-“Monster” dos R.E.M. e agora sou mãe de duas (e meio, vá). E quando se é mãe, essa característica passa imediatamente para o topo daquilo que nos define. Já não importa se somos a Catarina, se somos editora de conteúdos em televisão ou se somos a irmã da Sara e da Joana.
Sou mãe da Maria Rita e da Maria Inês. É este o meu rótulo, a minha tarefa, com toda a carga que tem. E sou tudo o resto lá pelo meio também. Parece que estou num ‘pinball’ da vida real e sou aquelas barras que chutam a bola para cima, impedindo que caia no buraco.

Pinball

É um fenómeno meio esquizofrénico, este, em que tudo se mistura. Não é? O cansaço da rotina e a doçura que encontro nos olhos delas quando chego a casa; o corpo a sentir-se amarrotado enquanto elas repetem que a mãe é a mais linda; a vontade de estar sozinha, contrariada pelos infinitos “adoro-te”, embrulhados em corações doces e beijos. Passar o dia a tratar de coisas sérias e chorar a rir com a conversa das duas ao jantar.

É sonhar acordada por um fim-de-semana a dois, de namoro e descanso, e volta e meia falar delas, das coisas que aprenderam durante a semana, das saídas da mais velha e dos dramas da mais nova. Pensar no que estarão a fazer naquele momento e chegar à conclusão de que “temos de voltar cá com elas, iam gostar disto”.

Muitas vezes, penso nas miúdas como o maior dos desafios. Como a causa dos cabelos brancos, dos papos nos olhos e das maminhas a obedecerem à lei da gravidade. Mas elas são, sobretudo, a minha maior fonte de retorno, de realização e de energia. Já vos tinha dito que achava isto tudo meio esquizofrénico, não já?

Catarina Fernandes Raminhos é jornalista e editora de conteúdos de televisão. É também mãe das Marias (Rita, Inês e Leonor, que ainda está na barriga). E irmã mais velha da Sara e da Joana. E muitas outras coisas ao mesmo tempo, nomeadamente ocasional colaboradora do Amãezónia.