Está na hora de combater a culpa materna. De nos fustigarmos sem razão, de pararmos de querer ser sempre melhores, até ao limite das forças. 

Texto: Diana
Ilustração: Rita

A culpa é um sentimento tramado que ataca até a menos católica das mães. E não é quando se mata alguém (embora a culpa também possa surgir nessas ocasiões – talvez seja mesmo conveniente que aconteça), é quando tens um filho. A culpa materna nasce no momento em que o bebé sai cá para fora e nunca mais, NUNCA MAIS, desaparece.

Há várias coisas que provocam culpa numa mãe. Não ser suficientemente boa. Não saber porque é que o filho está a chorar. Não o estar a educar bem. Não ter tratado da máscara do Carnaval. Deixá-lo a dormir nos avós de vez em quando. Não fazer 352 actividades diferentes com ele. Não o levar à natação por preguiça. Não passar tempo suficiente com eles porque temos de trabalhar.

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  • Quanto a não ser boa o suficiente, não tem nada que saber: não lhe partiste um braço ao tentar vestir-lhe um daqueles babygrows minúsculos quando ele era bebé? Não o fechaste no armário quando tinha dois anos? Parabéns, és óptima.
  • Não sabes porque é que ele está a chorar? Porque é que havias de saber? Não é como se o choro fosse uma língua oficial que se pode aprender na escola.
  • O que é que é educar “bem”? É ensiná-los a não meter o dedo no nariz? Boa sorte com isso. É fazer deles seres humanos excepcionais? Achas mesmo que depende (só) de ti?
  • Não trataste da máscara? Eles vão ser uns traumatizados na mesma, essa vai ser só mais uma coisa para te atirar à cara.
  • Quando éramos pequenos não havia actividades e os nossos pais não brincavam connosco. E olha como estamos óptimas! E sejamos honestas: brincar é uma seca. É por isso que o deixamos de fazer lá para os 10 anos.
  • Natação? Se for aos seis anos está óptimo. Ou aos 15. Há pescadores que não sabem nadar, pelo amor de deus.

A culpa e o trabalho

Quanto ao trabalho, há umas coisas que devem ser esclarecidas. Filipa Falcão, é designer, faz ilustração, graphic motion, entre outras coisas. Criou o Olga Studio e, como 90% das mulheres que são mães e trabalham, sente-se culpada: “Estar com o meu filho e vê-lo crescer é o mais importante na minha vida. No entanto, o meu trabalho realiza-me muito e, de alguma forma, a minha empresa também é algo que quero ver crescer. Assim sendo tenho de tentar equilibrar as coisas para ter tempo para tudo. Por vezes não é fácil e quando o trabalho aperta muito sinto-me culpada por não estar tanto tempo com o André. Mas tudo se compensa, e depois desses períodos de mais trabalho tiro uns dias para ficar só com ele. E quando o meu filho fica doente posso ficar com ele sem ter problemas com o patrão.”
Mas nem toda a gente consegue fazer este jogo das compensações e é aí que tudo se torna ainda mais difícil.

A primeira vez que me senti culpada foi quando decidi que já não queria dar de mamar. Um mês e meio depois de a minha filha ter nascido assumi, finalmente, que detestava tê-la pendurada em mim de duas em duas horas. Detestava estar ali à mercê dela, detestava ser a única pessoa do mundo que a podia alimentar. E mesmo quando o meu marido me disse que não havia razão para me sentir culpada, mesmo quando uma amiga pediatra me assegurou que o que importava era eu estar feliz, a culpa não me largou.
Quando a minha licença de maternidade acabou, fiquei feliz por poder voltar ao trabalho. Feliz por ver adultos, por poder fumar à vontade, por ter conversas com interlocutores que sabiam, efectivamente, falar, feliz por poder voltar para a minha profissão. Quando me despedi da minha filha, deixando-a ao cuidado do pai, chorei. Senti-me culpada por estar feliz por sair de casa.
No Inverno sinto-me culpada por só ir buscá-la à escola depois da seis, quando já não há luz do sol e está frio. Fico ansiosa e contrariada por ter de cumprir um horário que me afasta da minha filha. Quando finalmente chego à escola, desejosa de a trazer para casa, ela nunca quer vir porque está demasiado divertida. Bem feita para mim e para a minha culpa irracional.

Os miúdos estão bem

A verdade é que os nossos filhos não precisam de nós a toda a hora e nós também não queremos estar com eles a toda a hora. Pelo menos a partir do momento em que fazem dois anos e se tornam pequenos monstros birrentos e com mais energia do que uma formiga em preparação para o Inverno. Trabalhar é bom, realiza-nos, pode fazer-nos felizes e mais completas.
Os nossos filhos não vão ser mais felizes por estarmos presentes em todos os eventos da vida deles, em todas as metas alcançadas, por fazermos um álbum de fotografias por cada ano de vida, por fazermos bolinhos todos os fins-de-semana, por sermos as melhores companheiras de brincadeiras do mundo.

Fazer uma lista com as razões pela qual se trabalha – deixando o dinheiro de parte  (já se sabe, é sempre a razão mais forte), pode ser uma boa ajuda para acabar com a culpa. Trabalhas porque gostas do que fazes? Gostas de estar com os teus colegas? Estás a construir uma carreira promissora? Precisas de sair de casa todos os dias? Adoras levar o almoço numa marmita? Todas as razões são válidas. E nenhuma delas significa que não gostes dos miúdos mais do que qualquer coisa. Só que nós e os nossos filhos não somos uma e a mesma pessoa, ao contrário de Cindy Crawford e Caitlyn Jenner. A sério, são iguais.

Há muitos sacrifícios que se fazem pelos filhos: deixá-los comer o final do nosso cornetto, mudar-lhes a cama a meio da noite porque fizeram chichi, pegá-los ao colo na subida mais íngreme do mundo, fazer-lhes sopa todas as semanas para que cresçam saudáveis, deixar de comer para que eles comam. Anularmo-nos não está na lista.

A culpa que se sente é provocada por expectativas irreais da sociedade, da família, dos livros, da televisão, da nossa própria cabeça carregada de hormonas parvas durante a gravidez. Não vale a pena sentir culpa, como não vale a pena esforçarmo-nos por ser perfeitas: além da perfeição não existir, quando os filhos entrarem na adolescência vão detestar-nos na mesma. Só voltarão a olhar para nós e a reconhecer-nos como pessoas quando eles próprios tiverem filhos ou passarem dos 30. Imagina se tiveres deixado de trabalhar ou de existir por causa deles – o que é que vais fazer da tua vida quando eles tiverem a sua vida?