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Março 2016

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Semana sim, semana não, o Amãezónia abre as portas à educação, com histórias incríveis – e verdadeiras – sobre miúdos e as suas lutas diárias com eles mesmos, a escola e o mundo.  Texto: Alda Couto Ilustração: Rita *Todos os nomes usados nos textos da autora são fictícios, de forma a proteger a identidade dos intervenientes. Quando foi ter comigo devia ter aí uns nove anos. Eu nunca desisti dela mas ela desistiu de mim. Chamo-lhe a minha primeira frustração. Chorava por tudo e por nada. Sobretudo por nada. Quando apareceu na sala de estudo decidimos que seria melhor ficar a cargo da minha sócia. Formada em Psicologia e com mais experiência do que eu, seria a pessoa ideal para compreender e acompanhar a Ana. Afinal estávamos enganadas. Não era uma questão de técnica, era uma questão de afetos. Pouco tempo depois de ter entrado para a sala de estudo, a Ana passou para a minha mesa.  Os choros reduziram mas a vontade de trabalhar não aumentou e, sempre que se sentia pressionada, chorava. Com ela aprendi…

Texto e ilustração: Rita Se houve uma altura da minha vida em que me queixava praticamente todos os dias por não dormir, com o passar do tempo, custa-me até pensar no tema. Sou invadida por uma enorme angústia no coração, sinto formigueiro nas mãos, nos pés e na cabeça, arritmia cardíaca e culpa por estar a voltar ao assunto mais uma vez. Escrever sobre isto é como deitar-me no divã do psicanalista, abrir a caixa de Pandora e expurgar do meu interior tudo sobre uma época que teve tanto de mágica como de dura. Eu tinha uma ideia muito descontraída da maternidade, a minha imaginação ilustrava o tema com imagens hippies: eu na praia ao pôr-do-sol, com um bebé ao colo, flores na cabeça, e o meu marido a tocar guitarra, todos sorridentes. Porém, a realidade está muitas vezes a milhas da imaginação. Quando o bebé nasce há mil responsabilidades, truques e…

Todas as sextas-feiras Dr. Ponte receita-nos música. Ponham os phones, carreguem no play, leiam o texto e não pensem em mais nada. Quando a minha filha era mais pequena do que é agora as canções favoritas dela não tinham nada a ver com os Caricas e as ladainhas infantis do costume, as tais que depois veio a descobrir. A cena dela era outra: “Everyday People”, dos Sly & The Family Stone, “Let’s Get it On”, de Marvin Gaye, e “5 Seconds to Your Heart”, de Twin Shadow. Conclusão: as crianças quando nascem, fazem-no para o melhor que a vida tem – o rock’n’roll e a soul. Nascem para a dança, para por o corpo a mandar, para suar com gosto. Não se pode temer dar aos garotos aquilo que gostamos. Isto vale para a comida e também vale para a música. E musicalmente falando, são os infantários e os avós deste mundo…

Ágata Xavier vai mostrar-nos que as miúdas são as maiores, com perfis de mulheres únicas e incríveis. Cada uma à sua maneira. Ilustração: Rita Comecemos pelo fim. A Abby Wambach tem 35 anos, mais dois do que eu, e reformou-se em Outubro do ano passado. No mundo do futebol, deixar de jogar à bola profissionalmente dá pelo nome de pendurar as botas (ou as chuteiras) e pode ser doloroso – como podem ver aqui e aqui (neste último, a Abby aparece aos 9:23). É conhecida por falar muito quando está nervosa e em campo diz asneiras e pragueja o tempo todo. Não teve uma família, mas uma mini equipa, já que é a mais nova de sete irmãos (duas raparigas e quatro rapazes) que cresceram em Rochester, um subúrbio de Nova Iorque. Começou a jogar à bola aos quatro anos, depois de a mãe lhe ter trazido um livro da biblioteca…

Texto: Diana Ilustração: Rita Lembro-me de condenar os pais que permitiam que os filhos se atirassem para o chão em birras épicas, no meio da rua, do supermercado, das lojas. Cheguei a ver um rapazinho, em pleno voo kamikaze, a aterrar aos meus pés, batendo com os punhos no chão, a chorar em desespero. A mãe olhava-o com um misto de vergonha e resignação e não se apressou a levantá-lo. Costumava condenar os pais dos miúdos que gritavam e berravam em público, bem como os pais que deixavam que os filhos corressem pelos restaurantes como selvagens. Mas depois fui mãe e levei um estaladão de realidade, daqueles bem assentes, com a mão toda aberta. Bem feita para mim. Desde bebé que a minha filha tem uma personalidade forte. Nasceu com os olhos abertos, muitos escuros, e ficava a olhar para mim, a estudar-me, muito séria, à espera não sei bem de quê (provavelmente de comida, a…

Texto: Susana Almeida Ilustração: Rita O que me lixa é a falta de tempo. Esse cão que nos rói os ossos. Sou mãe de uma menina de três anos e de um menino de nove meses. E o que me lixa é a falta de tempo para dormir. Sou uma mãe suburbana, das que acordam às 6h da manhã num dia bom e atravessam o rio em direcção a Lisboa. Quando o despertador toca, a noite foi regra geral mal dormida. A filha crescida já veio para a nossa cama há várias horas, já chorou por não encontrar a chucha, já resmungou porque não tem frio e não se quer tapar, já espetou os joelhos nas minhas costas ou os pés na cabeça do pai. O filho pequeno já acordou para comer, já chorou porque não consegue apanhar a chucha, já chorou só porque sim. Quando abrimos a porta de…

Ter uma alimentação vegetariana não é viver à base de ervas e salsichas de soja. A Rita explica, dá dicas e receitas. Texto e ilustração: Rita A Diana, essa grande carnívora, pergunta: “Ser vegetariano dá uma trabalheira do caraças, não é? Vocês não podem comer qualquer porcaria!” E eu, sem ser uma verdadeira vegetariana (ainda), porque como peixe, respondo: “mais ou menos. Dá algum trabalho às vezes, sim, mas dá-me tanto trabalho a mim fazer hambúrgueres de grão, como a ti fazer hambúrgueres de carne de vaca picada, daquela bem vermelhinha, que quase esperneia no saco das compras”. (Desculpem não consegui evitar a laracha.) Na verdade não tento convencer absolutamente ninguém a fazer a opção de comer menos carne ou de seguir uma alimentação vegetariana, faço o que me dá na bolha e normalmente deixo os outros fazerem o que lhes dá na bolha a eles, sem criar grandes ondas…

Todas as sextas-feiras Dr. Ponte receita-nos música. Ponham os phones, carreguem no play, leiam o texto e não pensem em mais nada. Se chegou à maternidade há relativamente pouco tempo – ou seja, se a criança tem menos de cinco anos, vá – então é muito alta a probabilidade de ter estado apaixonada por Jeff Buckley quando corria o ano trágico de 1997, o mesmo em que o músico morreu, afogado no Mississippi. É quase certo que passou os ouvidos pelas canções do único álbum que Buckley deu ao mundo em vida, “Grace”. E depois de o ter escutado de uma ponta a outra vezes sem conta – porque uma amiga ou um amor adolescente lhe passou o CD ou a cassete (a história dos MP3 ainda estava a começar) enquanto lhe dizia “já ouviste isto? tens de ouvir isto” – ficou com a certeza que Jeff, o querido Jeff, cantava todas…

Semana sim, semana não, o Amãezónia abre as portas à educação, com histórias incríveis – e verdadeiras – sobre miúdos e as suas lutas diárias com eles mesmos, a escola e o mundo.  Texto: Alda Couto Ilustração: Rita *Todos os nomes usados nos textos da autora são fictícios, de forma a proteger a identidade dos intervenientes. Encontrei-o à saída do cinema. Casado. Reconheceu-me imediatamente, sorriu-me, cumprimentou-me com um beijo e apresentou-me a mulher. Também eu o reconheci imediatamente apesar da barba. O olhar é o mesmo de quando tinha dez anos e se sentou pela primeira vez à mesa da sala de estudo, onde eu reunia oito crianças de cada vez para as ajudar a compreender o que na escola não compreendiam. Confesso que me vi aflita para me lembrar do nome. Os rostos, as suas expressões, a transparência dos olhares são o que marca, na minha memória, a individualidade de…